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Cidade Criativa, Memória Descartável

Entre o evento da UNESCO e a demolição da paisagem cultural em Florianópolis

Florianópolis sediará em breve o ECriativa 2026 – o Encontro Brasileiro das Cidades Criativas da UNESCO. O evento reunirá representantes de municípios que, como a capital catarinense, receberam a chancela da organização por reconhecimento de suas “políticas inovadoras nas indústrias criativas”.

Serão dias de debates, intercâmbios e vitrines internacionais sobre como a cultura, o patrimônio e a criatividade podem orientar modelos de desenvolvimento sustentável.

O holofote da UNESCO sobre Florianópolis, no entanto, expõe mais do que nossos potenciais. Ilumina, sobretudo, as contradições entre o discurso internacional e as práticas locais.

Enquanto uma rede global celebra a capital como referência em economia criativa, as decisões tomadas no Plano Diretor, na política cultural e no tratamento da paisagem urbana apontam na direção oposta: a da exclusão, do apagamento da memória e da subordinação do interesse coletivo à valorização imobiliária privada, além de graves afrontas aos direitos humanos.

O que a UNESCO define e o que Florianópolis ignora

A UNESCO define Paisagem Cultural como a “obra combinada do homem e da natureza”, expressando um longo relacionamento entre as populações e seu ambiente. É exatamente isso que existe em Santo Antônio de Lisboa, na Lagoa da Conceição e no Ribeirão da Ilha, bairros tradicionais de Florianópolis: são conjuntos arquitetônicos integrados entre casario, vias, vegetação, relação com o mar e modos de vida historicamente constituídos.

Recentemente, começou uma obra de sete andares bem no centrinho do bairro Santo Antônio de Lisboa, abrindo um precedente perigoso sobre a paisagem cultural. E também recentemente, um mural do grande artista Hassis foi colocado abaixo na calada da noite, por uma construtora (dentre tantas empresas que estão mandando nas políticas públicas na capital), sem o menor pudor de apagar a memória.

Ao escrever este texto, carrego também uma inquietação, depois de uma longa caminhada em debates de políticas públicas de Cultura, ainda convivo com a sensação de que falar de Florianópolis é, para muitos, tratar de uma pauta menor – uma cidade pequena, com orçamento limitado e um pensamento arcaico que insiste em se manter hegemônico.

Enquanto o marketing oficial vende a capital como polo de tecnologia e economia criativa, cercada por praias e natureza de cartão-postal, a experiência cotidiana revela outra camada: um turismo que flopa por falta de balneabilidade e planejamento, uma paisagem cultural em processo acelerado de demolição e uma política de exclusão social e cultural que transforma o território num cenário bonito, mas hostil.

Entre o discurso triunfalista da “cidade criativa” e a prática concreta de descarte da memória, trago a ideia de Floripa como um microcosmo do Brasil, com toda sua complexidade.

Existe conceito de Paisagem Cultural nas gringa?

Trabalhei num filme catarinense que foi rodado na Provença, no sudeste da França, região que fica entre os Alpes e o mar Mediterrâneo, abrangendo também parte da Côte d’Azur.

Na região de Provença, o conceito de Paisagem Cultural orienta o desenvolvimento econômico e o ordenamento turístico. Só um exemplo: para captar uma única imagem em comunas provençais, a produção catarinense precisou obter autorização das prefeituras e dos órgãos locais de turismo responsáveis pela gestão da paisagem.

Cena de “Mulher Azul”, adaptação de um poema longo do escritor Renato Tapado, com direção de Maria Emilia de Azevedo. Rodado na Provence, sul da França, é um filme feminino que aborda de maneira poética a condição da mulher, seus sentidos e seu enigmático universo.

A paisagem é tratada, lá, como bem público e ativo econômico estratégico, regulamentado e supervalorizado. Preservação e geração de receita caminham juntas.

Em Florianópolis, o Plano Diretor, instituído pela Lei Complementar 482/2014 e revisado em 2023, ao permitir um prédio de sete andares na entrada de Santo Antônio, demonstra que o conceito de Paisagem Cultural não é referência para as decisões urbanísticas.

