Cinema de Rua e a Soma de Rogério Sganzerla
Florianópolis tem relação histórica impressionante com Cinemas de Rua

Florianópolis já teve uma das maiores proporções de salas de cinema de rua por habitante entre as capitais do Brasil. Desde a primeira sala, o Cassino, na Praça XV, em 1909, a relação entre cinema e centro histórico se consolidou como parte da vida urbana, até o declínio nos anos 2000, com a predominância dos multiplex no shopping.
Nos anos 1990, eu frequentava o Cine Carlitos, no calçadão da João Pinto, onde hoje funciona o Pró-Cidadão. Mas tinha programação em todas: Cecomtur, Cine Ritz e São José. A memória dessas salas atravessa a cidade como retratos fantasmas, em busca de reedição.
Com a presença de cineclubes e iniciativas independentes, mesmo que intermitentes, a capital catarinense reúne condições para reativar um dos seus eixos culturais. Um abaixo-assinado pede pelo retorno do Cine São José, no centro, à sua função de exibição.
Esse movimento aponta um caminho de reconectar a cidade com a experiência coletiva da sala de cinema, e para sugerir um modo de pensar, tomo de Rogério Sganzerla o conceito de “soma”, de colagem e de erudição popular pra pensar uma sala de cinema de rua.
Circuito-Soma inspirado em Sganzerla
Sganzerla diz em seu Manifesto, durante as filmagens de “O Bandido da Luz Vermelha”:
“Meu filme é um faroeste sobre o Terceiro Mundo, é fusão e mixagem de vários gêneros. Fiz um filme-soma; um faroeste mas também musical, documentário, policial, comédia (chanchada?) e ficção-científica. Do documentário, a sinceridade (Rossellini); do policial, a violência (Fuller); da comédia o ritmo anárquico (Sennett, Keaton); do western, a simplificação brutal dos conflitos (Mann)”.
O filme-soma descreve uma forma de construção baseada na convivência de elementos distintos dentro de uma mesma obra. Gêneros diferentes, registros documentais e ficcionais, referências populares e eruditas aparecem lado a lado. A montagem explicita essas diferenças e organiza o sentido a partir do atrito entre elas. A narrativa incorpora descontinuidades, materiais heterogêneos e variações constantes.
Essa lógica me parece interessante para orientar a forma de pensar o cinema e a cidade.
Hoje, por exemplo na Sala de Cinema Gilberto Gerlach, a programação é esporádica, complicada para se conseguir pauta, às vezes com censura de conteúdo. A sala de cinema do CIC, que não está no centro histórico, ainda não encontrou um caminho de espelhar a produção cinematográfica autoral, que necessita mais do que nunca de tela. No CIC, ainda se usa a sala de cinema para reunião com “powerpoint da polícia militar” ou algum outro conteúdo ironicamente antítese da produção cultural e artística.

Voltando ao centro histórico: Um dia no ateliê do artista Ury Azevedo (1952 – 2020), de Florianópolis, encontrei um jornal impresso semanal que ele editava nos anos 1970. Uma edição de 1975 trazia a programação de quatro salas de cinema de rua, com uma diversidade impressionante de linguagem para o cartaz da semana!
No Cine Cecomtur: Il Viaggio (1974), de Vittorio De Sica.
No Cine São José: A Virilidade (Virilitá, 1974), de Paolo Cavara, e A Casa dos Brilhantes (11 Harrowhouse, 1974), de Aram Avakian.
No Cine Coral: Adultério, as Regras do Jogo (1974), de Ody Fraga, e Encontro com a Felicidade (Heintje – Ein Herz geht auf Reisen, 1969), de Werner Jacobs.
No Cine Ritz: Slaughter Joga Sujo (Slaughter’s Big Rip-Off, 1973), de Gordon Douglas, e Abominável Dr. Phibes (1971), com Vincent Price, dirigido por Robert Fuest.
Havia ainda chamada para Vôo 463: A Viagem Infernal.

(cena de Abominável Dr. Phibes, filme de horror maravilhoso)
Esse recorte sustenta uma tese inteira sobre o cinema popular no Brasil no período de circulação pública articulada pela Embrafilme. Bilheteria ativa, presença de filme nacional (e ainda com filme do catarinense Ody Fraga!), convivência entre cinema de arte, erotismo popular, aventura e blaxploitation (Slaughter Joga Sujo figura entre os filmes de referência de Quentin Tarantino).
Daria páginas de reflexão sobre a estética do terror macabro associada a Vincent Price e o erótico popular de Paolo Cavara e Ody Fraga. Daria para comparar essa programação semanal com a curadoria de festivais que levam meses para reunir obras desse nível. Uma diversidade fantástica de uma semana de cartaz!
Os festivais mantêm vitalidade, mas ocupam poucos dias no calendário. O cineclubismo é importante e base pra novas mostras, com curadorias especializadas. Mas ainda assim, são restritos, porque falta sala!
Ao mesmo tempo, surge um movimento de revitalização do antigo Cine São José, hoje ao lado da Câmara Municipal de Florianópolis. Esse gesto aponta para uma possibilidade concreta de reativação da sala de rua como espaço público de exibição.
O cinema como força expoente da Economia Criativa precisa que o poder público atue como parceiro. A política cultural se estrutura com continuidade, infraestrutura e articulação. A cidade comporta pontos de cultura, cineclubes e redes de exibição e uma sala de cinema de rua é um comoditie turístico internacional.
A leitura de Sganzerla retorna nesse ponto. O popular imposto pelo mercado aparece como produto padronizado. A mistura, a fusão e o filme-soma organizam outra prática.
Essa lógica atravessa também a organização do campo cultural. Artistas, articuladores, empresários, governo, trabalhadores, professores, exibidores, cineclubistas, pesquisadores, críticos, estudantes e diletantes compõem um mesmo circuito.
“O ponto de partida de nossos filmes deve ser a instabilidade do cinema – como também da nossa sociedade, da nossa estética, dos nossos amores e do nosso sono. Por isso, a câmara é indecisa; o som fugidio; os personagens medrosos. Nesse País tudo é possível e por isso o filme pode explodir a qualquer momento.”
A sala de cinema vai se afirmar como espaço público cultural quando essa soma puder ser realizada num novo circuito.
Assine você também pela volta do Cine São José: https://www.change.org/p/revitalize-o-cine-s%C3%A3o-jos%C3%A9-em-florian%C3%B3polis/u/34461962?recently_published=true





