Brasil segue como país que mais mata trans e travestis
O Brasil permanece em 2025 como o país que mais mata trans e travestis no mundo, mesmo após uma redução no número de assassinatos. Ao todo, 80 mortes violentas foram registradas no ano, segundo a nona edição do dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), lançada nesta segunda-feira (26).
Apesar da queda de cerca de 34% em relação a 2024, quando foram contabilizados 122 crimes, o país segue no topo do ranking global há quase 18 anos. O dado reforça que a diminuição numérica não representa, necessariamente, uma redução estrutural da violência contra essa população.
Conteúdos
- PAÍS QUE MAIS MATA TRANS E TRAVESTIS SEGUE NO TOPO DO RANKING
- COMO OS DADOS FORAM LEVANTADOS E O QUE ELES REVELAM
- REGIÕES E ESTADOS COM MAIOR NÚMERO DE ASSASSINATOS
- PERFIL DAS VÍTIMAS E PADRÕES DE VIOLÊNCIA
- RECOMENDAÇÕES E COBRANÇA POR AÇÃO DO PODER PÚBLICO
- CONTEXTO MAIS AMPLO DA VIOLÊNCIA CONTRA PESSOAS LGBT+
- PRÓXIMOS PASSOS E ENTREGA DO RELATÓRIO
PAÍS QUE MAIS MATA TRANS E TRAVESTIS SEGUE NO TOPO DO RANKING
Para a presidente da Antra, Bruna Benevides, os números refletem um contexto de violência sistemática e contínua. Segundo ela, os assassinatos não podem ser analisados como episódios isolados.
“Não são mortes isoladas, revelam uma população exposta à violência extrema desde muito cedo, atravessada por exclusão social, racismo, abandono institucional e sofrimento psicológico contínuo.”
O dossiê destaca que, mesmo com a redução nos homicídios consumados, houve aumento nas tentativas de assassinato, o que indica que a violência segue ativa e recorrente em diferentes territórios do país.
COMO OS DADOS FORAM LEVANTADOS E O QUE ELES REVELAM
As informações reunidas pela Antra são resultado de monitoramento diário de notícias, denúncias diretas feitas às organizações trans e análise de registros públicos. Para a entidade, o próprio método de coleta já evidencia um problema estrutural.
De acordo com Benevides, a ausência de dados oficiais faz com que muitas mortes só existam estatisticamente porque a sociedade civil assume essa tarefa. Sem esse trabalho, os casos tendem a não ser reconhecidos pelo Estado.
REGIÕES E ESTADOS COM MAIOR NÚMERO DE ASSASSINATOS
Em 2025, Ceará e Minas Gerais lideraram o número de assassinatos de pessoas trans e travestis, com oito casos cada. A violência segue concentrada na Região Nordeste, que registrou 38 mortes no ano.
Na sequência aparecem o Sudeste, com 17 assassinatos, o Centro-Oeste, com 12, o Norte, com sete, e o Sul, com seis casos contabilizados.
Um levantamento histórico da Antra, que considera o período entre 2017 e 2025, aponta São Paulo como o estado mais letal, com 155 mortes registradas ao longo desses anos.
PERFIL DAS VÍTIMAS E PADRÕES DE VIOLÊNCIA
O estudo mostra que a maioria das vítimas são travestis e mulheres trans, predominantemente jovens. A faixa etária mais atingida está entre 18 e 35 anos, com maior incidência entre pessoas negras e pardas.
O dossiê também aponta fatores que ajudam a explicar a persistência da violência, como a subnotificação dos crimes, a desconfiança nas instituições de segurança e justiça, a redução da cobertura da mídia e a ausência de políticas públicas específicas para o enfrentamento da transfobia.
RECOMENDAÇÕES E COBRANÇA POR AÇÃO DO PODER PÚBLICO
Além do diagnóstico, o relatório apresenta recomendações direcionadas ao poder público, ao sistema de justiça, às forças de segurança e às instituições de direitos humanos. O objetivo é romper com a lógica de impunidade e escassez de políticas voltadas à proteção da população trans.
Para Bruna Benevides, o dossiê cumpre um papel de pressão institucional. Segundo ela, o relatório “constrange o Estado”, informa a sociedade e evita que os dados sejam silenciados.
“É preciso reconhecer que as políticas de proteção às mulheres precisam estar acessíveis e disponíveis para as mulheres trans, por exemplo. Pensar sobre tornar acessível o que existe e implementar o que ainda não foi devidamente alcançado. Há muita produção, inclusive de dados, falta ação por parte de tomadores de decisão”, afirmou.
CONTEXTO MAIS AMPLO DA VIOLÊNCIA CONTRA PESSOAS LGBT+
Os dados da Antra dialogam com números divulgados recentemente pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), por meio do Observatório de Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil. Em 2025, foram documentadas 257 mortes violentas no país, incluindo 204 homicídios, 20 suicídios, 17 latrocínios e 16 mortes por outras causas, como atropelamentos e afogamentos.
Em comparação com 2024, quando houve 291 registros, a redução foi de 11,7%. Ainda assim, os números indicam que uma pessoa LGBT+ morreu de forma violenta a cada 34 horas no Brasil ao longo do último ano.
Segundo o GGB, o Brasil manteve-se como o país com maior número de homicídios e suicídios de pessoas LGBT+ no mundo, seguido por México, com 40 casos, e Estados Unidos, com 10.
PRÓXIMOS PASSOS E ENTREGA DO RELATÓRIO
A nona edição do Dossiê Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras será apresentada em cerimônia no auditório do Ministério dos Direitos Humanos. O documento será entregue oficialmente a representantes do governo federal e deve servir de base para debates e encaminhamentos sobre políticas públicas de enfrentamento à violência contra pessoas trans no país.
Com informações da Agência Brasil





