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Sanções dos EUA aprofundam crises e tensões políticas no Irã e na Venezuela

As sanções do EUA figuram como um elemento central na compreensão dos recentes conflitos envolvendo Irã e Venezuela e dos efeitos prolongados sobre as economias desses países. Alvos de ações militares e de forte pressão diplomática de Washington, as duas nações convivem há anos com cercos econômicos que, segundo especialistas e organismos internacionais, produzem impactos comparáveis aos de guerras convencionais, com reflexos diretos sobre inflação, renda, saúde pública e condições de vida da população.

Estudos recentes indicam que o uso recorrente de sanções econômicas tem se consolidado como instrumento de política externa para pressionar ou desestabilizar governos considerados adversários pelos Estados Unidos. Para avaliar como esse mecanismo fragiliza economias e tecidos sociais, a Agência Brasil analisou relatórios das Nações Unidas (ONU), pesquisas acadêmicas e ouviu especialistas da área econômica e das relações internacionais.

SANÇÃO DOS EUA E O CASO DO IRÃ

No caso iraniano, além das medidas impostas unilateralmente por Washington, o país também enfrenta sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU relacionadas ao programa nuclear de Teerã. O endurecimento dessas restrições ganhou novo impulso em setembro de 2025, após a guerra de 12 dias iniciada por Israel, ampliando o isolamento financeiro do país persa.

A economista e socióloga Juliane Furno, professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destaca que o principal efeito das sanções é a limitação do acesso do Irã a divisas internacionais.

“O agravamento das sanções, basicamente, impede ou dificulta a entrada de dólares no país. Tanto pelas sanções diretas, quanto pela dificuldade operacional do Irã em acessar o sistema financeiro internacional”, diz a economista.

As restrições incluem o bloqueio de ativos no exterior, entraves a transações financeiras internacionais, proibição quase total de comércio com os Estados Unidos e punições a empresas estrangeiras que invistam mais de US$ 20 milhões no setor energético iraniano. Segundo Furno, esse processo não é recente: teve início em 1979, após a Revolução Iraniana que derrubou um governo aliado de Washington.

Como consequência direta, o rial sofreu forte desvalorização, impulsionando a inflação. Em 2025, a taxa oficial chegou a 42%, enquanto a moeda perdeu cerca de 50% do seu valor, cenário que contribuiu para protestos recentes no país.

“Se a moeda se desvalorizava, um dos principais e imediatos efeitos é a inflação. Por isso há, de fato, uma deterioração das condições de vida dos iranianos”, completou a economista.

IMPACTOS NA INDÚSTRIA PETROLEIRA IRANIANA

Detentor da terceira maior reserva comprovada de petróleo do mundo e quinto maior produtor global de hidrocarbonetos, o Irã segue dependente das exportações de energia, apesar de possuir uma economia mais diversificada que a venezuelana. Documentos do Congresso dos Estados Unidos classificam as medidas contra Teerã como “o conjunto de sanções mais extenso e abrangente que os Estados Unidos mantêm contra qualquer país”.

Em relatório publicado em julho de 2024, a relatora especial da ONU para os impactos das sanções sobre os direitos humanos, Alena Douhan, apontou correlação direta entre as restrições econômicas e o desempenho do país, especialmente no setor energético.

“Cerca de metade do orçamento fiscal do governo depende exclusivamente das exportações de petróleo e outros líquidos”, aponta.

Douhan destacou que, durante a suspensão parcial das sanções em 2015, as exportações de petróleo saltaram de uma média de até 1,4 milhão de barris diários para 2,5 milhões entre 2016 e 2018. Com a reimposição das sanções dos Estados Unidos em 2019, o volume caiu para menos de 500 mil barris por dia em julho de 2020.

“Somente em 2018 e 2019, as exportações de petróleo diminuíram 57%”, afirmou a relatora.

A especialista defende a suspensão total ou parcial das sanções, citando efeitos severos sobre direitos humanos.

“[O embargo econômico] levou à redução das receitas do Estado e ao aumento da pobreza e exacerbou as desigualdades socioeconômicas existentes, resultando em recursos insuficientes para garantir as necessidades básicas das pessoas de baixa renda e de outros grupos vulneráveis”, afirmou.

INFLAÇÃO, SAÚDE E EROSÃO DA CLASSE MÉDIA

Segundo Douhan, a inflação no Irã acompanha diretamente o grau de rigor das sanções. Após médias de 23,8% entre 2011 e 2015, os índices recuaram para cerca de 7% em 2016 e 2017, período de alívio parcial das restrições. Desde 2018, com o retorno do bloqueio, os preços subiram 85% e o custo dos alimentos dobrou.

Pesquisa publicada em dezembro de 2025 pela Revista Europeia de Economia Política El Sevier estimou que as sanções reduziram, em média, 17 pontos percentuais ao ano o tamanho da classe média iraniana entre 2012 e 2019. Já estudo da revista The Lancet apontou que sanções da ONU interromperam importações de medicamentos essenciais, elevando em até 300% o preço de alguns antiepilépticos.

