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Entrevista com Karol Maia: Aqui Não Entra Luz e a memória da casa brasileira

Quando o cinema sai do quarto da empregada, lança luz sobre as marcas da memória racista na construção do Brasil

Há filmes que chegam às salas de cinema. Outros reorganizam a forma como observamos espaços, digamos, familiares. Aqui Não Entra Luz, documentário dirigido por Karol Maia, (2026, distribuição Embaúba Filmes), pertence a essa segunda forma.

Ao investigar o quarto de empregada, o filme ilustra a tese de que a arquitetura produz memória. Cada corredor, cada porta de serviço e cada ambiente destinado ao trabalho doméstico preservam formas de organização social que atravessaram a escravidão e permaneceram inscritas nas cidades brasileiras.

Conheci esse projeto em 2020, quando entrevistei Karol Maia para a Revista Gulliver. O documentário ainda estava em desenvolvimento. A pesquisa já revelava um percurso singular: investigar como um espaço incorporado durante décadas à arquitetura das casas brasileiras preservava marcas profundas da formação social do país. O filme ainda buscava sua forma definitiva. A pergunta central, entretanto, já estava presente desde o início: o que uma planta baixa pode revelar sobre a história do Brasil?

Seis anos depois, reencontro Karol Maia para acompanhar outra etapa dessa trajetória. Entre uma conversa e outra, Aqui Não Entra Luz percorreu oito anos de desenvolvimento, produção e pós-produção. Estreou no Festival de Brasília, passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, pelo CineBH e chegou ao circuito nacional em maio deste ano, com distribuição da Embaúba Filmes. A pesquisa tornou-se uma obra capaz de ampliar um debate que ultrapassa o próprio cinema.

A estreia catarinense, realizada em 17 de julho, na Sala Gilberto Gerlach, no Centro Integrado de Cultura (CIC), também reafirma a importância dos espaços públicos de exibição. O filme chegou a Florianópolis por meio da programação do Cineclube CineLivre LA, iniciativa que evidencia uma característica central do cinema brasileiro contemporâneuo de cineclubes, curadores, salas públicas e coletivos culturais comprometidos com a diversidade audiovisual. A formação de público depende dessas redes de circulação.

Essa missão é referendada por Angelo Corti Neto, idealizador do cineclube. Segundo ele, o projeto Cinestreia nasceu para corrigir um “erro de rota” do circuito exibidor, trazendo para Florianópolis filmes independentes, nacionais e latino-americanos que chegam ao circuito brasileiro, mas permanecem ausentes das salas da cidade.

A proposta é ampliar o acesso a obras com maior densidade crítica e temática social, realizando sessões únicas, gratuitas e com qualidade de projeção. “É isso que a gente quer fazer também: trazer o povo trabalhador, principalmente, a ter essa opção de lazer de poder assistir a um filme com qualidade de cinema, num cinema, e aproximar do CIC, que você sabe muito bem que é um espaço elitizado, e a gente quer quebrar um pouco com isso”, afirma Angelo. O projeto também prepara uma nova etapa, com o Cinestreia Clássicos, dedicado a filmes restaurados e digitalizados em 4K que permaneceram fora do circuito local.

Santa Catarina ocupa um lugar particular nessa discussão. Durante décadas, a identidade oficial do estado foi organizada em torno da imigração europeia como narrativa predominante de sua formação histórica. Essa perspectiva reduziu a presença da população negra na memória pública, nas políticas de patrimônio, nos monumentos e também nas imagens produzidas sobre o território. A escravidão permaneceu frequentemente deslocada para um plano secundário, apesar de integrar profundamente a constituição econômica, urbana e social catarinense.

O quarto de empregada deixa de aparecer como solução arquitetônica e passa a revelar uma estrutura histórica. Corredores de serviço, entradas independentes, dormitórios sem iluminação adequada e ambientes planejados para permanecer invisíveis deixam de ser detalhes construtivos. Tornam-se evidências materiais de uma organização social baseada na desigualdade. A arquitetura perde a aparência de neutralidade e passa a ser lida como linguagem política.

Karol Maia conduz essa investigação sem transformar o documentário em tese acadêmica. A pesquisa histórica dialoga com relatos de trabalhadoras domésticas de diferentes regiões do país e com sua própria experiência familiar. Filha de uma trabalhadora doméstica, a diretora compreende que a memória coletiva também atravessa experiências íntimas. O filme aproxima essas dimensões e demonstra como histórias particulares revelam estruturas compartilhadas por toda a sociedade.

A circulação desse documentário também amplia o repertório crítico disponível ao público. Cada sessão incorpora ao debate temas como memória, raça, arquitetura, trabalho e direitos sociais. Em um momento marcado pela concentração das salas comerciais em poucos títulos, a existência de espaços públicos de exibição fortalece a presença do cinema brasileiro independente e amplia as possibilidades de formação cultural.

Talvez o gesto mais potente de Aqui Não Entra Luz aconteça depois do término da sessão. Como a própria Karol Maia relata nesta entrevista, o encontro com o público tem despertado lembranças que permaneceram silenciadas durante décadas. Experiências do trabalho doméstico, muitas vezes vividas em isolamento, passam a ser compartilhadas coletivamente. O cinema deixa de funcionar apenas como representação e assume sua capacidade de produzir memória pública.

