Não compactuar com quem defende a ditadura é um gesto de amor e de responsabilidade

Trazer à tona a reflexão sobre a ditadura militar no Brasil ganha especial relevância neste momento, em que a memória histórica está sendo disputada no país.
Essa disputa não é abstrata. Ela se manifesta no cenário político atual, em que temos Flávio Bolsonaro como pré-candidato à presidência, representando a continuidade de um campo político que, nos últimos anos, promoveu a ditadura como algo positivo, relativizou suas violências e tensionou os limites da democracia brasileira.
Não podemos esquecer que o ex-presidente Jair Bolsonaro homenageou o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, defendeu a tortura e esteve associado a um processo que culminou nos atos de 8 de janeiro de 2023, uma tentativa de golpe contra a democracia.
Inspirada pelo pensamento de Edgar Morin, que nos convoca a agir com responsabilidade diante de um destino comum, trago esse tema como um gesto de compromisso com a democracia, com os direitos humanos e com a verdade. Não se trata apenas de opinião, mas de reconhecer a realidade e escolher não se omitir diante dela.
Conteúdos
- O QUE FOI DE FATO A DITADURA MILITAR NO BRASIL
- CONTROLE DA NARRATIVA E CENSURA À LIBERDADE DE EXPRESSÃO
- A IDEIA DE QUE NÃO HAVIA CORRUPÇÃO NA DITADURA É UM MITO
- HOUVE CRESCIMENTO ECONÔMICO, MAS COM CUSTOS E CONSEQUÊNCIAS
- HÁ UMA LIGAÇÃO EXPLÍCITA ENTRE O BOLSONARISMO E O ELOGIO À DITADURA
- QUE PATRIOTISMO É ESSE QUE USA COMO SÍMBOLO A BANDEIRA DOS ESTADOS UNIDOS?
- PELA DEMOCRACIA E PELOS DIREITOS HUMANOS
O QUE FOI DE FATO A DITADURA MILITAR NO BRASIL

Em 1964, o Brasil sofreu um golpe militar que derrubou o presidente João Goulart e instaurou um regime autoritário que durou 21 anos. Esse período foi marcado pela suspensão da democracia, pela censura, pela perseguição política, pela tortura e pelo assassinato de opositores.
O Ato Institucional nº 5 institucionalizou a repressão e permitiu que o Estado atuasse sem limites jurídicos, eliminando garantias fundamentais e transformando a violência em política de Estado.
A ditadura foi, essencialmente, um regime de violação sistemática dos direitos humanos.
CONTROLE DA NARRATIVA E CENSURA À LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Se existe um elemento central para compreender a ditadura, esse elemento é o controle da narrativa.
Durante o regime, não havia liberdade de expressão tal como temos hoje. A imprensa era censurada, artistas eram perseguidos, conteúdos eram proibidos e qualquer tentativa de expor uma realidade que contrariasse a visão defendida pelos militares podia ser punida com violência.

Ao mesmo tempo, o governo produzia propaganda massiva para construir a ideia de um país em ordem, em crescimento e sem conflitos.
O slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o” sintetiza essa lógica ao transformar o debate político em uma imposição moral, em que discordar significava ser excluído.
Esse slogan foi retomado no início do governo Bolsonaro e veiculado pelo SBT, mostrando como estratégias de comunicação autoritária continuam sendo reativadas.
Isso nos obriga a encarar uma contradição do presente: muitas pessoas dizem defender a liberdade de expressão, mas relativizam um período histórico em que essa liberdade simplesmente não existia.
A IDEIA DE QUE NÃO HAVIA CORRUPÇÃO NA DITADURA É UM MITO
A corrupção é um dos temas que mais mobilizam a sociedade brasileira, sendo constantemente apontada como uma das maiores preocupações da população.
É justamente por isso que a ideia de que “na ditadura não havia corrupção” ganha força entre muitos que afirmam que, naquele período, a vida era melhor. Mas essa ideia é falsa.

