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Vice-reitora da UFSC renuncia ao cargo e expõe racha na gestão da universidade

Em carta aberta, ela denuncia centralização de poder, omissão diante de violência política de gênero e falta de articulação para enfrentar a crise orçamentária.

A vice-reitora da UFSC, Joana Célia dos Passos, formalizou nesta quarta-feira (18) a renúncia ao cargo na Universidade Federal de Santa Catarina. A decisão foi comunicada por meio de carta aberta à comunidade universitária, ao Conselho Universitário (CUn) e ao reitor Irineu Manoel de Souza, e ocorre em um contexto de crise orçamentária nas universidades federais e de acirramento político interno às vésperas da sucessão da Reitoria.

A saída da vice-reitora explicita divergências profundas sobre o modelo de gestão adotado desde 2022, a condução institucional diante dos cortes de recursos e o papel da UFSC no cenário político nacional, ampliando um debate que já vinha se intensificando nos bastidores da universidade.

RENÚNCIA DA VICE-REITORA DA UFSC E POSIÇÃO OFICIAL DA ADMINISTRAÇÃO

Em nota publicada no site institucional da UFSC, a Administração Central informou que Joana Célia dos Passos apresentou a renúncia na tarde de quarta-feira e registrou “o reconhecimento pelo período em que esteve à frente da Vice-Reitoria”. O comunicado afirma ainda que os encaminhamentos administrativos decorrentes da decisão serão realizados conforme a legislação vigente.

A manifestação oficial adota tom protocolar e não entra no mérito das críticas apresentadas na carta, reforçando a posição de que a universidade seguirá com suas atividades acadêmicas e administrativas enquanto os trâmites institucionais são conduzidos.

CRÍTICAS DA VICE-REITORA À CONDUÇÃO DA GESTÃO

Na carta, Joana afirma que a aliança política construída em 2022, que sustentou o projeto eleito pela comunidade universitária, se enfraqueceu ao longo do mandato. Segundo ela, a promessa de uma gestão democrática e participativa foi substituída por um modelo centralizado de decisões, o que resultou em sua exclusão dos principais espaços de condução administrativa e motivou o rompimento formal com a gestão.

Ela também relata que o exercício do cargo foi marcado por episódios de violência política de gênero, diante dos quais teria faltado posicionamento da Reitoria. Para Joana, o silêncio institucional frente a esses ataques revela uma cultura que restringe o acesso real de mulheres ao poder, esvaziando o sentido da paridade de gênero quando não há autonomia, direito à discordância e controle sobre recursos.

No texto, a vice-reitora ainda expressa preocupação com a forma como a universidade tem enfrentado a crise orçamentária. Ao criticar a ausência de articulação política em Brasília, ela defende que a UFSC precisa de uma liderança mais ativa na disputa por recursos e afirma que sua renúncia representa a decisão de se vincular a um projeto que una competência administrativa e compromisso com a dignidade humana.

Leia na íntegra a carta de renúncia da vice-reitora Joana Célia dos Passos

“À Comunidade Universitária da UFSC,
Ao Conselho Universitário,
Ao reitor.

Colegas:

Em uma sessão histórica que derrotou os adversários da democracia na UFSC no dia 2 de maio de 2022, este Egrégio Conselho Universitário, após o resultado da Consulta à Comunidade Acadêmica e por ampla maioria, homologou meu nome como vice-reitora para o período 2022-2026. Tal ato foi necessário para que pudéssemos alcançar inúmeras conquistas nestes anos, mas não foi suficiente para assegurar o cumprimento do projeto eleito como Universidade Presente.

Hoje, apresento minha renúncia ao cargo. Esta é uma decisão tomada com o peso da responsabilidade perante os votos que nos conduziram a esta gestão e em face do compromisso ético que assumi com cada pessoa, estudante e servidora técnica e docente. Quero agradecer pela confiança que recebi da comunidade universitária e da expressiva maioria dos membros deste Conselho em 2022 e ao longo da gestão. As interlocuções no CUn resultaram em decisões muito importantes e aprendizados sobre representação, participação e democracia. Em meu exercício da vice-reitoria, espero ter honrado as ações, os compromissos institucionais e o programa em que a comunidade confiou.

