Após cerca de um ano e meio de uma atuação marcada pelo isolamento na Câmara de Vereadores de Balneário Camboriú, Jair Renan está prestes a perder sua cadeira na única Comissão Permanente da qual faz parte. Isso porque o presidente da Comissão de Segurança Pública e Defesa do Cidadão, Eduardo Zanatta (PT), protocolou um pedido de destituição contra o filho 04 do ex-presidente Jair Bolsonaro, por conta do excesso de faltas não justificadas nas reuniões do colegiado.
O pedido protocolado pelo vereador à Câmara Municipal tem lastro no regimento interno da Casa. De acordo com a norma que rege o funcionamento do órgão, os membros das Comissões podem ser destituídos caso estejam ausentes sem prévia justificativa a três reuniões consecutivas ou a cinco reuniões alternadas. Segundo informações presentes nas atas das reuniões da Comissão, Jair Renan registrou 13 faltas no total: três delas justificadas, e outras 10 sem justificativa — 9 dessas em sequência.
Responsável por tratar de matérias relacionadas ao combate à violência e à criminalidade no âmbito municipal, a Comissão de Segurança Pública é a única das 13 Comissões Permanentes da qual Jair Renan faz parte. Para os parlamentares alinhados ao bolsonarismo, que possuem a segurança pública como uma de suas bandeiras políticas históricas, a presença em um colegiado como este é vista como estratégica em qualquer Casa Legislativa. Apesar de ocupar um assento no órgão desde o início de seu mandato, em 2024, Jair Renan compareceu a apenas 10 das 23 reuniões realizadas neste período.
Mas o pedido protocolado por Eduardo Zanatta não parece ter pego Jair Renan de surpresa. De acordo com a apuração da repórter Greici Siezemel, da NDTV Record, antes da movimentação do presidente da Comissão, o vereador já havia conversado com o líder do PL na Câmara de Balneário Camboriú, Kaká Fernandes, para articular sua saída do colegiado. O objetivo do 04 era trocar sua vaga por um assento na Comissão de Defesa do Consumidor.
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Jair Renan quer se dedicar à pré-campanha
Uma das motivações para o pedido de troca de comissão seria a vontade de Jair Renan de se dedicar a sua pré-campanha. No último domingo, 5, o vereador anunciou em sua página no Instagram a sua pré-candidatura a deputado federal por Santa Catarina, e as atividades parlamentares na Câmara pareciam estar atrapalhando sua dedicação ao novo projeto.
Na publicação, o 04 afirma estar cumprindo uma missão imposta pelo seu pai, Jair Bolsonaro: “continuar lutando pelos brasileiros e defender os valores que sempre nos uniram”. Ele pretende amarrar seu projeto às candidaturas de seus irmãos mais velhos, que também disputam cargos no pleito de 2026 — Flávio para a presidência, e Carlos para o Senado, também por Santa Catarina.
Atuação política apagada e marcada pelo isolamento
Com mais de 3 mil votos, Jair Renan foi o vereador mais votado de Balneário Camboriú em 2024, e pode ser um cabo eleitoral relevante para o clã no próximo pleito. No entanto, sua atuação enquanto vereador pela “Dubai brasileira” é tudo, menos destacada. Em pouco mais de um ano e meio enquanto parlamentar, ele apresentou apenas 12 projetos de lei, dos quais apenas dois foram sancionados: o primeiro institui o Programa Jovem Cidadão BC, dedicado a promover valores como cidadania, ética, e dar orientação para o mercado de trabalho. Já o segundo foi responsável por implementar um programa de apoio psicológico nas escolas municipais.
Com foco quase sempre em pautas ideológicas, ele apresentou alguns projetos que não avançaram na Casa, como um que buscava proibir a “doutrinação ideológica ao comunismo, socialismo e nazismo no âmbito do ensino escolar” no município — barrado após recomendação da Procuradoria-Geral do município. Outras propostas buscavam combater a “erotização infantil”, por meio de medidas de conscientização a serem adicionadas no programa pedagógico das escolas municipais, ou proibir a contratação pela prefeitura de artistas que façam apologia ao crime organizado ou ao uso de drogas.
A carreira de Jair Renan enquanto político também foi marcada pelo isolamento — inclusive entre seus colegas de direita, com quem acumula uma série de desafetos. Ele é um opositor da atual prefeita do município, Juliana Pavan (PSD) e, no ano passado, foi o único a votar contra um projeto de lei de autoria dela, que visava combater o furto de fios na cidade. O posicionamento destoou inclusive da bancada de oposição, que votou favoravelmente junto aos parlamentares governistas.
Soma-se a isso uma série de desentendimentos com outros integrantes do parlamento, como o presidente da Casa, Marcos Kurtz (Podemos). Em plenário, Kurtz ironizou o desempenho legislativo do “04”, apelidando-o de “Tiririca de Balneário Camboriú” em desdobramento a uma troca de farpas nos bastidores.
O episódio da Comissão de Segurança Pública é apenas uma demonstração das capacidades do 04 em um cargo eletivo. Se na política de uma cidade relativamente pequena, com apenas 19 vereadores, ele não foi capaz de se destacar, imagina-se o que ele será capaz de realizar caso eleito para a Câmara de Deputados, onde precisará lidar com outros 512 colegas. Representar o estado no Congresso exige responsabilidade e compromisso, além de capacidade de diálogo — características que Jair Renan parece precisar ainda desenvolver antes de aprofundar sua carreira política.
