“Transição: Expansão”: mostra retrata a mudança física como arte

Os limites entre o biológico e o artificial, as memórias corporais transmasculinas em expansão e as complexidades e subjetividades queer ganham linguagem artística em “Transição: Expansão”, da artista visual alagoana bruCa teiXeira, que chega pela primeira vez à capital catarinense. Sua agenda inclui também uma oficina dirigida, em execução.
A exposição da doutoranda em artes visuais pela UnB (Universidade de Brasília), cineasta e pesquisadora estreia nesta terça-feira, dia 12, das 16h às 18h, no Memorial Meyer Filho, no Centro Histórico de Florianópolis.
Entre os múltiplos títulos, bruCa, que também é bióloga marinha, é um dos indicados ao Prêmio Pipa 2025, o maior do cenário brasileiro destinado a revelar e valorizar os artistas visuais.
Ele foi lançada ao cenário nacional com obras como “Quando o Corpo se Torna Escultura”, dedicadas à despedida de seus seios. Também em 2024 cria a escultura “Xixilindró”, que denuncia a criminalização dos corpos trans em banheiros públicos no país. E “A Alegria da Mulher sem Tetas”, série feita com as tapes utilizadas nos seis meses antes da mamoplastia. Em 2022, já havia apresentado “Meninas de Mirian” no Museu de Artes Visuais da USP (Universidade de São Paulo).
A artista costuma dizer que habita a dobra entre a lesbianidade e a transmasculinidade como uma zona ecológica viva. Vem documentando suas próprias transformações corporais com a mamoplastia e hormonização como parte de um fazer artístico. Nascida em 1982, ela vive e trabalha entre sua terra natal, Maceió (AL), e Brasília, como doutoranda em artes visuais na Unb (Universidade de Brasília).
Com curadoria de Fran Favero, que a convidou para mostrar seu trabalho na capital catarinense, a mostra reúne linguagens artísticas múltiplas e híbridas, onde conecta arte, ciência e tecnologia às vivências de um corpo que recusa categorias pré-determinadas, em um percurso marcado por intervenções, despedidas e ampliações.
“Se as existências queer são invisibilizadas, a resistência se apresenta em forma de infiltração, fluidez, escuta, subtração, estremecimento, amassamento, em um expansão do que um corpo pode e deseja ser”, destaca. “Nunca me interessou em dizer que sou um homem trans”, revela a artista, que conseguiu dar leveza e transformar a mamografia espontânea a que se submeteu em arte.
Nascida Bruna, ela acabou adotando o nome artístico bruCa, um apelido dado por amigos. E optou por uma grafia diferenciada que, segundo ela, não tem nenhum significado maior do que o fato de gostar de brincar e intercalar letras maiúsculas e minúsculas. Da mesma forma, frisa que no próprio material de divulgação da exposição “Transição: Expansão” a palavra transição está cortada, o que representa um novo momento em sua jornada artística e pessoal, em que a transição dá espaço para a expansão.
A CURADORA
Curadora, artista, gestora e pesquisadora, a catarinense Fran Favero é colega de bruCa no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UnB, na linha de Arte e Tecnologia. Mestra em Artes Visuais pelo Programa de Pós-Graduação da Udesc, atualmente é diretora do Museu Nacional da República, em Brasília. Entre suas curadorias mais recentes estão “Mulheres Artistas: Acervo em Expansão”.
PARA VISITAR
Quando: de 12 de agosto a 2 de setembro de 2025 (de segunda à sexta, das 12h às 18h)
Onde: Memorial Meyer Filho (praça 15 de Novembro, 180, Centro, Florianópolis)
Realização: Instituto Meyer Filho e Projeto Integrado DAV/Ceart/Udesc.
Apoio: Banco do Brasil, Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes e Prefeitura de Florianópolis.
Organização: PRAPEGs Bacharelado e Licenciatura em Artes Visuais DAV/Ceart/Udesc
Oficina “Fabulações e Futuridades”
Enquanto prepara a exposição, bruCa TeiXeira realiza a oficina “Fabulações e Futuridades: Imaginários Cuir em Videoarte, IA e Animação”, em que desafia os participantes a imaginar futuros que escapem à lógica binária, ao pensamento colonial e à ecologia linear, a partir da criação de vídeos curtos, experimentações com animação e manipulação de imagens por IA.
“Partimos de pesquisas e obras que nos mostram como temas-chave das artes visuais podem ser reimaginados, desde o ponto de vista LGBTI+ (a exemplo de forma, materialidade, representação); e como as posições transgêneras e não-binária nos convidam a olhar para esses termos de forma diferente”, explica.