A aliança política que construímos em 2022 e que deu o desenho inicial da atual gestão foi se fragilizando com o tempo. Depois de inúmeras tentativas fracassadas de revitalizar e retomar a trajetória de gestão participativa e democrática com que nos comprometemos, formalizamos o rompimento em outubro de 2025. A prática administrativa atual distanciou-se irremediavelmente do projeto coletivo que defendemos nas urnas. Fomos eleitos(as) sob a promessa de uma gestão democrática, mas o que se seguiu foi a sistemática centralização das decisões, levando à exclusão da vice-reitora.

A violência política de gênero permeou meu exercício no cargo. O silêncio do reitor sobre os reiterados ataques que sofri – de membro da gestão e até mesmo durante sessões do Conselho Universitário – é reflexo de uma cultura institucional que restringe sistematicamente o espaço de mulheres na liderança. Aceitar ou reproduzir tais condições negligencia a luta de todas as mulheres da UFSC. A paridade de gênero no primeiro escalão exige mais do que assentos à mesa: exige o direito à discordância e ao controle sobre recursos. Paridade de gênero é uma falácia quando decisões estratégicas, controle orçamentário e articulação política permanecem confinados em um único homem – ou em seus amigos.

Apesar de resistências internas e omissões, conseguimos avançar nas políticas de promoção da igualdade, com novas normas que ampliaram direitos a estudantes e às pessoas que trabalham na UFSC. Levamos à votação no CUn as recomendações da Comissão da Memória e da Verdade. Ampliamos e equiparamos o valor das bolsas. Tornamos a universidade palco para a vivência constante da cultura popular, da arte e do esporte. Consolidamos importantes avanços em pesquisa e inovação, democratizando resultados. Adotamos uma política de internacionalização que valoriza as conexões com o Sul Global. E abrimos as portas da universidade para receber e dialogar com coletivos e movimentos sociais.

Ainda precisamos avançar muito no que se refere às pautas coletivas de estudantes de baixa renda, mulheres, pessoas negras, indígenas e quilombolas, Lgbtqiapn+, pessoas com deficiência, entre outros grupos sociais. A ampliação do acesso à universidade pública foi fruto de muita luta, mas ainda estamos longe de assegurar permanência com dignidade e igualdade real de oportunidades. Precisamos prosseguir e construir soluções. Estou certa de que a comunidade acadêmica reconhece tais problemas.

Observo com preocupação a postura passiva da reitoria frente à crise orçamentária. A falta de articulação política junto ao MEC e a outros órgãos federais deixa a UFSC vulnerável. Nossa universidade precisa de uma liderança que defenda a instituição com firmeza em Brasília, e que não se limite à administração passiva da escassez. Restringir-se a gerir o que recebe, reduzir contratos de limpeza e segurança, e justificar a paralisia pela “falta de repasses” é uma postura burocrática que aceita a asfixia da instituição. Um reitor com competência na gestão institucional entende que o orçamento se disputa no Congresso e no MEC. Tal liderança deve construir conexões, articular com a bancada federal do estado e pressionar por recomposições orçamentárias, tratando a educação como investimento estratégico, além de discutir com transparência as receitas próprias e a composição das despesas.

A UFSC é uma das mais respeitadas universidades do país. Sua ausência nos espaços de decisão nacional tem consequências práticas, como a perda de repasses específicos: muitos recursos (emendas parlamentares e projetos de ministérios, por exemplo) dependem de presença e articulação política constantes em Brasília. Sem protagonismo nacional, a UFSC torna-se uma espectadora das decisões que afetam seu próprio futuro.

A defesa da UFSC hoje exige que eu me some a um projeto que resgate a competência e a humanidade na/da gestão. Sigo acreditando que a sintonia entre competência administrativa e a defesa intransigente da dignidade humana é a única via para superarmos a paralisia atual”.

