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De quem ainda espero validação para me sentir autorizado a viver?

É preciso que alguém venha até a porta que já está aberta para dizer: “Pode entrar”?

Não nascemos prontos para o mundo.

Na nossa infância precisamos continuamente de alguém que nos diga “isso pode”, “isso não pode”, “isso você consegue”, “isso você ainda não consegue”…

Estamos aprendendo o mundo, precisamos de ajuda, de limites, de orientação.

Começamos a aprender quem somos pelo olhar do outro.

O problema é quando o cuidado deixa de nos preparar para a autonomia e passa a produzir dependência. Quando a orientação se transforma em controle. Quando a proteção ocupa o lugar da confiança.

E quando crescemos carregando essa voz problemática dentro de nós, é comum continuar esperando.

Como se existisse uma autoridade instalada no nosso “sistema”, tomando decisões antes mesmo que nossa consciência pudesse participar delas. Decidindo o tamanho da vida que nos permitimos viver.

Mudam os atores. Saem os pais e professores e entram os chefes, o mercado, nossos seguidores e até nossos parceiros.

Como se continuássemos ensaiando um discurso para um júri que talvez já nem esteja mais na sala.

Perdemos oportunidades, deixamos de viver alguma coisa preciosa, nos encolhemos, nos subestimamos, ligamos o automático. Ligamos nosso “modo avião” como se precisássemos nos encolher para que nossa existência não cause interferência na vida dos outros.

E, curioso, quase nunca percebemos que estamos esperando.

Chamamos isso de prudência. De responsabilidade. De perfeccionismo. De humildade.

Dizemos que ainda não é a hora. Que falta estudar mais um pouco. Que o projeto ainda não está pronto. Que talvez, depois.

Enquanto isso, a vida segue acontecendo do lado de fora da porta.

Até que, em algum momento — às vezes provocado por uma crise, uma perda, uma terapia, um encontro ou simplesmente pelo cansaço de viver pela metade — temos coragem de nos olhar de frente.

E percebemos algo óbvio e por isso tão desconcertante: a autorização que esperamos não virá.

Não porque alguém esteja diabolicamente nos negando.

Mas porque essa autorização nunca pertenceu ao outro. Ela sempre foi uma travessia interior.

Amadurecer é perceber que essa autoridade precisa mudar de endereço. Seja porque fomos excessivamente controlados, seja porque aprendemos cedo demais a viver tentando corresponder às expectativas dos outros, o que importa é que ela precisa mudar de endereço.

Tomar a vida nas próprias mãos. E exercitar isso diariamente se for preciso.

Não deixamos de escutar o mundo. Apenas deixamos de depender dele para reconhecer a legitimidade da nossa própria existência.

Há um verso de Caetano Veloso que fala de uma educação que ensina delicadeza, mas não submissão; respeito, mas não medo. O conselho que vem da sua mãe. Acho que ele resume bem o que falamos aqui:

“Minha mãe me deu ao mundo

De maneira singular

Me dizendo a sentença

Pra eu sempre pedir licença

Mas nunca deixar de entrar”

Pedir licença quando ela é sinal de respeito. Nunca quando ela significa pedir autorização para existir.

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Nota de rodapé

Há versos que nos acompanham porque dizem exatamente aquilo que gostaríamos de ter ouvido um dia. Salve dona Canô!