A publicitária, comunicadora e ativista Carolline Sardá tomou posse como deputada estadual na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), nesta quarta-feira (15), assumindo temporariamente a cadeira do deputado Marcos José de Abreu, o Marquito (PSOL), licenciado para dedicar-se à pré-campanha à reeleição. Em seu primeiro pronunciamento na tribuna, a parlamentar apresentou as diretrizes que pretende defender durante o período em que permanecerá no Legislativo catarinense, com destaque para o enfrentamento à violência contra as mulheres, a ampliação da rede de proteção às vítimas e a defesa de direitos sociais.
A cerimônia reuniu parlamentares, representantes de movimentos sociais, lideranças feministas de diferentes gerações, familiares, militantes e apoiadores que acompanharam a posse da primeira suplente do PSOL. Em um discurso marcado por relatos pessoais, dados sobre violência de gênero e propostas de políticas públicas, Carolline afirmou que pretende exercer um mandato voltado aos segmentos que, segundo ela, possuem menor representação institucional.
Logo no início da fala, a nova deputada destacou que sua chegada ao Parlamento representa a continuidade de uma trajetória construída na militância social, na educação política e na produção de conteúdo voltado aos direitos das mulheres.
Conteúdos
- POSSE MARCA CONTINUIDADE DO MANDATO DE MARQUITO
- MANDATO TERÁ FOCO EM DIREITOS HUMANOS E REPRESENTAÇÃO SOCIAL
- RELATO PESSOAL DE VIOLÊNCIA MARCOU O PRIMEIRO DISCURSO
- FEMINICÍDIO PASSA A SER UMA DAS PRINCIPAIS PAUTAS DO MANDATO
- DELEGACIAS ESPECIALIZADAS ESTÃO ENTRE AS PRINCIPAIS REIVINDICAÇÕES
- ESTRUTURA DA REDE DE PROTEÇÃO TAMBÉM FOI QUESTIONADA
- REFORÇO À PATRULHA E ÀS MEDIDAS PROTETIVAS
- CAPACITAÇÃO E ACESSIBILIDADE TAMBÉM INTEGRAM AS PROPOSTAS
- DEFESA DAS MULHERES INDÍGENAS E DA POPULAÇÃO VULNERÁVEL
- MANDATO PRETENDE DIALOGAR COM TODAS AS BANCADAS
- FRASE FINAL RESUMIU A PRINCIPAL BANDEIRA DO MANDATO
- QUEM É CAROLLINE SARDÁ
POSSE MARCA CONTINUIDADE DO MANDATO DE MARQUITO
Carolline Sardá assume a vaga deixada temporariamente por Marquito, deputado reconhecido por pautas ligadas à agroecologia, sustentabilidade, participação popular e direitos humanos.
Ao agradecer ao colega de partido, afirmou que dará continuidade às iniciativas desenvolvidas pelo parlamentar, ao mesmo tempo em que pretende ampliar a atuação em áreas relacionadas ao combate às desigualdades, à defesa das mulheres e à construção de políticas públicas voltadas à população em situação de vulnerabilidade.
Segundo ela, o mandato seguirá percorrendo diferentes regiões catarinenses para ouvir demandas da população e transformá-las em projetos de lei, requerimentos, audiências públicas e demais instrumentos legislativos.
MANDATO TERÁ FOCO EM DIREITOS HUMANOS E REPRESENTAÇÃO SOCIAL
Durante o pronunciamento, Carolline apresentou quais serão as principais frentes de atuação parlamentar.
A deputada afirmou que pretende representar grupos historicamente sub-representados na política institucional e ampliar o diálogo com movimentos populares, entidades civis e organizações da sociedade.
“O meu mandato será um mandato das mulheres, da juventude, da periferia, das pessoas com deficiência, dos povos originários, da população negra, dos professores, estudantes, de quem faz cultura, nas rua, nas batalhas de rima e poesia, da classe trabalhadora e de todo mundo que não tem um microfone dentro dessa Assembleia.”
Segundo a parlamentar, a construção das propostas legislativas será baseada nas demandas apresentadas pela população durante visitas aos municípios catarinenses.
Ela afirmou que pretende manter uma atuação próxima das comunidades e transformar reivindicações locais em iniciativas debatidas dentro da Assembleia Legislativa.