A lógica predominante é a do volume construtivo e da maximização da rentabilidade imobiliária. Ora, alterar a escala de um bairro histórico implica alterar seu significado social. Trata-se de substituir uma narrativa de pertencimento por uma lógica de valorização patrimonial privada.

É um crime contra as diretrizes da UNESCO.

Memória urbana em ruínas: Hassis e Santo Antônio de Lisboa

Dois episódios recentes sintetizam, de forma quase didática, o projeto de cidade que está em curso: a demolição do painel do artista Hassis e a aprovação do prédio de sete andares na entrada de Santo Antônio de Lisboa.

O primeiro caso é particularmente emblemático. Criado em 1972, um painel de Hassis – Hiedy de Assis Corrêa, um dos mais importantes artistas catarinenses – permaneceu por quase 55 anos no muro da antiga Clínica de Olhos São Sebastião, na rua Armínio Tavares, centro de Florianópolis. No início de 2026, durante uma intervenção imobiliária, a obra foi simplesmente demolida, na calada da noite.

Como analisou a arquiteta Luciana Florenzano, no artigo “Arte e arquitetura: o que a perda de um painel do Hassis revela sobre preservação e técnica”, no site ArqSC, a destruição evidencia como “processos contemporâneos de transformação urbana ainda tratam a arte integrada como elemento removível, e não como parte constitutiva do projeto arquitetônico, do espaço público e da memória coletiva”.

E não é ignorância técnica, ou pensamento arcaico que insiste em nos habitar: existem procedimentos consolidados para preservação de murais integrados, inclusive em casos de demolição total. É premeditado.

Em Paris, o mural Tower (1987), de Keith Haring, foi restaurado e mantido como elemento autônomo após a demolição da ala hospitalar que o abrigava. Em Londres, um mural modernista de William Mitchell, criado em 1958, foi removido da estrutura condenada e realocado em espaço público. São precedentes que comprovam: preservar é uma escolha, não uma impossibilidade técnica.

O contraste com a resposta institucional é revelador. Enquanto o painel original era demolido, a Prefeitura de Florianópolis, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, patrocinava a criação de um novo mural em homenagem a Hassis na empena lateral do Hotel Valerim, na rua Padre Roma, executado pelo artista Rodrigo Rizo como parte das comemorações do centenário do artista. A contradição é flagrante: financia-se a memória que se deixou destruir.

(Todo tipo de evento cultural com palco ou grafite com visibilidade entram na análise da Sociedade do Espetáculo, com a questão complexa do evento Maratona Cultural.)

O segundo caso está na entrada de Santo Antônio de Lisboa. O núcleo histórico do bairro é tombado pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, parte do conjunto das “Freguesias Luso-Brasileiras na Região da Grande Florianópolis”, com proteção federal. Ainda assim, o Plano Diretor municipal permitiu a aprovação de um edifício de sete andares exatamente na entrada do bairro, alterando a escala que caracteriza a paisagem cultural do local.

A descaracterização não é estética. A arquiteta Luciana Florenzano continua sua observação, no artigo do portal ArqSC, que, “numa arquitetura pensada em termos líquidos, a permanência deixa de ser um dado e passa a ser uma escolha”.

Em Santo Antônio, a escolha foi clara: substituir a narrativa de pertencimento pela lógica da valorização imobiliária máxima. E, como no caso de Hassis, a ausência do poder público na aplicação rigorosa dos instrumentos de proteção – como as Áreas de Preservação Cultural previstas no próprio Plano Diretor – revela que a política de salvaguarda existe no papel, mas não na prática.

Assim como toda política pública de Cultura em Florianópolis: foi pioneira na formulação do Plano Municipal de Cultura, super bonito na teoria, mas na prática existe apenas corrupção na Secretaria equivalente, e apoio direto a poucas produtoras culturais que terceirizam os eventos “da cidade”.