“[Houve] reduções consideráveis na disponibilidade de 13 dos 26 medicamentos essenciais para doenças não transmissíveis e mais de 6 milhões de pacientes com doenças não transmissíveis ficaram sem acesso a tratamento de alta qualidade”, diz a publicação.

VENEZUELA SOB BLOQUEIO ECONÔMICO

A Venezuela também figura entre os países mais afetados pela sanção dos EUA, chamadas oficialmente por Caracas de Medidas Coercitivas Unilaterais. O bloqueio financeiro e comercial atingiu diretamente a indústria petroleira, restringiu o refinanciamento da dívida, dificultou transações internacionais e resultou no congelamento — ou transferência à oposição — de ativos no exterior.

Entre os casos mais emblemáticos está o confisco de 31 toneladas de ouro venezuelano pelo Banco Central da Inglaterra, avaliadas em US$ 1,2 bilhões, além da liquidação da Citgo, principal filial externa da estatal PdVSA, pela Justiça norte-americana no final de 2025. O governo venezuelano classificou a medida como “roubo”.

CRISE ECONÔMICA E MIGRAÇÃO EM MASSA

A recessão venezuelana entre 2013 e 2022 reduziu cerca de 75% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e impulsionou a migração de mais de 7,5 milhões de pessoas — aproximadamente 20% da população. Embora especialistas apontem responsabilidades internas dos governos chavistas, há consenso de que as sanções agravaram o colapso.

O economista venezuelano Francisco Rodríguez, professor da Universidade de Denver, reconhece falhas de gestão antes de 2017, mas ressalta o peso do embargo.

“Dizer que os venezuelanos estão fugindo unicamente por causa do regime de Maduro não passa de uma mera retórica que ignora a questão fundamental: o impacto das sanções nas condições de vida”, diz o especialista.

Segundo suas pesquisas, as sanções interromperam receitas do petróleo — responsáveis por mais de 95% das exportações do país — afetando diretamente importações e padrões de vida. Rodríguez estimou que um novo endurecimento poderia gerar a emigração adicional de 1 milhão de venezuelanos em cinco anos.

RECUPERAÇÃO PARCIAL APÓS ALÍVIO DAS SANÇÕES

Juliane Furno avalia que a crise venezuelana resulta da combinação entre queda do preço do petróleo em 2014 e sanções internacionais. De acordo com estudos citados pela economista, a retração do setor petrolífero saltou de 11,5% em 2017 para 30,1% em 2018, primeiro ano após o bloqueio financeiro, implicando perda de US$ 8,4 bilhões em divisas.

Pesquisa do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas (Cepr), sediado em Washington, indica que o bloqueio foi fator decisivo para a transição da inflação alta para a hiperinflação, consolidada oficialmente em dezembro de 2017. A situação se agravou em 2019, com o bloqueio das reservas em ouro e a proibição de acesso ao mercado norte-americano de petróleo.

A economista ressalta que a retomada econômica a partir de 2022 coincide com o relaxamento parcial das sanções durante o governo Joe Biden. Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), ligada à ONU, apontam crescimento de 8,5% do PIB venezuelano em 2024 e de 6,5% em 2025.

SANÇÕES, POLÍTICA EXTERNA E DEBATE INTERNACIONAL

Washington sustenta que as sanções ao Irã e à Venezuela buscam conter violações de direitos humanos, combater o terrorismo ou o narcotráfico e promover a democracia. Críticos, no entanto, veem nas medidas uma estratégia de mudança de regime. O cientista político Bruno Lima Rocha, professor de relações internacionais e jornalista da HispanTV Brasil, avalia que o discurso democrático não se sustenta.

“Se assim fosse se colocariam contra monarquias absolutistas, como a da dinastia destronada dos Pahlavi (no próprio Irã) ou os monarcas da Península Arábica. O tema de fundo é a posição do Irã contra o imperialismo e em defesa da Palestina”, destacou.

Para ele, o argumento nuclear também seria inconsistente.

“O país é signatário do Tratado de Não Proliferação (TNP) de Armas Nucleares e não tem ogiva alguma. Israel não assinou o TNP e tem um arsenal que não se sabe nem o tamanho nem o alcance”, completou.

SANÇÕES E EFEITOS GLOBAIS

Pesquisas internacionais indicam que os efeitos das sanções se assemelham aos de conflitos armados. Estudo da revista The Lancet Global Health associou sanções unilaterais a cerca de 560 mil mortes por ano, número semelhante à mortalidade global por guerras. Já a revista Estudos de Desenvolvimento, da editora Taylor & Francis, estimou redução de 0,4 a 1,4 anos na expectativa de vida, além de impactos mais severos sobre mulheres, aumento da mortalidade infantil e queda dos gastos públicos em saúde.

Com informações da Agência Brasil

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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