TurismoArtigos de opinião

Turismo além do sol e da praia: por que alguns destinos aprendem e outros repetem erros – Artigo por Ana Paula Lisboa Sohn

Quando pensamos em destinos turísticos bem-sucedidos, a primeira imagem costuma ser a de praias cheias, hotéis lotados e números expressivos de visitantes. Mas essa visão esconde uma questão central: o que diferencia destinos que conseguem inovar, se reinventar e se sustentar ao longo do tempo daqueles que apenas repetem fórmulas até o esgotamento? A resposta não está apenas no marketing, na infraestrutura ou na paisagem natural, mas na forma como o conhecimento circula — ou não — entre os atores que compõem o turismo.

O turismo depende da articulação entre empresas, trabalhadores, governos, universidades, associações e comunidades locais. Quando essa articulação funciona, falamos em clusters turísticos: concentrações territoriais de atividades interligadas que, em tese, favorecem cooperação, aprendizagem coletiva e inovação.
Na prática, muitos destinos se tornam apenas aglomerados de negócios que coexistem sem realmente aprender uns com os outros.

A chave para entender essa diferença está na transmissão de conhecimento. Destinos inovadores são aqueles que conseguem transformar informação em aprendizado coletivo e aprendizado em ação. Isso não acontece espontaneamente.

Em estudos comparativos entre diferentes clusters turísticos — como no caso de Portugal e de destinos brasileiros consolidados — fica evidente que o sucesso turístico depende da existência de estruturas que favoreçam o compartilhamento de conhecimento. Onde há políticas públicas coordenadas, associações ativas, canais institucionais de diálogo e confiança entre os atores, o turismo tende a evoluir. Onde isso falta, o destino pode até crescer, mas o faz de maneira frágil e desigual.

Um erro recorrente é tratar o turismo apenas como resultado de iniciativas individuais. Hotéis investem por conta própria, restaurantes competem entre si, o poder público atua de forma fragmentada. Nesse cenário, o conhecimento fica “preso” em silos: cada organização aprende sozinha, repete erros conhecidos e reage tardiamente às mudanças do mercado, da tecnologia ou do comportamento dos turistas.

Destinos mais articulados operam de forma diferente. Eles contam com intermediários do conhecimento — técnicos, instituições, associações ou lideranças capazes de traduzir informações, conectar atores e facilitar a aprendizagem coletiva. Esses mediadores ajudam empresas a acessar pesquisas, políticas públicas a dialogar com o setor privado e universidades a se aproximarem dos problemas reais do território. Sem esse papel, o conhecimento existe, mas não circula.

Outro fator decisivo é a cultura institucional. Em muitos destinos turísticos, ainda predomina a lógica da desconfiança: medo da concorrência, baixa cooperação e pouca disposição para ações coletivas. Isso limita severamente a inovação. A experiência mostra que confiança não é um valor abstrato, mas algo construído por meio de regras claras, participação contínua e resultados compartilhados. Onde a governança é transparente e inclusiva, o conhecimento flui com mais facilidade.

Em destinos onde o turismo é tratado como política de Estado — com continuidade, planejamento e integração com educação, ciência e desenvolvimento regional —, há mais oportunidades de aprendizagem e inovação. Onde as políticas são descontínuas ou excessivamente centralizadas, o conhecimento se dispersa e as iniciativas perdem força.

No Brasil, esse desafio é particularmente relevante. Temos destinos turísticos maduros, com alto fluxo e visibilidade internacional, mas que ainda enfrentam dificuldades para transformar crescimento em inovação sustentável. Muitas vezes, o turismo cresce apesar da governança, não por causa dela. A ausência de mecanismos estáveis de articulação entre setor público, privado e academia faz com que boas práticas não se consolidem e experiências bem-sucedidas não sejam replicadas.

É importante destacar que transmissão de conhecimento trata-se de criar condições para que cada território interprete sua própria realidade, aprenda com suas experiências e adapte soluções às suas especificidades culturais, sociais e ambientais. O conhecimento relevante é sempre situado.

Pensar o turismo como um sistema de aprendizagem coletiva também tem implicações diretas para a sustentabilidade. Destinos que aprendem conseguem responder melhor a crises, reduzir impactos ambientais, diversificar produtos e envolver comunidades locais. Destinos que não aprendem tendem a repetir ciclos de exploração, degradação e conflito social.

Nesse sentido, o debate sobre clusters turísticos precisa ir além da retórica da competitividade. É preciso perguntar: quem aprende com o turismo? Como esse aprendizado é compartilhado? Quem fica de fora desse processo?

O futuro do turismo depende da capacidade dos destinos de se tornarem ecossistemas de conhecimento. Isso exige políticas públicas consistentes, instituições intermediárias fortes e uma cultura de cooperação que reconheça o turismo como um fenômeno coletivo, não apenas como um negócio individual.

Em um mundo marcado por mudanças climáticas, transformações tecnológicas e instabilidade econômica, destinos turísticos que não aprendem estão condenados à vulnerabilidade. Aqueles que investem na circulação do conhecimento, na governança colaborativa e na aprendizagem coletiva têm mais chances de construir um turismo verdadeiramente inovador, resiliente e socialmente responsável.

O desafio está posto: continuar explorando territórios ou aprender com eles?


Ana Paula Lisboa Sohn é professora do Programa de Pós-Graduação em Turismo e Hotelaria da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), pesquisadora em inovação e políticas públicas de turismo. Coordenadora da Universidade da Criativa Idade.

APOIE FINANCEIRAMENTE O CONECTA SC

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao Topo