Estudo aponta que os registros da síndrome cresceram 96,4% em uma década e coloca em debate a sobrecarga enfrentada pelas mulheres
O burnout tem sido registrado com frequência crescente no Brasil e, entre os dados que chamam atenção, está a forte presença das mulheres nas notificações da síndrome. Um levantamento epidemiológico que analisou os casos registrados no país entre 2014 e 2024 mostrou que 71,6% das notificações foram relacionadas ao público feminino.
A pesquisa também identificou um aumento de 96,4% nos registros ao longo da década analisada. O ano de 2024 concentrou o maior número de notificações de toda a série, enquanto a faixa etária de 35 a 49 anos reuniu 56,7% dos casos.
Os números não permitem, isoladamente, determinar por que as mulheres são maioria entre as notificações, mas ajudam a ampliar o debate sobre fatores como sobrecarga, múltiplas jornadas, pressão profissional e desigualdade na distribuição das responsabilidades de cuidado.
O QUE EXPLICA A MAIOR PRESENÇA DAS MULHERES?
Para Karen Trevisan, coordenadora do curso de Psicologia do UNICEUSC, a diferença observada nos registros precisa ser analisada dentro de um contexto mais amplo. A especialista ressalta que os resultados do estudo, por si só, não permitem estabelecer relações diretas de causa e efeito.
Ainda assim, a predominância feminina nas notificações abre espaço para discutir as condições em que o sofrimento relacionado ao trabalho acontece, incluindo as exigências acumuladas entre a vida profissional e as responsabilidades cotidianas.
“Os dados mostram uma diferença importante entre homens e mulheres e nos convidam a olhar para o contexto em que esse sofrimento acontece. Não podemos reduzir o burnout à falta de resiliência ou à capacidade individual de lidar com a pressão. É preciso considerar também as condições de trabalho, as demandas acumuladas e a forma como as responsabilidades são distribuídas”, explica Karen.
ESTRESSE E BURNOUT NÃO SÃO A MESMA COISA
Embora os dois conceitos sejam frequentemente confundidos, o estresse e o burnout apresentam diferenças importantes. Períodos de maior pressão podem provocar estresse de forma temporária e, em determinadas situações, os sintomas tendem a diminuir quando a causa é superada.
O burnout, por outro lado, está relacionado a um processo de esgotamento ligado ao contexto ocupacional e pode afetar não apenas o desempenho profissional, mas também outros aspectos da vida.
Entre os sinais que podem merecer atenção estão o cansaço persistente, a dificuldade de concentração, a irritabilidade, a perda de motivação, a sensação de incapacidade e o distanciamento emocional. Também pode haver redução do interesse pelas atividades profissionais.
“É importante observar quando o cansaço deixa de ser pontual e passa a fazer parte da rotina. A pessoa pode começar a perceber mudanças no humor, na relação com o trabalho e até nas relações pessoais. Nesses casos, buscar ajuda profissional é uma forma de cuidado e não um sinal de fraqueza”, orienta a coordenadora.
SOBRECARGA NÃO DEVE SER TRATADA COMO NORMAL
A maior presença das mulheres entre as notificações também reforça a discussão sobre a naturalização da sobrecarga. Para muitas mulheres, a rotina pode envolver simultaneamente demandas profissionais, tarefas domésticas, maternidade, cuidados com familiares e expectativas constantes de desempenho.
No entanto, a especialista destaca que é preciso evitar conclusões simplistas. O levantamento demonstra uma diferença expressiva entre os registros de homens e mulheres, mas não é suficiente para apontar isoladamente quais fatores provocaram o desenvolvimento da síndrome.
“Precisamos ter cuidado para não transformar uma questão coletiva em uma responsabilidade exclusivamente individual. Falar sobre saúde mental também significa discutir ambientes de trabalho mais saudáveis, limites, reconhecimento e condições adequadas para que as pessoas possam exercer suas atividades sem que o sofrimento seja tratado como algo normal”, afirma Karen.
CUIDADO EXIGE AÇÕES INDIVIDUAIS E COLETIVAS
Segundo a coordenadora, o enfrentamento do sofrimento mental relacionado ao trabalho não pode recair apenas sobre a capacidade individual de cada pessoa. Medidas como psicoterapia podem ser importantes, mas precisam coexistir com iniciativas coletivas e institucionais.
“Vale destacar que existem estratégias de cuidado com a saúde mental em nível individual, como o processo de psicoterapia, mas é muito importante que, concomitantemente a essa, existam também estratégias em níveis grupais e institucionais, que podem se dar por meio de políticas institucionais e sociais de apoio à saúde mental de forma ampla, tais como o fornecimento de suporte para o desenvolvimento pessoal e profissional e a gestão de riscos psicossociais.”
Nesse cenário, a prevenção também depende da construção de ambientes profissionais mais saudáveis, com atenção às condições de trabalho, à distribuição das demandas e à gestão dos riscos psicossociais.
Reconhecer mudanças persistentes no comportamento, no humor e na relação com o trabalho pode contribuir para que a pessoa busque orientação antes que o sofrimento se prolongue. Para a especialista, observar os sinais e procurar ajuda profissional quando necessário faz parte de uma estratégia de cuidado que precisa ser acompanhada, ao mesmo tempo, por mudanças coletivas nas relações e nos ambientes de trabalho.
