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Cena de ‘Vale Tudo’ faz subir pedidos de pensão alimentícia em todo Brasil

Uma única frase dita em horário nobre foi o estopim para reacender uma conversa necessária — e urgente — sobre pensão alimentícia no Brasil. “A gente tem que mudar isso aí, filho não é problema de mãe não!”, disse a personagem Lucimar, interpretada por Ingrid Gaigher, em uma cena impactante da novela Vale Tudo. Em pleno mês das mães, a televisão escancarou uma realidade vivida por milhões de brasileiras: a sobrecarga da maternidade solo e a busca por justiça.

DA FICÇÃO PARA A VIDA REAL: A CORAGEM DE LUCIMAR INSPIRA MULHERES

Na trama, Lucimar decide romper o ciclo de abandono parental e procurar a Defensoria Pública para formalizar tanto a guarda quanto a pensão alimentícia do filho que criou sozinha por oito anos. O que chamou atenção foi o modo: ela fez tudo por um aplicativo de celular — algo que muita gente ainda não sabe que existe.

A repercussão foi imediata. Na mesma noite em que a cena foi ao ar, o aplicativo da Defensoria Pública do Rio de Janeiro registrou um salto impressionante: de 1 mil acessos por minuto para 4,5 mil. O resultado? Mais de 1.100 atendimentos agendados em tempo recorde. Em São Paulo, o impacto também foi forte: quase mil atendimentos a mais de um dia para o outro.

COMO FUNCIONA O PEDIDO DE PENSÃO PELA DEFENSORIA?

Você sabia que é possível solicitar pensão alimentícia sem sair de casa? No Rio de Janeiro, por exemplo, o serviço está disponível por aplicativo.

E quem pode pedir? Pessoas com renda de até três salários mínimos, com acesso gratuito ao serviço. Basta reunir os seguintes documentos:

Além disso, é recomendável apresentar notas fiscais e comprovantes de gastos com alimentação, educação, saúde, moradia e lazer da criança.

“Todos os gastos e notas fiscais de coisas que são para a criança, inclusive aluguel, ajudam a estabelecer o valor”, explica Thais dos Santos Lima, coordenadora de Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública do Rio.
“Mas a obrigação existe independente de comprovar os gastos”, reforça.

PENSÃO NÃO É OPÇÃO: É DIREITO DA CRIANÇA

A pensão alimentícia considera não apenas a capacidade de pagamento do genitor, mas também o esforço invisível, porém valioso, do cuidado diário, que em sua maioria recai sobre as mulheres.

“As pessoas acham que é metade, metade. Não é. Tem o trabalho de cuidado, que tem valor econômico, e a condição do pai”, ressalta Thais.

E se o pai perde o emprego? Isso isenta a responsabilidade? A resposta é não. A Defensoria reforça que o genitor deve buscar alternativas da mesma forma que as mães fazem quando estão em situação de vulnerabilidade. Afinal, como disse Thais:

“Elas dão um jeito no dinheiro e dão um jeito no cuidado.”

QUANDO COMEÇA E QUANDO TERMINA A PENSÃO?

A pensão pode ser solicitada desde a gestação, cobrindo despesas com pré-natal e enxoval. Em média, ela deve ser paga até os 18 anos. Porém, se o filho estiver estudando em curso superior, o prazo pode se estender até os 24 anos — ou além, no caso de pessoas com deficiência.

Importante: não é permitido suspender o pagamento por conta própria. A única forma legal de encerrar a obrigação é pedindo a revisão judicial.

ATRASOS E PENALIDADES: O QUE ACONTECE?

Quando o pagamento atrasa ou é feito de forma parcial, o Judiciário pode aplicar sanções que vão desde bloqueio de contas bancárias, salários e bens até a prisão do devedor por até três meses.

“A prisão é o instrumento mais forte que tem para pressionar o pai, mas o juiz também pode determinar que ele fique com o nome sujo”, afirma a defensora.

O PESO DO ABANDONO E A REALIDADE DAS MÃES SOLO

No Brasil, 11 milhões de mulheres são responsáveis sozinhas pelos filhos ou dependentes, segundo a FGV. A ausência paterna é muitas vezes suprida por uma rede feminina de apoio: avós, tias, amigas. Mas nem sempre isso basta.

“Demandas como pensão alimentícia, guarda e regulamentação de visitas levam tempo para serem julgadas e quando finalmente há uma decisão, os valores fixados muitas vezes são insuficientes para cobrir sequer os custos básicos da criança”, alerta a advogada Sueli Amoedo.

Em regiões sem Defensoria Pública, as mães podem buscar a assistência jurídica oferecida pelas prefeituras — um recurso importante, sobretudo para evitar o esgotamento físico e emocional que tantas mães enfrentam.

QUEM SUSTENTA OS LARES BRASILEIROS?

De acordo com o IBGE, quase metade dos lares do Brasil são chefiados por mulheres (49,1%). Em estados como Pernambuco, Sergipe, Maranhão e Rio de Janeiro, essa proporção ultrapassa os 50%. Muitas dessas mulheres são mães solo, sobrecarregadas por responsabilidades múltiplas.


Uma cena de novela, um clique no celular, um passo rumo à justiça. A história de Lucimar pode ser ficção, mas reflete a realidade de milhões. E você? Já sabe como garantir o direito do seu filho?

Se precisar, procure a Defensoria Pública do seu estado. A justiça começa com informação.

Fonte: Agência Brasil

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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