Além da carta, Joana Célia, também publicou um vídeo com seu posicionamento nas redes sociais, confira;

 

MANIFESTAÇÃO DO REITOR IRINEU SOBRE A NOTA DE JOANA CÉLIA

Atendendo à solicitação da Apufsc-Sindical, o Gabinete do reitor Irineu Manoel de Souza enviou uma nota no fim da manhã desta quinta-feira, dia 19.  Na nota disse não concorda com nenhuma das alegações apresentadas pela vice-reitora, por considerar que elas não refletem “o conjunto de ações, princípios e resultados” do trabalho desenvolvido pela gestão.

Leia a manifestação da reitor na íntegra

Esclareço que não concordo com nenhuma das alegações apresentadas pela vice-reitora Joana Célia dos Passos em sua carta, por não refletirem o conjunto de ações, princípios e resultados do trabalho desenvolvido pela nossa gestão.

Entendo que a motivação para a saída da professora Joana Célia do cargo de vice-reitora decorre do recebimento do Ofício SEI nº 982/2026/MULHERES, datado de 13 de fevereiro de 2026, que solicita autorização de cessão da mesma para assumir o cargo de Secretária Nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados, no Ministério das Mulheres.

Quando do recebimento do pedido de renúncia, informei que respeitava a sua decisão, e que seriam feitos os encaminhamentos institucionais necessários à dispensa do referido cargo.

Quanto aos próximos passos, caberá ao Conselho Universitário a aprovação de um(a) docente para completar o mandato na Vice-Reitoria. Nos termos da legislação vigente, no prazo de até 60 dias deverá ser escolhido(a) o(a) novo(a) titular para a Vice-Reitoria.

Reitero o compromisso desta gestão com a legalidade, a transparência institucional e a continuidade das atividades acadêmicas, administrativas e de extensão, em benefício da comunidade universitária e da sociedade“.

CRISE ORÇAMENTÁRIA: VISÕES OPOSTAS SOBRE A RESPOSTA INSTITUCIONAL

A crise orçamentária aparece como ponto de convergência, mas com leituras distintas. Joana critica o que chama de postura passiva da Reitoria diante dos cortes no orçamento discricionário das universidades federais, que em 2026 somaram cerca de R$ 488 milhões a menos em relação ao previsto inicialmente.

Segundo a vice-reitora, a falta de articulação política junto ao MEC e ao Congresso deixou a UFSC vulnerável, resultando em dificuldades para custear despesas básicas como energia, água, contratos de limpeza, segurança, pesquisa e bolsas.

A Reitoria, por outro lado, argumenta que a gestão enfrenta um cenário de restrição fiscal generalizada, comum a todas as instituições federais, e que a administração responsável exige adequação à realidade orçamentária. A nota destaca que a universidade tem buscado garantir o funcionamento essencial dentro dos limites impostos pelo orçamento aprovado pelo Congresso.

CONVITE AO GOVERNO FEDERAL E DISPUTA DE NARRATIVAS

Outro ponto de conflito é a motivação da renúncia. A Reitoria afirma que a saída está relacionada ao recebimento do Ofício SEI nº 982/2026/MULHERES, que solicita a cessão da professora para assumir o cargo de Secretária Nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados no Ministério das Mulheres.

Joana nega que o convite seja a razão principal e afirma que a decisão está vinculada ao rompimento político com o reitor e à consolidação de uma pré-candidatura de oposição na disputa pela próxima gestão da UFSC. Segundo ela, os convites do governo federal já vinham sendo feitos anteriormente e não determinaram o momento da renúncia.

SUCESSÃO NA UFSC E IMPACTO NO DEBATE ELEITORAL

Com a renúncia da vice-reitora, caberá ao Conselho Universitário aprovar um nome para completar o mandato, com prazo legal de até 60 dias. Paralelamente, a Comissão Eleitoral Representativa das Entidades da UFSC já definiu o calendário da consulta informal para escolha de reitor e vice-reitor.

O primeiro turno está marcado para 1º de abril, com eventual segundo turno em 14 de abril. A saída de Joana Célia dos Passos tende a influenciar diretamente o debate eleitoral, ao trazer para o centro da disputa temas como modelo de gestão, democracia interna, orçamento e representatividade, que devem orientar as discussões nas próximas semanas dentro da universidade.

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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