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Revitalizar a malha ferroviária de Santa Catarina é conectar o futuro

Nosso Estado construiu uma das economias mais dinâmicas do Brasil, mas insiste em operar com uma lógica de infraestrutura do século passado. Enquanto o mundo aposta em integração logística e eficiência multimodal, os sucessivos governos catarinenses escolheram ignorar por omissão ou incapacidade o papel estratégico da malha ferroviária. O resultado é um gargalo crônico que penaliza a competitividade do estado e compromete seu futuro.

O contraste é evidente. De um lado, um estado que abriga alguns dos principais complexos portuários do país, como Itajaí e Navegantes, responsáveis por volumes expressivos de exportação, especialmente de proteína animal, setor no qual Santa Catarina é referência nacional e internacional. De outro, uma logística dependente quase exclusivamente do transporte rodoviário, com estradas saturadas como a BR-470, principal corredor entre o Oeste produtor e o litoral exportador. Essa escolha tem custo e ele é alto.

O Oeste catarinense é um dos maiores polos agroindustriais do Brasil. A produção de aves e suínos depende de uma cadeia logística intensa, baseada no fluxo constante de grãos como milho e soja, além do escoamento da proteína animal processada. No entanto, essa riqueza se move sobre rodas, não sobre trilhos.

A insistência no modelo rodoviário não é apenas ineficiente é estratégica e economicamente equivocada. Ferrovias reduzem custos logísticos, aumentam a capacidade de carga, diminuem emissões e garantem previsibilidade. Ignorar isso, em pleno século XXI, é um erro de planejamento.

O complexo portuário catarinense é um ativo extraordinário. O Porto de Itajaí, por exemplo, é líder nacional na exportação de produtos congelados e movimenta milhões de toneladas por ano. No entanto, a eficiência termina no portão. Sem acesso ferroviário estruturado, toda essa produção depende de caminhões que percorrem longas distâncias, enfrentando congestionamentos, custos elevados de combustível e riscos logísticos. O resultado é um sistema caro, vulnerável e ambientalmente insustentável.

A concessão da Estrada de Ferro Teresa Cristina, concentrada no sul do estado, poderia ser muito mais do que uma operação regional voltada ao carvão. Ela poderia e deveria ser o embrião de uma nova lógica ferroviária em Santa Catarina.
É urgente que se inclua no contrato de concessão que será renovado em 2027 uma cláusula estruturante: a criação de um laboratório ferroviário de inovação e mobilidade, com a implantação de uma linha de transporte público conectando o sul do estado ao porto de Imbituba e à BR-101.

Um grande erro histórico e estratégico é não contarmos com uma ferrovia litorânea. Estudos já indicavam a necessidade de uma linha que conectasse os portos catarinenses ao longo da costa, integrando o estado de sul a norte. A proposta é clara: iniciar pelo sul, com conexão em Imbituba, e avançar progressivamente pelo litoral até Joinville. Isso criaria um corredor logístico de altíssima eficiência, integrando portos, indústrias e centros urbanos.

A ausência de um sistema de transporte de massa eficiente compromete não apenas a mobilidade, mas a qualidade de vida, a produtividade e o desenvolvimento urbano. O custo da inércia se acumula diariamente em congestionamentos, poluição e perda de tempo. Santa Catarina não sofre por falta de potencial, nem por ausência de diagnóstico. Os estudos existem. As soluções são conhecidas, o que falta é decisão política. Investir em ferrovias não é nostalgia. É estratégia. É competitividade. É futuro.

 

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Flávio Souza

Flávio Souza é administrador, consultor comercial e consultor político com trajetória marcada pela atuação pública, comunitária e institucional em Santa Catarina.

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