Abuso policial aumenta mortes e insegurança, avalia a Human Rights Watch
O abuso policial e o uso irrestrito da força letal como estratégia de segurança pública seguem associados ao aumento da violência e da sensação de insegurança nas cidades brasileiras. A avaliação é da Human Rights Watch (HRW), que divulgou nesta quarta-feira (4) o Relatório Mundial 2026, com análise da situação dos direitos humanos em mais de 100 países.
No recorte sobre o Brasil, a organização afirma que a persistência de operações policiais altamente letais, somada à falta de investigação independente sobre mortes decorrentes de intervenção policial, compromete a segurança da população e dos próprios agentes, além de aprofundar desigualdades raciais e sociais.
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ABUSO POLICIAL E LETALIDADE EM NÍVEIS ELEVADOS
Dados reunidos pela HRW indicam que, entre janeiro e novembro de 2025, forças policiais mataram 5.920 pessoas no país. Segundo o relatório, brasileiros negros têm três vezes e meia mais chances de morrer em ações policiais do que pessoas brancas.
Para o diretor da Human Rights Watch no Brasil, César Muñoz, o modelo de enfrentamento baseado na força extrema não atinge o objetivo de reduzir o crime organizado. “O que não funciona é entrar na favela atirando. Isso não desmantela grupos criminosos, só cria mais insegurança e coloca os próprios policiais em risco”, disse.
OPERAÇÕES POLICIAIS E FALTA DE INVESTIGAÇÃO INDEPENDENTE
O relatório destaca a operação mais letal já registrada no Rio de Janeiro. Em outubro do ano passado, a chamada Operação Contenção deixou 122 mortos nos Complexos da Penha e do Alemão, durante ações voltadas à captura de lideranças da facção Comando Vermelho.
Segundo Muñoz, a elevada letalidade policial se mantém, em grande parte, pela ausência de apuração adequada das mortes. “Podemos ver isso na Operação Contenção, do Rio de Janeiro, em outubro [de 2025]. Um dos problemas no Rio, especialmente, é que a perícia é totalmente subordinada à Polícia Civil, e não tem a necessária independência para fazer o trabalho de forma adequada”, criticou.
Ele ressalta que, embora existam casos de legítima defesa, o relatório aponta que parte das mortes analisadas configura execuções extrajudiciais.
IMPACTOS NA SAÚDE MENTAL DOS POLICIAIS
A HRW também chama atenção para os efeitos da violência sobre os próprios profissionais de segurança. Em 2025, 185 policiais foram mortos no Brasil, segundo dados do Ministério da Justiça. No mesmo período, 131 agentes cometeram suicídio.
De acordo com a organização, a taxa de suicídio entre policiais é significativamente mais alta do que na população em geral, refletindo a exposição constante à violência e a carência de políticas adequadas de apoio à saúde mental.
“O nosso pedido é que tenha propostas baseadas na ciência e em dados. Propostas que realmente desmantelem grupos criminosos, que atuem com base em inteligência na investigação, [de forma] independente, para identificar essas ligações ou vínculos entre grupos criminosos e agentes do Estado, e sua infiltração na economia legal”, explicou Muñoz.
CORRUPÇÃO, DESCONFIANÇA E FORTALECIMENTO DO CRIME
Além do abuso policial, o relatório aponta que práticas de corrupção dentro das forças de segurança contribuem para o afastamento das comunidades em relação às autoridades. Esse cenário reduz a disposição da população em denunciar crimes e colaborar com investigações.
“Polícias violentas e polícias corruptas fortalecem a ação do crime organizado”, afirmou a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Samira Bueno, durante o lançamento do relatório da HRW.
“A gente não pode ignorar que essas facções só tomaram a dimensão que tomaram e se expandiram de tal forma no Brasil porque elas contam com a corrupção do Estado”, completou.
Segundo Samira Bueno, a fragilidade institucional também expõe as corporações. “Uma polícia violenta não é uma polícia forte, é uma polícia frágil que fica vulnerável ao crime organizado.”
CONTROLE EXTERNO E RESPONSABILIZAÇÃO
A especialista defende o fortalecimento de mecanismos de controle da atividade policial e destaca o papel do Ministério Público na investigação de mortes decorrentes de ações policiais.
“A polícia pode, sim, fazer o uso da força para proteger a si mesma e para proteger a terceiros. Mas a gente não pode aceitar que isso seja utilizado como uma desculpa para execuções sumárias e abusos, como a gente viu no caso do massacre no Rio de Janeiro, no final do ano passado, com mais de 120 mortos”, destacou.
Com informações da Agência Brasil





