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Novo documentário conta semana que antecede assassinato do jornalista Vladmir Herzog

A estreia marca os 50 anos do crime

O documentário “Herzog – O Crime que Abalou a Ditadura”, foi lançado no dia 23 de outubro, e reconta o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, que completou 50 anos o dia 25 de outubro. Produzido pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL) o filme conta a história do jornalista, professor e cineasta, torturado e assassinado pela ditadura militar, por meio de depoimentos de amigos, família e colegas de redação. Está disponível gratuitamente no canal do Youtube do ICL.
Os produtores contam que a construção do filme ajuda a entender porque a morte de Herzog causou comoção nacional, e se tornou um marco na luta pela democracia no Brasil.

“A grande preocupação que a gente tinha era fazer isso de uma forma que criasse um interesse novo pela história, que já foi contada muitas vezes. A gente queria trazer um elemento novo”, comentou, em entrevista à Agência Brasil, o diretor e roteirista do filme, o jornalista e documentarista, Antônio Farinaci.

VLADIMIR HERSOG

Vladimir Herzog nasceu na antiga Iugoslávia e veio para o Brasil ao fugir do nazismo, com sua família, ainda criança. Seu assassinato teve grande repercussão pois foi tratado como suicídio pelos agentes da ditadura, a farsa contribuiu para que o jornalista se tornasse símbolo de resistência e luta pela liberdade de imprensa.

A história do jornalista é contada em diversas formas, mas no documentário “Herzog – O Crime que Abalou a Ditadura” o recorte é especificamente as semanas que antecedem e sucedem o crime. Abordando a motivação, consequências e repercussão do crime.

“Nesses 50 anos, têm muita coisa acontecendo, porque foi um marco histórico muito grande. A gente escolheu especificamente esse recorte do crime, exatamente para mostrar como a ditadura agia, o que era capaz de fazer e, inclusive, utilizando alguns comportamentos e estratégias que são repetidas até hoje. Por exemplo, eles tinham uma espécie de gabinete do ódio em que jornalistas de direita pregavam contra o Vlado e os jornalistas da TV Cultura. Chamavam a TV Cultura de VietCultura, porque fez uma matéria sobre o Vietnan, então, era comunista. Era a mesma coisa do que a gente vê hoje”, afirmou a diretora executiva de conteúdo do ICL, Márcia Cunha, em entrevista à Agência Brasil.

Entre os depoimentos que auxiliaram a reconstituição na produção audiovisual, estão os dos jornalistas Dilea Frate, Paulo Markun, Rose Nogueira e Sérgio Gomes; do filho de Vlado, Ivo Herzog; e do diretor e produtor de cinema e televisão, roteirista e escritor brasileiro, João Batista de Andrade.

Márcia Cunha revelou que a produção enfrentou dificuldades com a falta de imagens, porque não existem acervos da época com o o jornalista trabalhando, a prisão e outros momentos da sua trajetória. Além disso, mesmo nos depoimentos, havia barreiras. Como é um crime que ocorreu há 50 anos, a maioria das pessoas que foi testemunha já morreu ou está muito idosa. Na reconstituição da história, a dificuldade foi usada como uma vantagem e fazer o documentário chegar mais perto das novas gerações do país.

Imagem divulgada do filme.

MEMÓRIA EM QUADRINHOS

Devido a dificuldade de banco de imagens, a produção optou por usar história em quadrinhos. Eles recriaram os agentes chegando à TV Cultura querendo levar ele preso, o que os colegas de cela viram, os gritos e as falas por meio de storyboards. A medida foi usada, principalmente, para aproximar-se das novas gerações.

“A gente optou por esta narrativa de recriar essa situação dramática de tensão, do enterro, da abordagem, da prisão e da tortura com essa linguagem de quadrinhos e entremeou isso com os depoimentos dos colegas dele de cela que estão vivos, dos amigos e com relatos de pessoas que já morreram, como Dom Paulo [Evaristo Arns]. A gente fez esse mix de filmes antigos, relatos atuais e, a partir dos relatos, a gente reconstituiu essa violência toda e esse drama que o Herzog viveu”, completou Márcia Cunha.

Os desenhos dos quadrinhos foram feitos pela artista Paula Villar. Para a realização, o diretor passava as histórias de cada situação, para que ela pudesse elaborar a arte.

“A gente fez uma recriação das coisas que não tínhamos em imagem, porque muitas aconteceram nos porões da ditadura e em lugares que não tinham permissão para entrar. Aconteciam nos porões do DOI-Codi [Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna, órgão que praticou violações contra opositores da ditadura]. Não têm registros de imagem, iconografia disso e muitas não tinham iconografia porque não tinha ninguém fazendo foto, não tinha ninguém fazendo filmagens. A Paula fez uma interpretação desses episódios, mas tudo baseado em depoimentos e naquilo que a gente tem de iconografia disponível”, revelou o diretor à Agência Pública.

Como é uma história que ainda tem testemunhas e colegas de trabalho de Herzog, o diretor e roteirista do filme disse que criou o roteiro em cima dos depoimentos.

“A gente fez tudo muito respeitoso e fiel com os depoimentos, que a gente conseguiu colher das pessoas que estavam lá e foram testemunhas em primeira mão dessa história. Não é alguém contando uma história que ouviu falar. São pessoas que viveram e estiveram presas com ele no DOI-Codi. É uma história muito contundente”, apontou.

ABALO NA DITADURA

A diretora do ICL lembra que o crime teve impacto tão grande na época que deixou evidente a divisão que havia no regime militar a respeito da continuidade da ditadura. Por isso, o nome do documentário: Herzog – O Crime que Abalou a Ditadura.

Márcia Cunha acrescenta ainda mais uma parte da história de Herzog que precisa ficar na memória do país: os agentes foram até a TV Cultura, em São Paulo, onde o jornalista trabalhava, para fazer a prisão dele, mas Herzog argumentou que precisava botar o telejornal no ar e não poderia ir com eles. Ele se comprometeu a se apresentar no prédio do DOI-Codi, órgão de repressão e inteligência e do Exército. Lá foi preso, torturado e morto.

Outra memória da trajetória de Herzog abordada no filme é a foto em que aparece enforcado para reforçar a narrativa de que ele se suicidou, uma das mais famosas da ditadura.

Imagem divulgada do filme.

PODCAST

Além do documentário, o ICL lançou o podcast Caso Herzog – A foto e a farsa, que conta como ela foi produzida. O fato também é contado no filme.

“Quando se falou que ele se suicidou, ninguém acreditou, porque não era o perfil dele. Não estava com nenhum problema, estava bem, assumindo a direção do canal. Aí, pediram uma autópsia, que foi feita pelo Harry Shibata, o legista da ditadura, e insistiu na versão do suicídio. Depois, ficou provado que não. Foi depois da luta de uma vida da Clarice Herzog para provar que foi montado e que a ditadura militar era responsável pela morte do Vlado”, relatou Márcia Cunha à Agência Pública.

O podcast está disponível no Spotify.

 

Com informações de Agência Pública

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Lully Salvador

Jornalista em formação pela UFSC, apaixonada por cinema e cultura em geral. Com experiência de 5 anos na área de comunicação e marketing focado em cultura e entretenimento.

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