Estudo da UFSC mapeia grupos para homens autores de violência em SC
A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) participou da elaboração do Relatório do Mapeamento Estadual 2025 sobre os Grupos Reflexivos e Responsabilizantes destinados a homens autores de violência contra mulheres em Santa Catarina. O estudo foi desenvolvido em parceria com o Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) e apresenta, pela primeira vez de forma abrangente, o panorama dessas iniciativas no Estado.
Os grupos são voltados a homens encaminhados pela Justiça após episódios de violência doméstica. A proposta é atuar de forma preventiva e educativa, por meio de encontros estruturados que discutem masculinidades, relações de gênero, machismo e responsabilização pelas agressões.
Conteúdos
PANORAMA DOS GRUPOS PARA HOMENS AUTORES DE VIOLÊNCIA EM SANTA CATARINA
O levantamento foi coordenado pelo professor Adriano Beiras, ligado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia e ao Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC. O mapeamento identificou 51 grupos em funcionamento em 41 comarcas, com atuação em 65 municípios catarinenses.
Somente em 2025, pelo menos 1.391 homens participaram das atividades. Desde 2020, início da série histórica considerada no estudo, foram contabilizados 6.797 atendimentos.
Em comparação com o ciclo anterior, o número de grupos cresceu 8,7%, passando de 46 para 51. O relatório também aponta novas iniciativas em fase de implantação, inclusive com articulação entre diferentes municípios, indicando tendência de expansão da política pública no Estado.
Segundo Adriano Beiras, o mapeamento integra um processo contínuo de acompanhamento dessas iniciativas. A pesquisa é resultado da parceria entre o grupo de pesquisa Margens, do Departamento de Psicologia da UFSC, e a Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (CEVID) do TJSC.
“O objetivo é unir esforços e conhecimentos acadêmicos e práticos para o enfrentamento da violência contra as mulheres”, explica o professor.
O trabalho também envolve estudantes de pós-graduação da UFSC e profissionais do Judiciário.
PESQUISA MONITORA EVOLUÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
De acordo com Beiras, levantamentos periódicos são realizados para acompanhar o funcionamento dos grupos e produzir uma espécie de retrato atualizado da política pública no Estado.
Além do mapeamento catarinense, a equipe também conduz estudos em nível nacional. Dois levantamentos já foram concluídos e um terceiro está em fase de implementação em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
“O mapeamento estadual permite identificar as especificidades e necessidades de Santa Catarina, além de mostrar o crescimento da política e os desafios institucionais para sua sustentabilidade e expansão”, afirma.
DESAFIOS PARA CONSOLIDAR O TRABALHO COM HOMENS AUTORES DE VIOLÊNCIA
Apesar da ampliação das iniciativas, especialistas apontam desafios para fortalecer esse tipo de política no Brasil. Um dos principais é a qualificação das equipes responsáveis pela condução dos encontros.
“Esse ainda é um campo relativamente frágil em muitos estados. Temos ampliado o número de capacitações, especialmente aquelas realizadas pelo TJSC em parceria com o grupo de pesquisa Margens, mas ainda há muito caminho pela frente”, destaca Beiras.
Outro obstáculo apontado é o financiamento das atividades. Segundo o pesquisador, há discussões sobre projetos de lei para garantir recursos destinados à manutenção e à expansão dos grupos, tema que vem sendo debatido na Assembleia Legislativa de Santa Catarina e também na Federação de Municípios.
Entre as necessidades apontadas para ampliar a presença dessas iniciativas no Estado estão a realização de capacitações no interior, o fortalecimento do financiamento e a maior profissionalização das equipes envolvidas.
INTEGRAÇÃO COM A LEI MARIA DA PENHA
A participação nos grupos pode ser determinada por decisão judicial e integra a política de enfrentamento à violência doméstica prevista na Lei Maria da Penha. A proposta funciona como estratégia complementar às medidas protetivas, com o objetivo de reduzir riscos e evitar reincidência.
Segundo Adriano Beiras, a cooperação entre universidade e Judiciário é considerada fundamental para qualificar esse tipo de iniciativa.
“A universidade contribui com conhecimento, conceitos explicativos e práticas inovadoras para o setor e para a rede de enfrentamento à violência”, afirma o professor.
Ele também ressalta que a redução da violência doméstica depende de mudanças que ultrapassam políticas institucionais. Para o pesquisador, é necessário repensar relações de poder, ampliar a equidade de gênero e considerar diferentes contextos sociais e culturais.
“Precisamos de uma abordagem interseccional, capaz de compreender os distintos contextos sociais em que a violência acontece”, concluiu.
O relatório integra uma trilogia inédita sobre grupos reflexivos produzida por pesquisadores da UFSC e profissionais do Judiciário, reunindo especialistas das áreas de psicologia, pesquisa social e segurança pública. A experiência catarinense começa a ganhar repercussão nacional e pode contribuir para a formulação de diretrizes brasileiras voltadas ao trabalho com autores de violência doméstica.
Com informações do Notícias da UFSC