O turismo flopou em Fpolis: quando a realidade encontra a exclusão

O discurso recorrente anuncia Florianópolis como grande destino turístico do país. Os resultados permanecem aquém desse potencial. O turismo enfrenta desafios estruturais: praias impróprias para banho por ausência de saneamento adequado, mobilidade urbana congestionada, aeroporto operando próximo do limite e experiência urbana fragilizada.

Existe ainda um elemento menos debatido: o ambiente político e social que naturaliza exclusão. Turismo qualificado envolve acolhimento, diversidade e segurança institucional. O destino comunica valores.

Santa Catarina vem sendo atravessada por um imaginário fascista, que normaliza discursos de superioridade racial e criminalização da pobreza. Projetos legislativos e declarações públicas recentes evidenciam essa tendência.

Na Assembleia Legislativa, tramita a PEC 4/2025, proposta pelo deputado Jessé Lopes (PL), que pretende extinguir políticas de cotas raciais nas instituições estaduais de ensino superior. O mesmo parlamento aprovou o PL 753/2025, que proíbe cotas raciais em universidades estaduais e instituições privadas financiadas com recursos públicos, sob pena de multa. O governador Jorginho Mello (PL), ao elogiar Pomerode destacando a “cor da pele das pessoas” como atrativo, explicitou a naturalização de critérios raciais como atributo positivo de identidade local.

Na capital, a Prefeitura implantou um posto de controle na rodoviária para realizar triagem de pessoas em situação de vulnerabilidade, oferecendo passagens de retorno às cidades de origem. A Defensoria Pública da União classificou a prática como ilegal.

No campo da segurança, o governo estadual anunciou a compra de 350 fuzis israelenses para a Polícia Civil, em investimento utilizando linguagem pública de confronto. A mensagem institucional reforça a resposta armada diante de conflitos sociais, e zero investimento em Educação e inteligência.

Na esfera federal, projeto que altera a dosimetria das penas aplicadas aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro contou com apoio majoritário da bancada catarinense na Câmara. No Senado, o relator é o senador Esperidião Amin (PP), que sinalizou abertura à inclusão de anistia ampla.

Esse conjunto de iniciativas revela um ambiente político que privilegia exclusão social e tensiona princípios democráticos. O prédio de sete andares na entrada de Santo Antônio e a demolição do painel de Hassis integram esse mesmo modelo de cidade: decisões que priorizam valorização privada em detrimento do interesse coletivo, da memória e da identidade cultural.

Paisagem Urbana, 2007: cinema como previsão

Em 2007, lancei o filme Paisagem Urbana, um retrato sobre a fragilidade do patrimônio sociocultural, da memória e da paisagem no processo de crescimento da Ilha de Santa Catarina. Na obra, apresentei a cidade como um palimpsesto em mutação, onde as camadas do passado permanecem inscritas sob as novas intervenções. Baseado em narrativas dos escritores catarinenses Raul Caldas e Rodrigo de Haro, com citações de Manuel Bandeira e Fernando Pessoa, o filme registrou uma Florianópolis em trânsito estético e social, um território onde narrativas de espaço, identidade e transformação se entrelaçam e se tensionam.

O vídeo, premiado no Edital Armando Carreirão do FUNCINE em 2007, é ele próprio um produto da política pública que hoje se encontra rarefeita. Foi o fundo municipal de cinema que permitiu que aquele olhar sobre a cidade existisse e se preservasse como documento.

Quase duas décadas depois, a tese do filme se materializa no concreto e impõe uma realidade mais dura. O que era então uma percepção estética torna-se diagnóstico urbano. A cidade que eu filmava como palimpsesto em mutação é agora a mesma que demole seus murais históricos e permite a descaracterização de seus núcleos tombados.

A ideia de Wim Wenders: cidades feitas de memória

O professor Alexandre Fernandez Vaz, da Universidade Federal de Santa Catarina, em artigo publicado na revista Veritas da PUCRS, dedicou-se à análise da infância como expressão estética em dois filmes fundamentais do cineasta alemão Wim Wenders: Alice nas Cidades (Alice in den Städten, 1974) e Lisbon Story (1994), este último com título no Brasil como O Céu de Lisboa.

