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Plano Nacional de Cuidados prevê apoio domiciliar a idosos com cuidadores

A implementação do Plano Nacional de Cuidados tem ampliado o alcance de políticas públicas voltadas ao cuidado de pessoas idosas em situação de vulnerabilidade, integrando saúde, assistência social e apoio às famílias. Em Belo Horizonte, experiências consolidadas como o Programa Maior Cuidado ilustram como a atenção domiciliar pode transformar rotinas familiares e promover mais qualidade de vida para idosos e cuidadores.

Um episódio doméstico marcou uma mudança definitiva na vida de Valdir Miguel da Silva, de 85 anos. Após uma queda durante o banho, o idoso passou a depender de cadeira de rodas, exigindo uma reorganização completa da dinâmica familiar. A nova realidade impactou diretamente a esposa e os filhos, que buscaram alternativas para lidar com as demandas de cuidado. Foi nesse contexto que a família passou a contar com o atendimento domiciliar oferecido pelo Programa Maior Cuidado, referência nacional e alinhado às diretrizes do Plano Nacional de Cuidados – Brasil que Cuida.

ATENDIMENTO DOMICILIAR NO PLANO NACIONAL DE CUIDADOS

O Plano Nacional de Cuidados foi estruturado de forma intersetorial, reunindo diferentes áreas do governo federal para promover políticas integradas de cuidado. Entre os órgãos envolvidos está o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). Uma das inovações do plano é a regulamentação, em âmbito nacional, da profissão de cuidador social, cuja atuação prevê visitas periódicas aos domicílios de idosos beneficiários, modelo já aplicado com sucesso em Minas Gerais.

No caso de Valdir Miguel, o atendimento semanal é realizado pelo cuidador social Antônio Campolino. A presença do profissional se tornou parte da rotina da casa, contribuindo tanto para os cuidados básicos quanto para a manutenção dos vínculos sociais do idoso.

ROTINA DE CUIDADOS E VÍNCULOS SOCIAIS

A atuação do cuidador social envolve atividades que vão além da assistência física. Segundo Antônio Campolino, o trabalho é pautado no respeito ao tempo e às condições da pessoa idosa. “A rotina com o senhor Valdir é ofertar a ele o banho, no tempo dele e da forma melhor possível, para ele também se sentir confortável. Depois, a gente procura alguma atividade, talvez escutar uma música ou fazer um passeio na comunidade, para conversar com alguns amigos que ele não vê há um tempo”, relatou.

O acompanhamento domiciliar teve início após um período de adaptação da família à nova condição do idoso. Depois da alta hospitalar, foram necessários cerca de quatro meses até que os familiares se sentissem preparados para compartilhar o cuidado com um profissional externo.

DESAFIOS FAMILIARES E SUPERAÇÃO

A decisão de ingressar no programa foi marcada por conflitos emocionais. A filha de Valdir, a artista Suzana Cruz, relatou a dificuldade inicial em aceitar o apoio institucional. “Desde que eu me entendo por gente, eu sempre vejo os familiares cuidando dos seus idosos, e aí, quando chegou a nossa vez, por causa da cadeira de rodas, a gente estava sem saber como lidar”, afirmou. “Eu sentia culpa, porque na minha cabeça era a minha obrigação cuidar dele, como a filha mulher. É até um pensamento machista, mas é a forma como eu fui criada”, desabafou.

Ao reconhecer a necessidade de apoio, Suzana liderou o processo de adesão ao serviço de visitação domiciliar. Entre os requisitos para participação está a inscrição atualizada no Cadastro Único. Para ela, a decisão representou um passo importante também para a saúde emocional da família. “Era minha obrigação cuidar de quem cuidou de mim, mas aí, percebi que eu precisava de ajuda, principalmente a psicológica, porque foi um baque para todo mundo. E foi a melhor decisão que eu tive, de reconhecer que eu precisava de ajuda”, destacou.

AÇÃO INTERSETORIAL E CRITÉRIOS DE ACESSO

De acordo com a assistente social Ana Cristina da Silva, analista de Políticas Públicas da Prefeitura de Belo Horizonte, o acesso ao Programa Maior Cuidado ocorre tanto por demanda espontânea quanto por busca ativa realizada pela gestão pública. Os encaminhamentos podem partir dos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) ou das unidades de saúde.

“Além do Cadastro Único atualizado, outros critérios de inserção no programa são que as famílias morem em territórios de vulnerabilidade e tenham na composição idosos que dependam de cuidados de terceiros”, explicou. Após a identificação, a família passa por avaliação conjunta das equipes da assistência social e da saúde. O atendimento domiciliar, segundo Ana Cristina, está previsto no Estatuto do Idoso, e o programa municipal atende diretamente a essa determinação legal.

PAPEL DO CUIDADOR SOCIAL NO PLANO NACIONAL DE CUIDADOS

A secretária nacional da Política de Cuidados e Família do MDS, Laís Abramo, ressaltou que o cuidado domiciliar promove benefícios tanto para a pessoa idosa quanto para os familiares. “É importante, muitas vezes, para deter a perda de funcionalidade e reparar uma série de questões, como reativar as capacidades dessa pessoa idosa. E libera o tempo desse familiar que cuida que, na maioria das vezes, é uma mulher, para ela descansar, cuidar da sua saúde, desenvolver alguma atividade, de estudo ou de trabalho e geração de renda”, declarou.

Segundo Laís Abramo, a atuação do Estado é fundamental diante das transformações sociais e demográficas. “É claro que a família tem um papel muito importante no cuidado, mas a família sozinha não dá conta, principalmente, nessa realidade que as famílias estão cada vez menores e a expectativa de vida está se estendendo. É por isso que são necessárias políticas públicas para essa questão, porque, senão, acaba que apenas as pessoas com muitos recursos econômicos podem acessar o cuidado”, ponderou.

VÍNCULO, AUTONOMIA E QUALIDADE DE VIDA

Com o acompanhamento contínuo, Valdir Miguel e o cuidador social construíram uma relação de confiança. Durante passeios pela vizinhança, o idoso valoriza a possibilidade de diálogo e convivência. “Agora eu posso conversar. Eu converso mal, mas o que eu posso falar. Ninguém vive sem conversar, sem entender. Uma coisa vem com a outra. Faz parte da vida”, afirmou.

Para Antônio Campolino, o exercício da profissão também é uma experiência de aprendizado constante. “Todo dia a gente aprende. A gente aprende com o olhar do idoso. A gente aprende a valorizar a vida. A gente aprende que a união familiar é muito importante, e que a nossa profissão também é uma profissão importante”, disse. Ele também destacou a importância da maior participação masculina no cuidado.

Livre do sentimento de culpa, Suzana Cruz avalia que a adesão ao programa foi uma escolha acertada. Para ela, reconhecer os próprios limites foi essencial para garantir o bem-estar de toda a família. “Confia, se dê uma oportunidade de ter um respiro. Não acha que você é super-heroína, que vai dar conta de tudo”, afirmou, ao destacar a importância do suporte oferecido pelas políticas públicas de cuidado.

Com informações da Agência Gov

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Raul Frutuoso

Raul Lorenzo Frutuoso é um profissional da comunicação com cinco anos de experiência em jornalismo e marketing digital. Já atuou como redator e editor de vídeo no portal ND+. Também integrou a equipe de assessoria de imprensa do Colégio Catarinense, contribuindo com a gestão de mídias sociais, campanhas institucionais e produções audiovisuais.

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