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Viajar sozinha não significa não ter medo – Artigo por Ana Paula Lisboa Sohn

Viajar sozinha ainda desperta espanto. “Você vai sozinha?” é uma pergunta que escuto com frequência, quase sempre acompanhada de um olhar entre a admiração e a preocupação. Como se coragem fosse a ausência do medo.

Depois de percorrer Portugal, Inglaterra, Mônaco e França durante 23 dias, voltei convencida de que essa ideia está equivocada.

Viajar sozinha não significa não sentir medo. Não significa nunca sentir solidão. Também não significa abrir mão da convivência com outras pessoas.

Ao longo da viagem, vivi situações comuns a qualquer viajante: trens cancelados, mudanças inesperadas de planos, decisões tomadas sem poder consultar ninguém, o desafio de me orientar em lugares desconhecidos e a necessidade de confiar na própria capacidade para resolver problemas. Em nenhum desses momentos a vulnerabilidade desapareceu.

O que mudou foi a maneira de habitá-la.

Percebi que autonomia não é um estado em que tudo deixa de ser difícil. Ela é a capacidade de continuar caminhando mesmo quando existem dúvidas, incertezas e receios.

Talvez isso aconteça porque a verdadeira autonomia não nasce durante a viagem. Ela começa muito antes.

Ela é construída ao longo da vida: no trabalho, nas responsabilidades assumidas, na independência financeira, nas escolhas difíceis, nos desafios superados e nas inúmeras vezes em que precisamos decidir por nós mesmos.

Quando essa autonomia já faz parte da nossa história, viajar sozinha deixa de ser uma prova de coragem para se tornar apenas mais uma expressão da forma como vivemos.

Ao mesmo tempo, a viagem me lembrou que autonomia não significa isolamento. Pelo contrário. Viajar sozinha abre espaço para encontros espontâneos, conversas inesperadas e gestos de solidariedade entre pessoas que talvez nunca mais se encontrem. Descobrimos que podemos seguir nosso próprio caminho sem deixar de acolher o outro ou de sermos acolhidos por ele.

Há uma enorme diferença entre precisar de alguém para viver uma experiência e escolher compartilhar essa experiência com alguém.

Quando a companhia deixa de ser uma necessidade, ela ganha um novo significado: torna-se um presente, não uma condição.

Talvez essa seja uma das maiores lições do envelhecimento ativo. Muitas mulheres chegam aos 50, 60 ou 70 anos depois de décadas administrando famílias, carreiras, perdas e recomeços. Carregam uma autonomia construída silenciosamente ao longo da vida. Ainda assim, muitas continuam adiando sonhos porque acreditam que precisam esperar a companhia ideal para realizá-los.

Minha experiência sugere exatamente o contrário.

Esperar pode significar perder oportunidades preciosas.

Viajar sozinha não é celebrar a solidão. É reconhecer que a vida continua acontecendo, com ou sem companhia.

A vulnerabilidade permanece. O medo também. A saudade aparece. O desejo de compartilhar momentos continua existindo.

Mas nenhum deles precisa impedir que a viagem aconteça.

Talvez a maior liberdade que conquistamos ao longo da vida não seja deixar de sentir medo.

Seja aprender que o medo pode viajar conosco sem decidir o nosso destino.