No ensaio, Vaz destaca como Wenders constrói um jogo entre ambas as obras, em que cada uma “aparece simultaneamente como testemunho histórico e síntese de questões que dizem respeito à existência e às próprias possibilidades do cinema”. Comparecem, portanto, “o amor, a amizade, a memória, a reelaboração do passado, as cidades, o progresso e a regressão, bem como as técnicas de captação e produção de imagens e sons, os destinos e a memória do cinema como inconsciente onírico de uma época”.

Há uma afirmação de Wenders, registrada em artigo para a revista da UNESCO, que deveria estar gravada na entrada de toda secretaria municipal de cultura e planejamento urbano: “as cidades são feitas de memórias”. Convidado pela própria UNESCO para refletir sobre as relações entre cinema e cidade, Wenders realizou um de seus filmes mais belos justamente a partir dessa premissa.

Em O Céu de Lisboa (Lisbon Story), o diretor constrói uma narrativa que é, acima de tudo, uma declaração de amor à cidade como território sonoro e afetivo. O filme percorre as ruas de Lisboa capturando não apenas imagens, mas os sons da cidade: os tradicionais madrilenhos (as vozes dos vendedores ambulantes), os ruídos dos bondes, as conversas nos bairros antigos. O personagem central é um técnico de som chamado Philip Winter – mesmo nome e ator (Rüdiger Vogler) do protagonista de Alice nas Cidades, numa sutil homenagem do diretor à sua própria filmografia.

Cena de “Céu de Lisboa” (Lisbon Story), de Wim Wenders.

Wenders compreendeu que a alma de uma cidade não está apenas em sua arquitetura, mas na textura sonora e humana que habita seus espaços. O filme foi encomendado pela UNESCO quando Lisboa era Capital Europeia da Cultura em 1994 – ou seja, a própria cidade entendeu que deveria encomendar a um grande cineasta um retrato cinematográfico de sua paisagem cultural.

O que Wenders comunica é que preservar uma cidade não é congelá-la no tempo, mas garantir que suas memórias continuem a ser narradas. O cinema, nesse sentido, cumpre um papel fundamental: fixar camadas da cidade que a especulação imobiliária insiste em apagar. Como ele próprio disse em outro filme fundamental, Identidade de Nós Mesmos (Notebook on Cities and Clothes, 1989): “Nós vivemos nas cidades. As cidades vivem em nós”. Há uma troca simbólica permanente entre habitantes e território, e quando destruímos a paisagem, destruímos também parte de nós mesmos.

Florianópolis, que sediará em breve o ECriativa 2026 – o Encontro Brasileiro das Cidades Criativas da UNESCO –, deveria perguntar-se: que memórias temos preservado? Que histórias temos contado sobre nós mesmos? Ou seguimos no caminho inverso, apagando sistematicamente os vestígios do que fomos para dar lugar a prédios de 7 andares que poderiam estar em qualquer lugar do continente?

O tipo de produção que Florianópolis atrai (e o que isso diz sobre nós)

Se a cidade não investe em produzir suas próprias memórias, outros virão ocupar esse vazio – e o farão com lógicas que pouco contribuem para o desenvolvimento local. O exemplo mais emblemático é o reality show Soltos em Floripa, produzido pela Floresta Produções e lançado pela Amazon Prime Video em 2020.

A premissa do programa é, para dizer o mínimo, reveladora: oito jovens bonitos são confinados em uma mansão em Florianópolis, com acesso irrestrito a bebidas, festas nas baladas mais badaladas da cidade e o explícito objetivo de estimular relacionamentos afetivos e sexuais entre os participantes. O programa, que teve duas temporadas filmadas na capital catarinense antes de migrar para Salvador, é um dos formatos mais toscos do universo audiovisual mundial – um subproduto cultural que reduz a experiência humana ao vale-tudo do entretenimento descartável.