Havia corrupção, sim. O que não havia era total liberdade para investigá-la, denunciá-la ou torná-la pública. A imprensa era controlada, os mecanismos de fiscalização eram limitados e o próprio regime não permitia total transparência.
A ausência de escândalos não era sinal de honestidade. Era consequência direta do silêncio imposto.
HOUVE CRESCIMENTO ECONÔMICO, MAS COM CUSTOS E CONSEQUÊNCIAS
A narrativa de que a ditadura foi um período economicamente melhor também precisa ser analisada com cuidado.
Houve crescimento econômico em parte dos anos 1970, mas esse crescimento foi sustentado por endividamento externo, concentração de renda e repressão aos trabalhadores, o que significa que seus benefícios foram desiguais e seus custos foram transferidos para o futuro.
A percepção de que “era melhor” muitas vezes nasce de experiências individuais, de quem não foi diretamente atingido pela repressão e viveu sob a aparência de estabilidade construída pela censura.
HÁ UMA LIGAÇÃO EXPLÍCITA ENTRE O BOLSONARISMO E O ELOGIO À DITADURA

O bolsonarismo nasce a partir da trajetória de Jair Bolsonaro, um político que, ao longo de décadas de vida pública, construiu uma posição clara de defesa da ditadura militar e de elogio a seus agentes, incluindo torturadores, o que não pode ser tratado como exceção, mas como parte estruturante de seu pensamento político.
Esse movimento não apenas relativiza a ditadura, mas a apresenta como algo positivo, ao mesmo tempo em que normaliza práticas como a tortura, que são, por definição, violações graves de direitos humanos e que, durante o regime, foram utilizadas contra cidadãos que pensavam diferente, que se organizavam politicamente ou que ousavam discordar.

A tentativa de golpe de Estado que culminou nos atos de 8 de janeiro de 2023 não foi um episódio isolado, mas o resultado de um processo político que buscou deslegitimar a democracia, tensionar as instituições e abrir caminho para uma ruptura institucional.
Quando esse mesmo campo político se reorganiza e apresenta seu filho Flávio Bolsonaro como pré-candidato à presidência, estamos diante da continuidade de um projeto que já demonstrou, na prática, sua disposição de tensionar e romper com a democracia.

E diante disso, eu me pergunto: o que leva atores como o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, e o prefeito de Joinville, Adriano Silva, a apoiarem esse projeto? Onde está a responsabilidade dessas lideranças ao se associarem a este campo ideológico que defende a ditadura, relativiza a tortura e se conecta com a violação dos direitos humanos?
QUE PATRIOTISMO É ESSE QUE USA COMO SÍMBOLO A BANDEIRA DOS ESTADOS UNIDOS?

Em diversas manifestações recentes no Brasil, pessoas se apresentam como patriotas enquanto utilizam bandeiras dos Estados Unidos como símbolo político, o que revela uma contradição evidente que precisa ser encarada com seriedade.
Se olharmos para a história, veremos que o golpe de 1964 ocorreu em um contexto internacional marcado pela Guerra Fria e contou com apoio dos Estados Unidos, inclusive por meio da Operação Brother Sam.
No presente, vemos que o bolsonarismo mantém alinhamento com esse mesmo país, o que é amplamente observável em discursos e articulações dos filhos do ex-presidente (agora presidiário) junto ao governo Trump.
Quando colocamos esses elementos lado a lado, a pergunta se impõe: que tipo de patriotismo é esse que se afirma nacional enquanto se orienta por interesses e símbolos de outra potência?
PELA DEMOCRACIA E PELOS DIREITOS HUMANOS

Diante de tudo isso, eu assumo a minha responsabilidade diante da realidade e escolho não me calar. E convido todas as pessoas que acreditam na democracia e nos direitos humanos a também assumirem essa responsabilidade.
Entender que a ditadura foi um regime de violência, censura e violação de direitos não é uma questão ideológica. É uma questão de compromisso com o bem comum.
Lutar para que este regime, que torturou homens e mulheres e ceifou a vida de tantos inocentes, nunca mais se repita é, afinal, um gesto de amor. Um amor que se manifesta na responsabilidade de não esquecer, de não relativizar e de escolher, conscientemente, de que lado da história queremos estar.





