O editorial do ND, Erika Hilton e Ratinho: quando o contexto é omitido para manipular a opinião pública

No último dia 17 de março de 2026, o jornal ND publicou um editorial intitulado “Erika Hilton e o limite entre identidade e biologia”. Em destaque, o texto afirma: “não há como aceitar que a mulher trans é uma mulher biológica, porque seria o fim da verdade, da biologia e da natureza”.
O editorial se apresenta como uma reflexão equilibrada sobre um tema sensível, defendendo o direito à opinião e à liberdade de expressão, mas uma leitura mais atenta revela um problema central: a forma como a realidade é apresentada.
O texto menciona a fala do apresentador Ratinho, mas não a apresenta. Essa ausência não é um detalhe, ela impede que o leitor compreenda o que de fato foi dito e, portanto, que possa formar seu próprio julgamento.
A fala original, no entanto, é conhecida. Ratinho afirmou que Erika Hilton “não é mulher, é trans” e associou a ideia de ser mulher à existência de útero, menstruação e capacidade de ter filhos.
Essa diferença entre o que foi dito e o que é apresentado pelo editorial é fundamental.
Ao deslocar o debate para a ideia de mulher biológica, o texto suaviza o conteúdo da fala original e cria uma aparência de discussão técnica. Não se trata apenas de uma omissão, mas de uma forma de reorganizar o sentido do que aconteceu, manipulando a realidade.
Outro ponto problemático é a redução de uma questão complexa à biologia.
Como nos lembra Edgar Morin, compreender a realidade exige contextualizar, relacionar e reconhecer suas múltiplas dimensões. Quando o conhecimento é fragmentado e reduzido a uma única lógica, ele se torna incapaz de dar conta do real.
A condição humana não pode ser explicada por uma única dimensão. Identidade envolve fatores sociais, culturais, históricos e subjetivos. Quando o debate é reduzido à biologia, o que se tem não é esclarecimento, é simplificação.
E simplificar, nesse caso, não é tornar compreensível, é apagar partes da realidade.
Há ainda um aspecto importante na forma como o texto é construído. A linguagem é cuidadosa, moderada, aparentemente equilibrada, mas essa forma polida não neutraliza o conteúdo, ela o distorce e ao fazer isso o faz de forma violenta.
A própria fala de Ratinho, quando analisada em sua forma original, revela outro problema. Ao definir mulher a partir de critérios biológicos específicos, ela exclui não apenas mulheres trans, mas também mulheres que não se enquadram nesses parâmetros. Mulheres que não podem ou não desejam ter filhos deixam de ser mulheres? Mulheres que passaram por cirurgias e não possuem mais útero deixam de existir enquanto mulheres?
Esse tipo de definição não apenas simplifica, ele restringe, sendo inclusive preconceituosa.
O papel do jornalismo, como nos ensina Morin, especialmente diante de temas complexos, não deveria ser o de fechar a realidade dentro de uma categoria simplista, mas o de ampliar a compreensão, oferecer contexto e permitir que diferentes dimensões do problema sejam percebidas.
No entanto, o que se observa nesse caso é o contrário.
Na mesma página do editorial, há uma matéria sobre Erika Hilton que reforça essa lógica ao apresentar um episódio político sem os elementos necessários para sua compreensão completa. Mais uma vez, o leitor recebe fragmentos e é convidado a preencher o restante a partir de uma narrativa já direcionada.
São dois exemplos, lado a lado, de um mesmo problema.
E talvez seja esse o ponto mais importante: quando o jornalismo omite contexto, ele não apenas deixa de informar, ele passa a moldar a interpretação dos fatos.
E isso nos leva a uma pergunta que não pode ser ignorada: a quem interessa esse tipo de construção narrativa?
Quem se beneficia de um jornalismo que simplifica a realidade, omite partes fundamentais dos fatos e apresenta essas simplificações como equilíbrio para assim manipular a opinião pública?
E mais: quem sustenta esse jornalismo?
De onde vem o dinheiro que financia os grandes veículos de comunicação? E até que ponto os posicionamentos editoriais estão atravessados pelos interesses de quem os sustenta?
Em um cenário em que a comunicação tem papel central na construção cultural da sociedade, essas não são perguntas secundárias.
São perguntas estruturais.
E talvez sejam algumas das mais urgentes do nosso tempo.





