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O que sobra de nós quando deixamos de ser aquilo que nos acostumamos a ser?

Sobre as liberdades íntimas

A liberdade ocupa um lugar nobre no imaginário humano. Poucas palavras despertam tanta concordância. Afinal, quem diria que não a deseja?

Costumamos imaginar que ser livre significa romper aquilo que nos aprisiona. Mas existe uma possibilidade menos confortável: algumas vezes o que nos aprisiona é justamente o que nos dá sentido à vida.

Num sentido terapêutico, o caminho individual para termos liberdade primeiro passa por entender o que nos aprisiona. Muitas vezes isso não é fácil. Começa por aí. Mas suponhamos que conseguimos fazer este exercício e entendemos nosso contexto. Aí vem a outra parte do processo: é preciso saber se estamos mesmo dispostos a nos libertar.

Porque existe uma possibilidade estranha à primeira vista: aquilo que nos limita pode ser também o que sustenta parte daquilo que acreditamos ser.

Não estou falando das imposições externas, das circunstâncias ou das limitações concretas que a vida inevitavelmente apresenta. Estou pensando nas prisões que habitamos voluntariamente. Aquelas que criticamos, das quais reclamamos, que juramos abandonar um dia, mas que seguimos alimentando todos os dias.

O que aconteceria se elas desaparecessem?

Quem seríamos sem determinados conflitos? Sem certas dores? Sem algumas histórias que contamos sobre nós mesmos?

Há pessoas que passam anos lutando contra algo que, no fundo, se tornou parte da sua identidade. Como abandonar aquilo que, apesar do sofrimento que produz, ajuda a responder à pergunta sobre quem somos?

Sim, há prisões que se tornam familiares. Há sofrimentos que passam a fazer parte da nossa identidade. Há relações, trabalhos, crenças e histórias pessoais que nos restringem, mas que também nos oferecem uma sensação de segurança, pertencimento ou sentido. E, por mais desconfortáveis que sejam, o desconhecido pode parecer ainda mais assustador.

Todos nós conhecemos alguém que se queixa continuamente da situação em que vive e que, para cada caminho apontado, encontra uma explicação convincente para permanecer exatamente onde está?

Aí é que está! O problema é que, muitas vezes, o que nos impede de avançar não é a ausência de oportunidades, mas a dificuldade de soltar aquilo que já não nos serve. Continuamos alimentando velhas narrativas, antigos ressentimentos, hábitos e justificativas familiares. Não porque sejam bons, mas porque são conhecidos. E mesmo quando percebemos isso, raramente compreendemos o quanto essas estruturas estão enraizadas em nós para que possamos nos soltar.

Quem observa de fora consegue ver com clareza a pessoa “engaiolada”. Vê os limites, percebe os ciclos repetitivos e se pergunta por que a pessoa simplesmente não vai embora.

É que existe uma particularidade nesse tipo de prisão: sua fechadura só abre por dentro.

Podemos oferecer apoio, escuta, afeto e até mostrar caminhos. Mas a decisão de girar a chave pertence exclusivamente a quem está dentro, portanto.

E não se engane! Todo mundo tem, numa medida ou em outra, as suas gaiolinhas. Eu tenho, você tem, seu amigo tem e sua vizinha também. Aqui vale a máxima que conseguimos ver os problemas dos outros melhor do que os nossos. Justamente por conseguir tratá-los com toda a lógica do mundo, isentos de emoção.

Acontece que não é nenhuma lógica o que sustenta a gaiola.

Por isso que, olhando de fora, tantas situações parecem incompreensíveis. Por que alguém permanece onde sofre? Por que insiste em repetir os mesmos movimentos? Por que não vai embora?

Porque a questão não é só abrir a porta. A verdadeira questão é descobrir quem seremos quando aquilo que nos definiu durante tanto tempo deixar de existir.

Quem seremos fora da gaiola?

Essa é uma pergunta que ninguém pode responder por nós. E enquanto a resposta não vem, vamos escondendo nossas chaves.

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Ana Lucia Fernandez

Terapeuta transpessoal, faz o Outros Mapas (@outrosmapas.anafernandez), trabalho voltado a quem busca novos caminhos dentro e fora de si. Admiradora profunda do ser humano, daqueles que carregam um olhar sensível para o outro e para as suas pluralidades infinitas. Escreve aqui sobre comportamento, dimensões do ser humano, presença e os vários caminhos possíveis do existir. Nasceu e vive em Florianópolis/SC.

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