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No creo en brujas, pero que las hay, las hay

Apesar da foto, não é sobre Copa do Mundo

Todos nós, no fundo, sentimos que existe alguma coisa por trás do que podemos ver ou tocar. Algumas linhas de pensamento afirmam que criamos essa sensação porque precisamos nos apegar a ela para nos sentirmos melhor.

Para Freud, em O Futuro de uma Ilusão a crença em algo transcendente nasce de uma necessidade humana de proteção, sentido e conforto diante da fragilidade da existência. Mas ele analisa a questão sob o ponto de vista das religiões, afirmando que a origem da religião está no medo e no sentimento de impotência diante das forças da natureza e do destino, o que leva o ser humano a buscar a figura de um “pai protetor” (Deus) para aplacar sua angústia. Para ele, o futuro da civilização dependeria da superação dessa dependência infantil. E propõe a substituição das ilusões religiosas pela ciência e pela razão (o “Logos”). A educação deveria abandonar os dogmas e ensinar o homem a lidar com a realidade de forma adulta e lógica.

Nietzsche descreve que os sistemas espirituais surgem da necessidade humana de suportar a realidade e dar sentido ao sofrimento. Então ele também fala da religião. E fala dela como mecanismo de negação da vida. Explica que as crenças não nascem da verdade, mas da necessidade humana de tornar a existência suportável.

Sim, da maneira como foram formuladas as religiões, concordo com eles. Ao longo da história da humanidade, as religiões foram utilizadas como instrumento de controle social e político. Muitos líderes perceberam que a fé possui um enorme poder de mobilização coletiva e emocional. O que é capaz de determinar valores, comportamentos e decisões individuais. A religião como massa de manobra: discursos “sagrados” são usados para justificar hierarquias, silenciar questionamentos, estimular obediência e legitimar interesses econômicos ou ideológicos.

Mas isso coloca a experiência humana toda nas mãos de estruturas externas, retirando de nós a possibilidade de compreender individualmente o que sentimos e por que sentimos.  Como se a percepção de que existe algo além precisasse, necessariamente, estar vinculada a sistemas de crenças, dogmas ou conceitos formulados por líderes religiosos. Não seria mais honesto, então, investigar essa percepção sem intermediários, tentando compreender o que nela pertence à cultura, ao medo, à necessidade de sentido ou, quem sabe, a alguma dimensão ainda não plenamente compreendida da existência?

Para Jung, por exemplo, a sensação de que “existe algo além” faz parte da estrutura simbólica da psique humana. Não seria apenas ilusão, mas uma dimensão profunda da experiência humana.

Já William James argumenta que experiências místicas possuem um valor legítimo e não podem ser descartadas apenas porque são subjetivas. Seu questionamento era se não seria a dimensão interior uma forma válida de conhecimento.

E C.S.Lewis, aquele que escreveu As crônicas de Nárnia, mas que também produziu muitas reflexões sobre existência, desejo, sofrimento, moralidade e transcendência, tem uma frase muito conhecida: “Se encontro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui feito para outro mundo.” Ele não via a espiritualidade apenas como necessidade psicológica, como Freud, nem como mecanismo de fuga da vida, como parte da crítica de Nietzsche. Para ele, o anseio espiritual podia ser entendido como um sinal legítimo de que existe uma dimensão maior da realidade.

Muita gente escreveu, e ainda escreve, tentando explicar a sensação de transcendência que nos aparece de vez em quando. O sentimento existe. Até o mais cético sente. Até o mais cético sente, mas escolheu interpretá-la como um fenômeno psicológico, emocional ou neurológico, retornando assim rapidamente ao mundo concreto para não se afastar da visão de realidade que decidiu seguir. Em muitos casos, são convicções filosóficas ou ideológicas que orientam esse caminho. Mas o fato de alguém rejeitar a experiência não significa necessariamente que ela não tenha acontecido.

Talvez o ponto mais honesto não seja afirmar com certeza que existe “algo além”, mas também não negar automaticamente a experiência apenas porque ela não cabe inteiramente nos modelos atuais de explicação.

Uma sensação que acompanha a humanidade há milênios, que surge em momentos de silêncio, contemplação, sofrimento, beleza, amor, arte, natureza ou profunda presença. E continua aparecendo mesmo em uma civilização cada vez mais tecnológica, lógica e acelerada.

Talvez parte dela pertença à psicologia. Talvez parte pertença à cultura. Ou talvez pertença a uma outra esfera que escape ainda neste momento do nosso entendimento. (Por que não?) O fato é que reduzir toda essa experiência a uma simples ilusão parece, muitas vezes, tão precipitado quanto transformá-la em dogma absoluto. Entre a crença cega e a negação automática, talvez ainda exista um espaço mais raro e mais difícil: o da investigação sincera da própria experiência humana. Um espaço que exige de nós a coragem de ir além das estruturas rígidas com as quais aprendemos a organizar e limitar nossa compreensão da existência.

Vamos abrindo nossos espaços para a tentativa integral de compreender a nós mesmos e nosso papel neste planeta. E abrir espaços sem aceitar o que vemos pela frente pode ser muito presunçoso de nossa parte. Parece igual a querer colonizar o que habita o outro lado.

Nota de rodapé:
A famosa frase “No creo en brujas, pero que las hay, las hay” teve origem na Galícia, região do noroeste da Espanha e foi tornada mundialmente conhecida por Miguel de Cervantes em sua obra Dom Quixote de la Mancha.

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Ana Lucia Fernandez

Terapeuta transpessoal, faz o Outros Mapas (@outrosmapas.anafernandez), trabalho voltado a quem busca novos caminhos dentro e fora de si. Admiradora profunda do ser humano, daqueles que carregam um olhar sensível para o outro e para as suas pluralidades infinitas. Escreve aqui sobre comportamento, dimensões do ser humano, presença e os vários caminhos possíveis do existir. Nasceu e vive em Florianópolis/SC.

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