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Não fui eu!

O gesto mais universal e repetido do futebol mundial talvez não seja o gol

Gosto de futebol. Simpatizo com o Avaí e com o Corinthians.

Com o Avaí por causa do meu pai que era torcedor deste time, e também por causa do meu filho que é avaiano roxo (talvez aqui coubesse mais dizer avaiano azul, não é?) desde pequeno.

Com o Corinthians por causa do meu companheiro. Aliás, é com ele que sempre vejo os jogos. Brasileirão, Copa do Brasil, estaduais, internacionais, enfim, além de bons filmes e séries, sempre damos uma olhada nos jogos que estão passando na TV.

E existe nesse universo um comportamento que vem me despertando uma reflexão.

O gesto mais universal e repetido do futebol mundial talvez não seja o gol. É o do jogador derrubando alguém e, no mesmo instante, levantando os dois braços como um santo injustiçado.

É impressionante. O sujeito chega atrasado, acerta a canela do adversário, interrompe a jogada, quase desmonta o joelho alheio e imediatamente assume a expressão corporal de um homem perseguido pela tirania.

É imediato. Parece até inconsciente de tão imediato. Levanta os braços e diz “Ô, não fiz nada!”

O mais intrigante é que, primeiro, ninguém acredita nele. Nem o árbitro, nem a torcida, nem os companheiros, nem ele mesmo. E, segundo, logo em seguida as câmeras em super slow motion vão mostrar a falta por cinco ângulos diferentes.

Ainda assim, o ritual precisa ser encenado. Existe algo quase infantil nesse reflexo: a incapacidade absoluta de sustentar por três segundos a ideia de “sim, fui eu”.

Claro, a falta vai trazer implicações no jogo. Vai facilitar a vida do adversário. Mas nessa atitude impulsiva parece que o verdadeiro motivo é o de preservar a própria imagem antes mesmo de encarar o ato cometido.

O que acontece é que vivemos no mundo do “A culpa não é minha!” Construímos esse mundo até aqui. A ideia de acolher uma criança que quebrou um vaso, derramou o leite, perdeu o caderno, ou cometeu algum outro “delito”, mesmo que sem querer, é relativamente nova. Minha geração cresceu tendo que desviar de Havaianas voadoras, castigos absurdos, pra falar só de coisas leves. Então, como se declarar culpado, como não colocar a culpa no outro ouvindo “Te prepara pra quando teu pai chegar em casa!”

O futebol apenas teatraliza algo que fazemos o tempo todo na vida cotidiana. O campo é o palco onde todo mundo agride e imediatamente reivindica pureza moral. Uma coreografia irresponsável do agressor que comete a infração e, segundos depois, já atua como vítima da interpretação equivocada dos fatos.

Penso que, como o futebol é tão popular no mundo todo, alcançando as mais diferenciadas pessoas, poderíamos usá-lo para começar uma campanha que sirva de exemplo para construirmos esse tema das pequenas culpas, sabe? Umas faixas na torcida, umas falas dos locutores, jogadores íntegros que fizessem a falta e assumissem. Sem precisar de VAR.

Ia ser bacana. Independente do que os filósofos, a psicologia ou os pensadores sociais falam sobre a culpa, o mundo se reconstruindo nesse aspecto pelo entendimento de que é tão bonito ser verdadeiro…!

Nota de rodapé
Não falei aqui, mas também tem o contrário, o jogador que cai cavando a falta que não houve. Assim no futebol como na vida…

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Ana Lucia Fernandez

Terapeuta transpessoal, faz o Outros Mapas (@outrosmapas.anafernandez), trabalho voltado a quem busca novos caminhos dentro e fora de si. Admiradora profunda do ser humano, daqueles que carregam um olhar sensível para o outro e para as suas pluralidades infinitas. Escreve aqui sobre comportamento, dimensões do ser humano, presença e os vários caminhos possíveis do existir. Nasceu e vive em Florianópolis/SC.

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