De recordista de votos ao isolamento: Jair Renan enfrenta rejeição inédita em SC

Carlos Bolsonaro confirmou em um discurso na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, na última semana, a sua pré-candidatura ao Senado por Santa Catarina. Apesar da polêmica gerada no meio do PL, a migração de Bolsonaros para o território catarinense não é notícia nova: o 02 não é pioneiro do clã a tentar a vida política aqui, afinal. Esse mérito pertence a seu irmão mais novo, Jair Renan, que deu o primeiro passo da incursão do clã no Estado em 2024, ao ser eleito vereador por Balneário Camboriú.
Assim como agora acontece com o PL estadual, o anúncio da candidatura do 04 gerou, à época, um racha na representação municipal da legenda. Muitos representantes do partido na cidade se incomodaram com o que afirmaram ser uma intromissão da direção nacional. Mesmo assim, Jair Renan foi eleito — o mais votado entre todos os 19 vereadores da “Dubai brasileira”, com 3033 votos no total.
Mas a votação expressiva não se refletiu em um mandato de destaque. Agora há quase um ano no legislativo municipal, ele se mantém firme na oposição à prefeita Juliana Pavan (PSD), e demonstra estar em um caminho de auto isolamento, inclusive entre seus colegas de direita, com quem acumula uma série de desafetos.
Oposição
“Ele quase não fala, não aparece. […] Respeito o posicionamento dele, apesar de ele quase não se posicionar, e, quando se posiciona, eu não consigo entender o que ele fala”: assim Juliana Pavan descreveu o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, em uma entrevista concedida ao podcast “Cabeça de Político”, em setembro. A prefeita de Balneário Camboriú havia sido questionada sobre a atuação de Jair Renan na Câmara, e a relação entre os dois. Segundo ela, o parlamentar precisa “buscar um pouco mais de capacitação daquilo que ele vem se posicionar”.
Ele respondeu a prefeita após o episódio. Em uma publicação no X, antigo Twitter, ele a chamou de “analfabeta funcional”, e afirmou que ela seria “ruim de esquerdista”.
Desde o início de seu mandato, o 04 se mantém firme na oposição ao governo de Juliana — muitas vezes às custas de sua articulação com outros colegas de legislatura. Em agosto, ele foi o único a votar contra um projeto de lei de autoria da prefeita, que visa combater o furto de fios na cidade. Sua posição divergiu inclusive de outros vereadores da oposição ao governo municipal, que na ocasião acompanharam a base do governo no apoio ao projeto.
Hoje, a oposição em Balneário é formada principalmente por vereadores do PL. Em 2024, o partido apostou na eleição de Peeter Grando, escolhido para suceder o então prefeito Fabrício Oliveira (PL). Perdeu, e Juliana Pavan foi eleita em primeiro turno, com 42% dos votos válidos, e desde então, Jair Renan integra o bloco contrário a ela na Câmara.
Desafetos
Mas a prefeita não é o único desafeto de Jair Renan em Balneário Camboriú. Ele também coleciona desentendimentos com outros vereadores no dia a dia da Câmara — o mais recente, com o presidente da Casa, Marcos Kurtz (Podemos). Em um discurso realizado durante uma sessão parlamentar, o vereador questionou a atuação legislativa do 04, chamando-o de “Tiririca de Balneário Camboriú” após uma troca de farpas nos bastidores.
“O senhor pediu para discutir em plenário as coisas, mas o senhor não discute nada. O senhor não abre a boca, só fala fora de hora, fica resmungando toda hora aqui”, disse Kurtz, que na ocasião havia sido chamado de ‘Xandão de BC’ pelo filho do ex-presidente. “Já que o senhor gosta tanto de fazer comparações, eu acho que o senhor é parecido com o Tiririca”.
Mandato ideológico
Tal qual o deputado federal, eleito em 2010 por São Paulo e hoje em seu quarto mandato consecutivo, Jair Renan tem pouca expressão enquanto parlamentar. Nos primeiros 11 meses enquanto vereador, ele apresentou apenas doze projetos de lei, dos quais cinco foram arquivados. O de maior relevância — marcado pelas ideias recorrentes nos discursos de membros do clã Bolsonaro — buscava proibir “doutrinação ideológica ao comunismo, socialismo e nazismo no âmbito do ensino escolar” no município.
O projeto foi barrado pela Casa Legislativa após recomendação da Procuradoria-Geral do município, que alertou para uma série de inconstitucionalidades no texto. Segundo o órgão, o projeto violava a liberdade de cátedra e afrontava a competência privativa da União para legislar sobre diretrizes e base da educação nacional.
Com foco quase sempre em pautas ideológicas, o parlamentar apresentou um projeto que combate a “erotização infantil”, por meio de medidas de conscientização a serem adicionadas no programa pedagógico das escolas municipais. Outra proposição do vereador busca proíbir a contratação pela prefeitura de artistas que façam apologia ao crime organizado ou ao uso de drogas. Ele também moveu no início do ano uma moção de repúdio ao presidente Lula, por conta de restrições impostas pelo governo federal à pesca artesanal da tainha.
Exemplo?
Se Jair Renan foi o pioneiro de seu clã em Santa Catarina, espera-se que seu irmão mais velho não siga seu exemplo de isolamento e baixa produtividade enquanto possível representante do Estado no Senado Federal. A depender de seu histórico na Câmara do Rio Janeiro, nossas esperanças são um tanto infundadas — isso porque Carlos teve trajetória similar à do 04 durante seus 25 anos como vereador carioca. Um senador, no entanto, tem responsabilidades um pouco maiores do que o legislativo municipal exige.





