A Secretaria de Assistência Social é o centro de um escândalo que tem incomodado a Prefeitura de Florianópolis nas últimas semanas. A pasta tem sido alvo de uma operação da Polícia Civil que investiga irregularidades na contratação de uma organização social para a gestão da Passarela da Cidadania, órgão responsável pelo atendimento das pessoas em situação de rua na cidade. Não é apenas a gravidade do caso que chama atenção, mas também os seus desdobramentos políticos: a dor de cabeça se tornou mais um capítulo de uma briga entre Topázio e antigo incumbente da Secretaria, Bruno Souza.
Bruno Souza foi secretário de Assistência Social de Florianópolis até junho do ano passado, quando foi exonerado pelo prefeito Topázio. Na época, Bruno era alvo de críticas após ter publicado em suas redes sociais um vídeo onde expunha um homem em situação de rua, o que gerou forte repercussão.
Pouco mais de um ano após sua saída, ele tem protagonizado uma série de trocas de farpas com o prefeito da Capital — a última, envolvendo justamente o contrato investigado pela Polícia Civil na chamada Operação Backstage. Com o objetivo de desarticular um suposto esquema de organização criminosa, fraudes licitatórias e corrupção na Secretaria de Assistência Social, a operação foca suas apurações na Passarela da Cidadania e no Restaurante Popular. Conforme apontam as investigações, houve um direcionamento ilícito de contratos para as empresas sob suspeita, gerando desvios de recursos públicos para beneficiar determinados servidores e indivíduos envolvidos no processo de contratação.
Nesta quarta-feira, 7, Topázio realizou uma coletiva de imprensa dedicada a explicar a situação à imprensa, onde defendeu que as irregularidades na pasta foram frutos da atuação do ex-secretário. Segundo ele, foi Bruno Souza o responsável por contratar, de maneira emergencial, a Organização Social Alberto de Souza, instituição que se encontra no centro da denúncia.
Durante a entrevista, o prefeito ainda teceu críticas à gestão de Bruno Souza na pasta, afirmando que o ex-secretário foi responsável por uma série de problemas administrativos e desestruturações. Questionado se esses seriam os motivos para a exoneração do ex-aliado, Topázio foi categórico: “Bruno saiu por três motivos: primeiro porque ele quis, segundo porque eu quis e, terceiro, porque ele foi incompetente naquilo que ele fazia.”
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Em reunião com vereadores da base, Topázio garantiu que vai frear candidatura de ex-secretário
A coletiva de imprensa não foi a única manifestação pública de Topázio contra Bruno Souza nas últimas semanas. No último dia 30, ele realizou uma reunião com vereadores da base do governo na Câmara Municipal para tentar impedir a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigaria irregularidades na Secretaria de Assistência Social. O requerimento para abertura da comissão foi protocolado pela vereadora Carla Ayres (PT) e já contava com 6 das 8 assinaturas necessárias. Entre a força crescente da CPI e as investigações em curso, os integrantes da base se sentiam pressionados a apoiar a iniciativa.
Na última semana, uma fonte dos bastidores revelou à coluna do jornalista Marcelo Lula que, ao longo da reunião, Topázio solicitou aos presentes que não assinassem o requerimento. Como garantia, o prefeito assegurou que atuaria para impedir a candidatura de Bruno Souza a deputado estadual neste ano.
Uma eventual articulação de Topázio no PL pode abrir espaço para os demais vereadores da base, que pensam em suas respectivas eleições — por isso, a sugestão do prefeito é interessante para eles. Como consequência, a possibilidade de uma CPI parece, por enquanto, afastada. Resta saber se Topázio, que hoje está no Podemos, tem ainda alguma influência dentro do PL a ponto de barrar uma candidatura, e se o partido estaria disposto a abrir mão de um candidato capaz de reunir uma quantidade considerável de votos como Bruno Souza.
Ex-secretário afirma ter avisado Topázio de irregularidades
Bruno Souza, é claro, não ficou em silêncio. Ele tem usado suas redes sociais para rebater Topázio, denunciando o que ele chama de “máfia dos mendigos”. Segundo o ex-secretário, ele havia avisado Topázio sobre as irregularidades encontradas no contrato com a organização, mas o prefeito não tomou providências para evitar a contratação da empresa.
Em sua página no Instagram, Souza expôs prints de uma conversa com Topázio datada de maio de 2025, poucos dias antes da assinatura do contrato. Na troca de mensagens, o ex-secretário envia a Topázio um relatório onde alerta sobre os preços praticados pela empresa — mas que, no entanto, não revela irregularidades explícitas na proposta. De acordo com Bruno, suas denúncias foram ignoradas por Topázio, que preferiu questioná-lo a respeito de uma live realizada com João Rodrigues (PSD) no dia anterior.

“Eu sou o cara que denunciou o esquema, que não é investigado, que avisou várias vezes e que se recusou a assinar o contrato irregular”, afirmou Bruno Souza na publicação em sua página no Instagram, onde aproveita para atacar Aníbal Gonzalez, secretário adjunto da pasta à época da assinatura do contrato. “Enquanto o Prefeito tenta me culpar, mantém como pessoa de confiança o Secretário que assinou o contrato, que é íntimo do vencedor da licitação irregular e que está envolvido em duas operações policiais”.
Quando Bruno Souza se recusou a assinar o contrato com a Associação Alberto de Souza, foi o secretário adjunto na época, Aníbal Gonzalez quem realizou a assinatura. Segundo Souza, Aníbal é figura próxima de Leandro Lima — que já comandou a pasta e, de acordo com ele, tem ligações com a OS investigada — e de Fábio Botelho, ex-chefe de gabinete de Topázio e pré-candidato a deputado estadual apadrinhado pelo prefeito. Aníbal e Leandro recentemente foram alvos de investigação da Polícia Civil na Operação Backstage.
Briga entre Topázio e Bruno Souza é política
Independente de quem tenha razão na briga entre os dois ex-aliados, fato é que a troca de farpas tem, acima de tudo, motivação política. Bruno Souza é pré-candidato a deputado estadual, e trabalha para se afastar do escândalo que toma conta da Secretaria que ele próprio chefiou por quase seis meses. Já Topázio busca manter limpa a imagem de Fábio Botelho, seu primo e também pré-candidato à Assembleia Legislativa, e afastar dele qualquer associação com os problemas na pasta. A estratégia do prefeito envolve relacionar Bruno Souza a toda e qualquer irregularidade no órgão — e pode ser que esteja funcionando.
Bruno Souza já havia tentado, também por meio do Instagram, implicar Fábio Botelho no escândalo da Assistência Social. Em um vídeo publicado no mês passado, ele associou o ex-chefe de gabinete de Topázio aos problemas no contrato do Hotel Social, sem apresentar provas. Após uma ação judicial movida por Botelho, no entanto, o ex-secretário foi obrigado a apagar as publicações.
Mas a briga está longe de acabar. A operação Backstage ainda está se desenrolando, e pode ser que qualquer um dos atores envolvidos nessa história acabe implicado nas investigações. Enquanto isso, Bruno Souza segue atacando Topázio e seus aliados por meio de sua principal arma: as redes sociais. Já o prefeito de Florianópolis tenta apagar o incêndio e evitar que o problema afete ainda mais a sua gestão. No fim das contas, o vencedor apenas será definido quando a Polícia Civil entregar seu relatório final, e quando as eleições mostrarem qual dos dois candidatos teve sucesso em suas estratégias pré-eleitorais.