Do viral ao vexame: a linha tênue das redes sociais

Há seis anos o marketing político entrou com tudo na minha vida profissional. Políticos, instituições e candidatos somam mais de 70% do meu trabalho hoje. E quanto mais eu vivo esse meio, mais cresce uma certeza: a incansável busca por likes quase sempre resulta em pérolas da comunicação sem noção.
Na semana passada, um post collab revelou ao mundo que Virginia Fonseca e Vini Jr. tornaram-se, de fato, um casal. Ela, nada menos que a terceira influenciadora mulher com mais seguidores no Brasil: 53 milhões. Ele, astro da Seleção Brasileira de Futebol, idolatrado por muitos fãs desse esporte que é paixão nacional. No feed, a imagem de uma cama com pétalas de rosa, ursinho de pelúcia e balões em formato de coração e da palavra love – além do casal sorridente. Foram nada menos que dez milhões de likes.
Para minha surpresa (nem tanta, pra falar a verdade), no dia seguinte as redes sociais foram invadidas por uma enxurrada de posts com a mesma imagem duvidosa desses “heróis” do mundo digital. Marcas, indústrias, políticos e instituições públicas usaram versões da cama de 10 milhões de likes para comunicar todo tipo de entrega, conquista ou rotina. Se você é uma empresa de comunicação e quer construir reputação mostrando conexão com as trends digitais, tudo certo. Agora, se você é político ou instituição, a história é outra. Ou deveria.
O presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta entrou na cama (ops, na trend) para anunciar uma proposta de valorização de professores e servidores públicos. Na breve uma hora que o post se manteve nas redes, não deu outra: virou piada nacional. E logo foi apagado pelo parlamentar. O problema é que na era virtual, apagado não significa esquecido. A história ganhou a internet e inúmeros marqueteiros comentaram o fato em suas próprias redes. O post equivocado chegou até mesmo na imprensa, no portal de notícias uol – como um exemplo de mau uso das “oportunidades” que as redes sociais “oferecem” diariamente para políticos e instituições viralizarem seus conteúdos.
Nesse caso em específico, a repercussão tem razões próprias. Virginia Fonseca acabou de marcar presença numa CPI cheia de polêmicas, envolvendo o ainda mais polêmico tema das bets. A moça ganha, em média, 30% do valor que os apostadores perdem. Basicamente, sua fortuna se constrói, dia após dia, incitando cidadãos a “investirem” seu dinheiro em apostas virtuais – e lucrando com as dívidas de cada um deles. Vini Jr. está todos os dias no horário nobre das principais emissoras vendendo – adivinhem? – bets. O caso de Hugo Motta nos leva a uma das grandes verdades do mundo digital: associar-se a virais só faz sentido quando isso nos ajuda a construir a nossa própria reputação.
Nas Redes Sociais, tão importante quanto escolher suas batalhas é selecionar as trends que você vai aderir – principalmente para políticos e instituições. Não é porque é viral que funciona pra você. Não é porque estão falando que você tem que se pronunciar. Não é porque teve mais de 10 milhões de curtidas que acrescenta algo à sua comunicação. E, sobretudo, não é porque você não vai postar que alguém vai reparar – dura verdade que quase todo mundo esquece na incansável busca por likes (vazios).
É lógico que muitas trends podem potencializar a comunicação: é quando chamamos de conteúdos de oportunidade. Um deles, inclusive, aconteceu recentemente, numa parceria entre a marca Jeep e o desenho animado Peppa Pig (sou fã!). Mamãe Pig ficou grávida de Baby Evie e saiu em busca de um carro maior, que comportasse os cinco Pig. A Jeep prontamente criou uma campanha para rede social, onde apresentava seu Compass à família, com a promessa de mais espaço e conforto. Uma fofura, em que todos saem ganhando e ninguém passa vergonha.
Outro exemplo, político agora, foi o post feito pelo presidente nacional do Sebrae Décio Lima celebrando o show de Lady Gaga no Rio de Janeiro. Ora, mas o que o catarinense tem a ver com a pop star que já vendeu mais de 170 milhões de discos? Nada. Mas um show desse porte sempre movimenta a economia local e rende empregos e oportunidades – exatamente os objetivos da instituição que Lima lidera. Mais um exemplo de conteúdo de oportunidade, sem oportunismo.
E fica a lição, para Hugo Motta e todos que desejam uma comunicação digital estratégica: confira sempre antes o que vai para as suas redes sociais. Ou contrate profissionais que saibam priorizar a reputação em vez do like.