Uma crítica da época definiu com precisão: é “ousadia demais, conteúdo de menos”, um programa onde “o sexo explícito é o de menos” e a narrativa se perde em cenas soltas, sem qualquer depoimento que guie o espectador. A produção, que prometia “sexo sem edredom”, entrega exatamente isso: corpos descartáveis em uma paisagem igualmente descartável.

O problema não está no gênero reality show, mas no padrão de exploração da cidade que esse tipo de produção representa. Florianópolis aparece no programa como mero cenário exótico, um cartão-postal animado para histórias que poderiam se passar em qualquer praia do mundo. Não há qualquer compromisso com a cultura local, com a identidade da cidade ou com a geração de legado para o setor audiovisual catarinense. A paisagem é consumida e descartada – como os próprios participantes, como as tramas efêmeras que se desenrolam na mansão.

E não é um caso isolado. Florianópolis parece ter um imã para produções que exploram a paisagem sem oferecer retorno. Foram vários filmes sobre Giuseppe Garibaldi, realizados com recursos públicos, que consumiram milhões e simplesmente desapareceram sem deixar qualquer impacto duradouro na cadeia produtiva local.

O cineasta de Criciúma Roberto Carminati realizou diversas produções com financiamento milionário – e o retorno para o setor audiovisual catarinense foi absolutamente nenhum. São obras que não geram economia criativa, não formam profissionais, não consolidam identidade. São, na prática, recursos públicos evaporados na paisagem.

É o mesmo movimento que vimos com o apoio milionário da Prefeitura à novela portuguesa: investir pesado em produções externas, enquanto o fundo municipal de cinema é desidratado, quase apagado. Quando abrem editais, são herméticos, confusos, mal redigidos, escondidos e jogado o debate público para debaixo do tapete.

A lógica é sempre a mesma: a cidade como cenário descartável, nunca como protagonista de suas próprias histórias.

O paradoxo da economia criativa em Florianópolis

O contraste com o momento nacional é brutal. O audiovisual brasileiro registrou em 2025 investimento público de R$ 1,41 bilhão via ANCINE, maior volume da série histórica, com crescimento expressivo em relação aos anos anteriores. Foram contabilizadas 3.981 obras audiovisuais não publicitárias, com expansão da produção independente em diversas regiões do país.

O Brasil foi eleito País Criativo do Ano no Festival Internacional de Criatividade de Cannes. Projeções indicam participação crescente do país na receita global do cinema até 2029. O setor audiovisual já supera segmentos industriais tradicionais em geração de valor agregado.

Relatório recente da UNESCO alerta que a indústria criativa pode sofrer perdas significativas até 2028 diante da expansão da IA generativa, ao mesmo tempo em que o financiamento público direto à cultura permanece abaixo de 0,6% do PIB global.

Florianópolis, primeira cidade brasileira a receber a chancela de Cidade Criativa da UNESCO na Gastronomia, sediará o ECriativa 2026. Ainda assim, o principal instrumento municipal de fomento ao audiovisual opera com recursos instáveis. Enquanto isso, a cidade se presta a ser cenário de realities toscos e produções estrangeiras bancadas com dinheiro público. Sem uma Film Comission regulamentada, que poderia trazer retorno para produção local.

Numa comparação para ilustrar, já pensou se contratam uma indústria de produção de ostras da Noruega que recebe de graça milhões de reais em investimentos para produzir moluscos aqui em Florianópolis?

É a mesma lógica: se já tem produção de ostras locais, que foram criadas por políticas públicas com apoio científico da UFSC, para que doar verba para uma multinacional? A lógica de doar milhões para produções estrangeiras é de “Turismo”. Mas que tipo de Turismo?

Funcine: política pública estratégica

Criado em 1989, o Funcine é um dos mais antigos fundos municipais de cinema do Brasil em atividade (quase) contínua. Por meio do Edital Armando Carreirão, viabilizou dezenas de projetos ao longo de sua trajetória.