Cena do documentário Aqui Não Entra Luz
Cena do documentário “Aqui Não Entra Luz”

Esse movimento também acompanha uma transformação mais ampla do audiovisual brasileiro. Durante décadas, grande parte das imagens sobre a população negra foi organizada por perspectivas externas às próprias experiências retratadas. A presença crescente de diretoras e diretores negros amplia esse campo de representação e disputa o imaginário sobre quem ocupa a casa brasileira, quem ocupa a tela e quem possui o direito de contar a própria história. As experiências negras deixam de ocupar um espaço periférico e passam a constituir parte estruturante da produção cinematográfica contemporânea.

Foi sobre esse percurso que retomamos a conversa iniciada ainda durante o desenvolvimento do documentário.

Entrevista

Cinco anos atrás você falava sobre o filme como um processo de resgate de memória. Hoje, depois do lançamento nacional de Aqui Não Entra Luz, como essas memórias retornam para você quando passam a ocupar a sala de cinema?

Karol Maia: Lançar o filme depois de oito anos de realização – entre desenvolvimento, produção e pós – tem sido muito bonito. Sem dúvida, estrear no Festival de Brasília foi um dos grandes marcos para mim nessa trajetória. O encontro com o público está sendo incrível; gosto muito de ouvir as pessoas, inclusive sobre o que elas não gostaram, pois faz parte do processo. As memórias que estão no filme inspiram para que outras lembranças venham à tona. O trabalho doméstico pode ser muito silenciado, cheio de experiências que não foram legais para a trabalhadora. Tenho visto o filme encorajar as pessoas a dividirem essas experiências e memórias difíceis. É muito importante compartilhar isso para podermos elaborar essas vivências.

A circulação de Aqui Não Entra Luz surpreendeu pela permanência em cartaz e pela presença em diferentes cidades brasileiras. Como tem sido encontrar públicos tão diversos para uma história construída a partir de uma experiência profundamente brasileira?

Karol Maia: Olha, eu não sei ao certo em quantas cidades e salas o filme estreou, nunca parei para fazer essa conta. Mas a trajetória tem sido muito bonita. O longa estreou em 7 de maio e seguiu com agenda no circuito até o final de julho. Acabou ficando muito mais tempo em cartaz do que eu tinha imaginado. Com certeza é um feito para se celebrar. Ter o meu primeiro longa-metragem estreando no cinema é um marco importantíssimo na minha carreira.

O circuito de cinema no Brasil ainda oferece pouco espaço para histórias como esta? Qual a importância de disputar o imaginário coletivo sobre quem ocupa a casa brasileira, quem ocupa a tela e quem tem o direito de contar a própria história?

Karol Maia: O cinema brasileiro tem ganhado novos filmes que falam não só sobre o tema de Aqui Não Entra Luz, mas também sobre a comunidade negra, LGBT, favelada e outras realidades que ainda não ocupam a nossa atenção como deveriam. Eu sempre vou celebrar os filmes de diretores e diretoras negras, porque nós temos o direito de falar sobre o que quisermos, independentemente de fazer parte da nossa experiência pessoal ou não. Vou sempre exaltar qualquer obra que traga imaginários diferentes, complexos, positivos e interessantes sobre a população negra.

Desde que Adélia Sampaio lançou Amor Maldito, em 1984, ainda são poucos os filmes dirigidos, escritos e protagonizados por mulheres negras no Brasil. O que muda na sua perspectiva agora que você possui um longa-metragem registrado na Ancine e passa a disputar novos editais?

Karol Maia: Sem dúvida, o Brasil ainda tem muito o que investir e crescer quando o assunto é cinema feminino e negro. Eu torço para que a gente tenha mais estrutura e investimento para realizar nossos projetos, porque fazer um filme leva anos de trabalho. Espero que toda a economia do audiovisual no Brasil aponte os olhos para que mais mulheres negras estejam produzindo. Nós temos belas histórias para contar; histórias pessoais, mas com imensa capacidade de serem universais, assim como acontece há décadas com o cinema produzido nos grandes centros mundiais. Fazemos cinema para as pessoas. Uma mulher negra pode e deve fazer um filme sobre qualquer assunto.

O documentário demonstra que a memória também habita os espaços construídos. Corredores, portas de serviço e quartos sem luz natural preservam uma organização social que permaneceu incorporada à arquitetura brasileira durante décadas. O filme transforma esses ambientes em documentos capazes de ampliar a compreensão sobre a formação do país.

A presença de Aqui Não Entra Luz em Florianópolis inscreve o filme em uma disputa de memória sobre a própria formação do que se chama “catarinense”. A Sala Gilberto Gerlach transforma-se em espaço de encontro entre cinema e história, permitindo que uma narrativa frequentemente ausente das imagens oficiais do estado ocupe o centro do debate público.

Ao revelar as marcas sociais preservadas pela arquitetura brasileira, Karol Maia constrói uma obra que atravessa o tempo da tela e permanece como reflexão sobre os espaços, os trabalhos e as vidas que sustentam a construção do país.

Imagem de divulgação, créditos Cristiano Rolemberg.

Link para entrevista em 2020 Revista Gulliver (agradecimentos a Carol Macario)

Matéria na Revista Casa Vogue / O Globo

https://vogue.globo.com/cultura/filmes/noticia/2026/05/karol-maia-estreia-documentario-sobre-o-quarto-de-empregada-o-brasil-nao-tenciona-esse-debate.ghtml

Rede social do filme:

https://www.instagram.com/aquinaoentraluz