RELATO PESSOAL DE VIOLÊNCIA MARCOU O PRIMEIRO DISCURSO
O momento de maior impacto do pronunciamento ocorreu quando Carolline compartilhou um episódio vivido por ela em 2016.
A deputada contou que, após sofrer violência sexual, procurou atendimento em uma delegacia durante a madrugada, mas encontrou a unidade fechada. Ao retornar no dia seguinte, afirmou ter sido submetida a um atendimento que classificou como revitimizante.
Segundo o relato, durante o registro da ocorrência ouviu questionamentos sobre sua roupa, sobre a ausência de ferimentos aparentes e sobre a possibilidade de estar “acabando com a vida de um pobre homem por um mero arrependimento”.
Carolline afirmou que aquela experiência transformou sua trajetória pessoal e política.
Desde então, passou a dedicar sua atuação ao combate à violência contra as mulheres, participando de movimentos sociais, produzindo conteúdos educativos e aprofundando estudos sobre políticas públicas voltadas ao tema.
Para a parlamentar, sua chegada à Assembleia representa também o resultado de uma década de atuação nessa área.
FEMINICÍDIO PASSA A SER UMA DAS PRINCIPAIS PAUTAS DO MANDATO
Grande parte do pronunciamento foi dedicada ao cenário da violência contra as mulheres em Santa Catarina.
Carolline afirmou que pretende utilizar dados oficiais para cobrar melhorias na estrutura de proteção às vítimas e ampliar a fiscalização sobre as políticas públicas existentes.
Durante o discurso, citou informações do Observatório da Violência Contra a Mulher indicando que Santa Catarina registrou 30 feminicídios entre janeiro e julho deste ano, número superior ao contabilizado no mesmo período de 2025.
Na avaliação da parlamentar, os indicadores demonstram a necessidade de fortalecer toda a rede de enfrentamento à violência de gênero.
Ela defendeu ações preventivas, investimentos estruturais e ampliação dos serviços especializados voltados ao atendimento das vítimas.
DELEGACIAS ESPECIALIZADAS ESTÃO ENTRE AS PRINCIPAIS REIVINDICAÇÕES
Entre as propostas apresentadas está a expansão das Delegacias de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (DPCAMIs).
Segundo Carolline, embora a legislação assegure atendimento especializado, a estrutura ainda é insuficiente para atender a população catarinense.
A parlamentar afirmou que atualmente Santa Catarina possui 32 delegacias especializadas para 295 municípios e destacou que diversas cidades de médio porte ainda não contam com esse tipo de atendimento.
Ela argumentou que muitas mulheres precisam percorrer longas distâncias para registrar uma denúncia, enfrentando obstáculos relacionados ao transporte, dependência financeira do agressor e horários limitados de funcionamento das unidades policiais.
Na avaliação da deputada, a dificuldade de acesso compromete a efetividade da proteção às vítimas.
ESTRUTURA DA REDE DE PROTEÇÃO TAMBÉM FOI QUESTIONADA
Além das delegacias especializadas, Carolline afirmou que o Estado precisa ampliar significativamente a estrutura de acolhimento às mulheres vítimas de violência.
Segundo ela, faltam casas-abrigo capazes de receber mulheres e seus filhos em situação de risco, especialmente nos casos em que existe dependência econômica em relação ao agressor.
A deputada também criticou a ausência de uma Casa da Mulher Brasileira em Santa Catarina, modelo criado pelo Governo Federal para concentrar diversos serviços especializados em um único espaço.
Para Carolline, a inexistência desse equipamento limita a capacidade de atendimento e proteção às vítimas.
REFORÇO À PATRULHA E ÀS MEDIDAS PROTETIVAS
Outro ponto destacado durante o pronunciamento foi a necessidade de ampliar o efetivo destinado ao acompanhamento das medidas protetivas.
A parlamentar relatou informações apresentadas durante uma audiência pública realizada em São José sobre feminicídio.
Segundo ela, o município possui apenas três policiais responsáveis pelo acompanhamento de aproximadamente 680 medidas protetivas.
Na avaliação da deputada, a estrutura existente é insuficiente para garantir fiscalização permanente e proteção efetiva às mulheres ameaçadas.
Carolline argumentou que, em diversos casos, vítimas acabam sendo assassinadas mesmo após obterem medidas protetivas, justamente pela limitação operacional das equipes responsáveis pelo monitoramento.
