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Um desejo só

Estava aqui pensando: e se aparecesse um gênio da lâmpada? Ou um duende esperto ou, quem sabe, se a minha própria imagem no espelho resolvesse falar comigo e me oferecesse um desejo?

Como num filme de ficção, uma voz perguntaria:

“Se você pudesse pedir uma única coisa para o mundo, o que pediria?”

Eu pediria uma coisa difícil de formular e, talvez por isso mesmo, um tanto radical:

Que todas as pessoas pudessem, num mesmo instante, chegar a um certo patamar comum, elevado, de compreensão sobre a condição humana e sobre o fato de estarmos todos vivendo juntos neste planeta.

Não estou falando de pensar igual.

O mundo não precisa que todos pensem igual. Uma humanidade saudável é justamente aquela capaz de conviver com diferenças enormes.

O problema começa quando não conseguimos sequer concordar sobre determinados aspectos básicos da realidade compartilhada.

Quando cada grupo constrói sua própria versão dos acontecimentos, seus próprios critérios de verdade e, principalmente, sua própria noção de quem merece consideração, a conversa, que poderia partir de:

“O que faremos diante desse problema?”

Passa a patinar em: “Mas esse problema existe?”

Isso nos faz sempre voltar muitas casas. Não temos sequer um chão comum a partir do qual discordar.

Meu desejo seria que todos pudéssemos compreender algumas coisas bastante básicas:

Que ninguém existe isoladamente.

Que somos profundamente interdependentes, ainda que nossa cultura insista em nos apresentar como indivíduos autônomos, competindo uns com os outros por espaço, dinheiro, reconhecimento e poder.

Que o sofrimento de uma pessoa não é apenas consequência de suas escolhas, de sua falta de esforço ou de sua incapacidade de “pensar positivo”. Há circunstâncias sociais, econômicas, históricas e relacionais que também produzem sofrimento. Reconhecer isso não elimina a responsabilidade individual; apenas impede que transformemos toda dor em culpa.

Que os recursos do planeta são finitos e que nossa capacidade de desejar, consumir e acumular parece ter avançado muito mais rápido do que nossa capacidade de compreender as consequências disso.

Que nossas escolhas nunca dizem respeito apenas a nós mesmos.

Que diferença não é ameaça.

Que poder não é sinônimo de razão.

Que ser capaz de impor uma vontade não significa estar certo.

E, acima de tudo, que as outras pessoas são tão reais quanto nós.

Parece pouco. Quase óbvio.

Mas é justamente aí que está o problema: ainda gastamos uma quantidade impressionante de energia tentando convencer uns aos outros de coisas que deveriam constituir o ponto de partida de qualquer conversa sobre o futuro.

Gostaria de um certo amadurecimento coletivo. Da capacidade de olhar para além do próprio umbigo sem interpretar isso como ameaça à própria liberdade. De conseguir olhar para trás, para os lados e para frente. De perceber que nossa história não começou conosco e que o futuro não terminará em nós.

Esse seria o meu desejo.

Não que todos concordassem.

Mas que todos tivessem consciência suficiente para discordar melhor.

Porque, a partir desse pequeno deslocamento, talvez pudéssemos finalmente começar a discutir as coisas que realmente importam.

Como queremos educar nossas crianças.

Como queremos envelhecer.

Que tipo de trabalho queremos realizar.

Que lugar a tecnologia deve ocupar em nossas vidas.

Como cuidar da saúde sem transformar pessoas em números.

Como produzir riqueza sem produzir miséria.

Como distribuir conhecimento.

Como ampliar o acesso à cultura.

Como construir cidades em que as pessoas possam viver e não apenas circular.

Como cuidar de quem precisa de cuidado.

Como criar um planeta habitável para quem ainda nem nasceu.

Mas a quantidade de energia que gastamos tentando mostrar o óbvio para quem insiste em olhar o mundo a partir de uma única perspectiva acaba consumindo a energia que poderíamos estar usando para imaginar e construir novos caminhos.

Tentar explicar repetidamente que violência produz sofrimento. Que desigualdade tem consequências. Que o planeta não é infinito. Que outras pessoas têm direitos — inclusive o direito de existir, de se apresentar e de viver sem precisar pedir licença para ser quem são. Que a cor da pele, o gênero, a orientação sexual, a origem ou a maneira como alguém escolhe se apresentar ao mundo não deveriam determinar o quanto essa pessoa merece respeito, direitos e oportunidades. Que envelhecer não é desaparecer. Que saúde não é privilégio. Que uma sociedade não se sustenta apenas com indivíduos cuidando dos próprios interesses.

Enquanto fazemos esse trabalho básico, poderíamos estar discutindo questões muito mais interessantes.

Poderíamos estar imaginando o que fazer depois que certas coisas já estivessem dadas como compreendidas.

Mas, em pleno século XXI, ainda precisamos lutar para tornar aceitas questões que deveriam ter sido superadas há muito tempo.

E aí nos mantemos presos neste ciclo sem fim.

Então, continuo lançando meu desejo diariamente ao universo.

Pelo sim, pelo não.

Vai que alguém me escuta.

Porque, pela lógica, pelas cartesianidades, pelo puro estado científico das coisas, não estamos indo muito bem.

Talvez seja hora de admitir que, para dar certo, vamos precisar de algo além da razão.

Um pouco de magia, quem sabe.

Um gênio da lâmpada, um duende…

Por via das dúvidas, vou continuar conversando com meu espelho.