Nos últimos anos, enfrentou hiatos de edital e ausência de previsão orçamentária estável na Lei Orçamentária Anual. Estimativas do setor indicam que cerca de 80 filmes deixaram de ser realizados em cinco anos.

A indústria audiovisual catarinense cresceu 439% entre 2009 e 2019, com concentração significativa na capital. O potencial existe. A ausência, no entanto, reside na prioridade política que parece preferir plataforma Tik Tok do que cinema.

Um fundo municipal com autonomia financeira cumpre dois papéis centrais: registrar a memória imaterial da cidade e estruturar produção em escala capaz de circular nacional e internacionalmente. Documentar falas de pescadores, rendeiras e guardiões de saberes tradicionais significa construir arquivo público contra a amnésia urbana imposta pela especulação imobiliária.

É o equivalente local ao que Wenders fez em Lisboa: capturar a alma sonora e afetiva da cidade antes que ela seja silenciada pelo concreto. Apoiar longas-metragens significa gerar emprego qualificado e consolidar identidade cultural.

Enquanto a Prefeitura anuncia apoio milionário a uma produção portuguesa e a cidade serve de cenário para realities que exploram a paisagem sem deixar legado, o Funcine, que poderia estar fomentando dezenas de projetos locais, sobrevive com recursos incertos e voluntariado. É a síntese perfeita do pensamento colonizado: valoriza-se o que vem de fora, abandona-se o que é nosso.

Que cidade queremos ser?

A cidade comunica valores por meio de suas decisões urbanísticas e culturais. Converter patrimônio coletivo em ativo de curto prazo produz ganhos imediatos e perdas estruturais. Fortalecer política pública de cultura consolida identidade, indústria e memória.

O Brasil vive momento de expansão criativa reconhecida internacionalmente. Florianópolis possui título de Cidade Criativa e sediará encontro nacional das cidades da rede UNESCO. A coerência entre discurso internacional e política local ainda precisa ser construída.

O que está em jogo é a capacidade de produzir narrativas próprias, registrar memória coletiva e estruturar economia criativa consistente. Enquanto celebrarmos a vinda de realities toscos e financiarmos produções externas com dinheiro público, enquanto o fundo municipal operar com instabilidade e os milhões investidos em filmes sobre Garibaldi ou nas produções de Carminati simplesmente evaporarem sem deixar rastro, estaremos escolhendo ser cenário, em vez de protagonista.

Como Wim Wenders nos lembra, através da análise precisa de Alexandre Fernandez Vaz, as cidades são feitas de memórias. Alice nas Cidades e O Céu de Lisboa são, cada um a seu modo, testemunhos dessa verdade: a cidade vive em nós, e nós vivemos nela. Memórias não se constroem com concreto nem com realities descartáveis – constroem-se com escuta, registro e narrativa.

Enquanto a Prefeitura de Florianópolis não compreender que investir no Funcine é investir na própria identidade da cidade, continuaremos a ser, no mapa do mundo, apenas um belo cenário para histórias alheias.

A cidade que investe em sua própria memória comunica compromisso com seu futuro. A cidade que negligencia sua política cultural e se presta a ser explorada por produções que não deixam legado limita seu horizonte econômico e simbólico. O debate sobre Paisagem Cultural, Plano Diretor e Funcine integra uma mesma discussão: modelo de desenvolvimento e projeto de cidade.

Assim como qual imaginário queremos de Santa Catarina?

Antes de acusar Wim Wenders de cineasta “político”, é bom rever a fala dele semana passada como Presidente do Júri Oficial do Festival de Cinema de Berlim, a famosa Berlinale.

Imagem de capa: composição de letreiros de publicidade sobre obra de Martinho de Haro:

ALFÂNDEGA e Barcos. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/84239-alfandega-e-barcos. Acesso em: 28 de fevereiro de 2026. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-

 

 

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Pedro MC

Pedro MC é cineasta e produtor cultural de Florianópolis, diretor artístico da Mostra Catarina Fantástica e coordenador de eventos de cinema com impacto social.

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