Quatro caminhos possíveis para o MDB de SC nas eleições de 2026

Mais um capítulo da política catarinense se desenrolou na noite de ontem, quando a executiva do MDB se reuniu no Hotel Castelmar para definir o que o partido fará da vida após o balde água fria que Jorginho Mello jogou em seus planos políticos. O anúncio de Adriano Silva (Novo), prefeito de Joinville, como candidato a vice no projeto de reeleição do governador surpreendeu a legenda, e forçou um remapeamento de suas posições no tabuleiro catarinense.
A decisão de Jorginho foi tomada com uma antecipação calculada, no momento oportuno para desestabilizar os demais partidos no desenho do cenário para outubro deste ano. Demonstra também uma clara radicalização de seu projeto à direita, evidência de que a ala bolsonarista do PL catarinense venceu a queda de braço que definiria a estratégia política para essas eleições. Esse grupo político já demonstrava sua insatisfação com a proximidade do MDB nacional com as pautas do governo Lula, e pressionava, desde o final do ano passado, pela construção de uma chapa pura em 2026.
Aliando-se ao Novo, Jorginho Mello cristaliza seu projeto ideológico para o Estado, e chuta para longe aliados de longa data. O MDB foi aliado de seu governo desde o início do mandato do governador, e tinha três pastas estaduais sob seu comando: a Secretaria de Agricultura e Pecuária (Carlos Chiodini), a Secretaria de Infraestrutura (Jerry Comper) e a Secretaria do Meio Ambiente e Economia Verde (Cleiton Fossá). Há também outras indicações do partido em diferentes órgãos que podem ser impactadas. Além disso, tinha como garantida a vaga de vice na chapa do PL — fato que foi praticamente confirmado na última convenção do partido, em Balneário Camboriú, no mês de outubro.
Após o revés, a executiva estadual precisou conversar sobre o que faria da vida após a puxada de tapete perpetrada pelo governador. Em discussão, algumas possíveis saídas para um dos partidos mais tradicionais e capilarizados do Estado, que hoje possui força política considerável nos municípios: são 70 prefeituras e 741 vereadores espalhados por Santa Catarina, além de 6 deputados estaduais — a segunda maior bancada da Alesc.

A decisão foi tomada a portas fechadas, mas, acima de tudo, parece permanecer em aberto: o partido trabalhará na construção de um projeto próprio, embora ainda disposto a dialogar com outras legendas. Além disso, orienta — mas não obriga — seus quadros a deixarem os cargos no governo Jorginho Mello, mantendo seu apoio às matérias de interesse do governo na Assembleia.
Na prática, o que isso significa é que o MDB ainda não decidiu o caminho que será seguido pelo partido. A reunião de ontem representou apenas o primeiro passo de um processo decisório que vai se desenrolar até abril. Quatro são os rumos possíveis para a legenda:
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Construir uma candidatura própria
A nota publicada pelo partido após a reunião menciona a construção de uma candidatura própria para o governo do Estado. A figura lógica para esse cenário seria o presidente estadual do partido, Carlos Chiodini — essa possibilidade, inclusive, já é ventilada nos bastidores. No entanto, sua candidatura não tem gerado grande entusiasmo no eleitorado catarinense, e ele ainda não apareceu nas pesquisas eleitorais. A última disputa de Chiodini foi em 2024, quando concorreu à prefeitura de Itajaí e ficou em terceiro lugar, com 15% dos votos, atrás do atual prefeito Robison Coelho (PL) e de Osmar Teixeira (PSD).
Outra possível opção para o partido seria Antídio Lunelli, ex-prefeito de Jaraguá do Sul, que em 2022 tentou se lançar candidato, mas foi preterido pela convenção partidária. Na época, o MDB preferiu lançar Udo Döhler como candidato a vice de Carlos Moisés — história que todos já sabemos como acabou. Ao que tudo indica, no entanto, Antídio não tem interesse em representar o partido agora, e não esteve presente na reunião ontem.
Seguir com Jorginho
Apesar do revés, ainda é cedo para afirmar que o MDB romperá totalmente com Jorginho. Abandonar a máquina pública sempre é uma decisão difícil, e além do mais, existem outras moedas de troca que podem ser empenhadas numa eventual negociação entre as legendas. Uma delas é a presidência da Alesc, cuja eleição pode ser articulada pela base governista na Casa. Caso reeleito, o governador pode também entregar o comando de Secretarias ao partido, como já fez em seu primeiro mandato, ou até mesmo uma vaga de conselheiro no Tribunal de Contas do Estado em troca do apoio da legenda.
Compor com João Rodrigues
Outro caminho que se abre para a legenda agora é uma aliança com o projeto político construído por João Rodrigues (PSD) — esse, mais em aberto do que aquele construído pelo atual governador. O prefeito de Chapecó é hoje o principal adversário de Jorginho no pleito, e uma composição com o MDB pode dar a ele o fôlego que precisa para diminuir a vantagem do PL na corrida. Em troca, o MDB pode indicar o vice na chapa, e quem sabe, um candidato ao Senado.
A candidatura de João se torna ainda mais viável quando se considera a possibilidade de articulação com outro aliado de Jorginho Mello que foi jogado para escanteio: Esperidião Amin (PP), que deseja manter sua vaga no Senado. As conversas ainda estão em seus estágios iniciais, mas caso uma eventual aliança se concretize, ela seria a maior força política do Estado, com condições reais de ameaçar a reeleição do governador.
Existe, contudo, um empecilho para essa opção: as declarações anteriores de João Rodrigues, que em uma entrevista já manifestou que jamais se aliaria ao MDB, sob a alegação de que o partido mantém uma proximidade excessiva com o Governo Federal para a sua preferência. Agora que a sigla está aberta para o diálogo, talvez ele mude de ideia.
Subir no palanque com Lula
Uma alternativa pouco explorada por outros analistas, mas viável para o MDB, é a participação na articulação de uma frente ampla de apoio à reeleição de Lula. Atualmente, o projeto liderado por PT e PSB busca formar uma coalizão para ampliar o apoio ao presidente petista no Estado, tendo Gelson Merísio, ex-deputado, como candidato ao governo, e Décio Lima, ao Senado. Nesse cenário, o MDB poderia indicar o vice da chapa, trazendo força considerável para o projeto.
A opção não é sem precedentes, apesar de o cenário político catarinense fazer parecer o contrário. O MDB sempre esteve presente nos governos petistas a nível federal, desde o primeiro mandato de Lula, e hoje ocupa três ministérios: do Planejamento (Simone Tebet), dos Transportes (Renan Filho) e das Cidades (Jader Filho). Aliar-se ao projeto de Lula no Estado, portanto, não seria incoerente para o partido — e traria ainda mais peso para a frente ampla em Santa Catarina. E, ao fazer esta escolha, o MDB partido poderia garantir mais espaço para suas lideranças no governo Lula 4.
O que o futuro reserva
Qualquer que seja a escolha do MDB para seu futuro, ela será tomada aos poucos, com calma, sem apostar todas as fichas de uma vez: uma lição que o partido deve ter aprendido após o balde de água fria que tomou de Jorginho. E apesar de o revés ter sido grande o suficiente para balançar os quadros do partido, ele não significa que a legenda entrará na corrida eleitoral de 2026 derrotada — ela ainda será uma das protagonistas do jogo político neste ano. Uma certeza é que, quando a decisão final vier, ela tem o potencial de definir os jogadores que irão para a mesa com as melhores cartas, e as melhores chances de levar o prêmio.