CAPACITAÇÃO E ACESSIBILIDADE TAMBÉM INTEGRAM AS PROPOSTAS
Além da ampliação física da rede de atendimento, Carolline defendeu investimentos na formação continuada dos profissionais responsáveis pelo acolhimento das vítimas.
Entre as propostas apresentadas estão a presença de psicólogos nas delegacias, ampliação da acessibilidade arquitetônica, disponibilização de intérpretes de Libras e criação de protocolos específicos para mulheres com deficiência.
Segundo a parlamentar, uma rede de proteção eficiente depende não apenas da existência dos equipamentos públicos, mas também da qualidade do atendimento oferecido.
Ela ressaltou que mulheres com deficiência frequentemente enfrentam barreiras adicionais para denunciar situações de violência.
DEFESA DAS MULHERES INDÍGENAS E DA POPULAÇÃO VULNERÁVEL
Durante o pronunciamento, Carolline também afirmou que pretende ampliar o debate sobre violência de gênero entre mulheres indígenas, negras, periféricas e pessoas com deficiência.
Ao citar diferentes realidades enfrentadas por essas populações, a deputada defendeu políticas públicas capazes de considerar especificidades sociais, culturais e territoriais.
Ela também mencionou o caso de Sonia Maria, mulher negra com deficiência auditiva resgatada de condições análogas à escravidão, utilizando o episódio para defender maior proteção institucional às mulheres em situação de vulnerabilidade.
Segundo Carolline, a violência de gênero manifesta-se de diferentes formas e exige respostas igualmente diversas por parte do poder público.
MANDATO PRETENDE DIALOGAR COM TODAS AS BANCADAS
Apesar de assumir por um partido de oposição, Carolline afirmou que buscará diálogo com parlamentares de diferentes posições políticas para avançar em pautas relacionadas à proteção das mulheres.
Segundo ela, a violência de gênero não possui orientação partidária e deve ser enfrentada de maneira conjunta pelo Parlamento catarinense.
Ao defender essa construção institucional, destacou que pretende utilizar dados técnicos e informações oficiais para fundamentar projetos e cobranças dirigidas ao Estado.
FRASE FINAL RESUMIU A PRINCIPAL BANDEIRA DO MANDATO
No encerramento do pronunciamento, Carolline reafirmou que pretende acompanhar permanentemente a estrutura de proteção às mulheres existente em Santa Catarina e cobrar investimentos onde identificar carências.
Ao concluir a fala, fez uma das declarações que marcaram sua posse.
“Não aceitarei que Santa Catarina, o único estado no Brasil com nome de mulher, tenha a vida das nossas Catarinas ceifadas.”
QUEM É CAROLLINE SARDÁ
Natural de Canoinhas, Carolline Sardá é publicitária, historiadora em formação pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e criadora de conteúdo dedicada à produção de materiais sobre história das mulheres, política, feminismo e educação política.
Sua trajetória profissional começou na publicidade e no marketing digital, área na qual desenvolveu projetos relacionados à estratégia de comunicação, posicionamento institucional e construção de comunidades digitais.
Posteriormente, passou a direcionar sua atuação para a divulgação científica e histórica em linguagem acessível, aproximando temas tradicionalmente restritos ao ambiente acadêmico do público geral.
Ao longo dos últimos anos, consolidou presença nas redes sociais produzindo conteúdos sobre direitos das mulheres, participação política, democracia, movimentos sociais, história do Brasil, gênero, raça e organização coletiva.
Também é criadora do Clube de Leitura Feminista, iniciativa que reúne milhares de mulheres em encontros, debates, formações e atividades voltadas à leitura de obras produzidas por pesquisadoras e autoras feministas.
Outro projeto desenvolvido por Carolline é o quadro “Mulheres na História”, dedicado ao resgate de trajetórias femininas frequentemente ausentes dos registros históricos tradicionais.
Além da atuação digital, ministra palestras, cursos e formações sobre educação política, comunicação estratégica e história das mulheres.
Segundo sua apresentação pública, seu trabalho busca democratizar o acesso ao conhecimento histórico e fortalecer processos de formação crítica, aproximando pesquisas acadêmicas do cotidiano da população por meio de linguagem acessível e produção de conteúdo educativo.
