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Prisão de Bolsonaro fortalece narrativa contra o STF

A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro no fim de semana entrega uma lição importante sobre uma das características mais potentes da comunicação digital: a construção de narrativa. Nas redes sociais, uma narrativa consistente geralmente resulta da combinação de arquétipo (quem eu sou), propósito (o que me move), missão (o que posso fazer pelos outros) e inimigo comum (contra quem ou o que lutamos).

A narrativa defendida pelos aliados do ex-presidente ignora o principal fato que levou à prisão, a violação incontestável da tornozeleira, para focar no inimigo comum: o Supremo Tribunal Federal (personificado, sobretudo, na figura do juiz Alexandre de Moraes). Grande parte dos defensores de Bolsonaro construíram suas narrativas a partir da ideia de que o judiciário brasileiro é o inimigo do povo por estar contra a democracia. 

Nesse último episódio, o bolsonarismo aprofundou o tipo de linguagem que o trouxe até aqui: a capacidade ímpar de consolidar narrativas favoráveis mesmo quando todos os fatos estão contra (não importa se Bolsonaro assumiu ter colocado ferro de solda na tornozeleira, muito menos ele ter descumprido condições legais para se manter em prisão domiciliar). O que realmente importa é reforçar o inimigo comum, concentrar todas as forças na luta contra ele e fazer barulho – muito barulho. 

Na era da pós-verdade das redes sociais, narrativa vale mais do que informação. E emoção conecta mais do que razão. Nesse contexto “messiânico”, a lógica deixa de fazer sentido (assim como os fatos e a própria lei) e abre espaço para versões que se comportam como verdade – seja na cabeça do eleitor ou no universo (ainda não regulamentado, aqui no Brasil) das redes sociais. 

Mas a estratégia do “inimigo comum” não nasceu hoje, muito menos no digital. A personificação do mal numa figura externa – seja uma pessoa, um conceito ou uma instituição  – faz parte do marketing político desde sempre. Não por acaso, a técnica foi popularizada durante o nazismo, que transformou o antissemitismo latente da Europa pós-1ª Guerra no maior caso de “inimigo comum” que a história já viu. O resultado foi um dos maiores extermínios do ocidente: mais de 6 milhões de judeus mortos em um massacre que nunca vai deixar de nos traumatizar.

Aqui mesmo, no Brasil e na América Latina, tivemos vários governos (sobretudo ditaduras) que se ergueram com base na narrativa do horror ao comunismo (golpe de 64) ou até mesmo da “corrupção”. Alguns pré-candidatos fazem isso hoje, em menor escala, com pautas locais, porém não menos significativas, quando “elegem” pessoas em situação de rua como os “inimigos” da cidade – quem aí nunca viu um vídeo “caloroso” de prefeito, vereador ou candidato sobre o tema?

E sabe o que é mais curioso? Funciona sempre, e funciona mais ainda em tempos de polarização. É o caso do senador Esperidião Amin, que postou três conteúdos no dia da prisão, todos com base na tese do judiciário como inimigo da democracia brasileira. Seu primeiro vídeo, postado ainda pela manhã, alcançou 3,5 milhões de plays e nada menos que 289 mil curtidas – mais do que o dobro de likes do vídeo sobre o mesmo tema de Carlos Bolsonaro, herdeiro legítimo da causa. 

A construção de uma narrativa potente em redes sociais é hoje o primeiro passo para ser lembrado. É ela que cria engajamento, aglutina os eleitores em torno de uma mesma causa (ou inimigo) e cria comunidades fortes. A extrema-direita sabe disso e domina a estratégia há muito tempo – com uma ajudinha do algoritmo, é claro. 

Nesse contexto, quem não constrói a sua própria narrativa está sempre (apenas) reagindo. E é preciso mais do que reagir, em redes sociais. É preciso definir a pauta, sair na frente, posicionar o debate. O político que não entende isso no mundo de hoje, seja candidato ou em mandato, tem cada vez menos condições de virar o jogo. Para o bem ou para o mal.

 

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