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Impactos positivos do fim da escala 6 x 1 em Santa Catarina – Artigo por Jean Volpato

Esta será uma semana importante para a mobilização nacional pelo fim da escala 6×1. Em todo o país, trabalhadores, sindicatos, movimentos sociais e parlamentares estarão debatendo uma pergunta simples, mas profundamente humana: afinal, trabalhamos para viver ou vivemos para trabalhar?

Esse debate não surgiu do nada. Ele faz parte de uma longa história de organização, resistência e conquista dos trabalhadores brasileiros.

Eu sou filho de pedreiro e de costureira. Cresci aprendendo dentro de casa que a vida do trabalhador nem sempre é fácil. Minha mãe trabalhou num período em que a dificuldade não estava apenas na jornada pesada ou no salário apertado. Existia também a ausência de liberdade para se organizar.

Era o tempo da ditadura militar. Um período em que muitos sindicatos estavam sob intervenção ou controle do regime, em que a organização dos trabalhadores era reprimida e lutar por direitos exigia coragem.

Com a redemocratização, veio também a reconstrução da organização sindical brasileira. Os trabalhadores voltaram a conquistar espaço, voz e capacidade de negociação. E é importante lembrar disso porque, muitas vezes, esquecemos uma verdade fundamental: direitos nunca vieram de graça.

Décimo terceiro salário. Férias remuneradas. FGTS. Limitação da jornada. Direitos previdenciários.

Nada caiu do céu. Tudo foi resultado de organização coletiva, mobilização e luta social.

Nas últimas décadas, porém, o Brasil viveu sucessivos processos de enfraquecimento da proteção trabalhista e da capacidade de organização sindical. Ainda assim, uma nova pauta ganha força: a redução da jornada semanal para 40 horas e o fim da escala 6×1, garantindo dois dias de descanso semanal remunerado.

E Santa Catarina tem muito a ganhar com essa mudança.

Estudos da Universidade Federal de Santa Catarina indicam que o fim da escala 6×1 poderia beneficiar aproximadamente 1,25 milhão de trabalhadores catarinenses — quase metade dos empregados formais do estado.

Não estamos falando de um grupo pequeno ou de uma pauta restrita a algumas categorias. Estamos falando de milhões de pessoas que enfrentam diariamente rotinas exaustivas, pouco tempo de convivência familiar, dificuldade para estudar, descansar ou simplesmente viver.

Os maiores beneficiados seriam justamente aqueles que mais sentem o peso da desigualdade social: trabalhadores de baixa renda, trabalhadores com menor escolaridade e trabalhadores negros.

Os números mostram ainda outro impacto relevante para Santa Catarina: a redução da jornada poderia estimular a criação de aproximadamente 64 mil novos empregos formais, especialmente nos setores da indústria, comércio e serviços áreas centrais para a economia catarinense.

Ou seja, estamos diante de uma pauta que combina qualidade de vida, geração de empregos, saúde mental, fortalecimento das famílias e desenvolvimento econômico.

Muitas vezes se tenta apresentar a redução da jornada como uma ameaça à economia. Mas a história mostra que avanços trabalhistas quase sempre foram recebidos com previsões de desastre, previsões que não se confirmaram.

Foi assim com a limitação da jornada, com as férias, com o décimo terceiro e com tantas outras conquistas que hoje parecem óbvias.

O debate sobre o fim da escala 6×1 não trata apenas de reduzir dias de trabalho. Trata de discutir qual modelo de desenvolvimento queremos para Santa Catarina e para o Brasil.

Queremos uma economia baseada na exaustão permanente ou uma economia capaz de conciliar produtividade, dignidade e qualidade de vida?

O trabalhador precisa de tempo.

Tempo para estudar.

Tempo para descansar.

Tempo para conviver com a família.

Tempo para viver.

A história do trabalho ensina uma lição importante: direitos não sobrevivem sozinhos. Eles precisam ser defendidos, ampliados e atualizados diante dos desafios de cada geração.

Assim como gerações anteriores se organizaram para conquistar direitos que hoje parecem naturais, talvez tenha chegado a hora de construir um novo avanço civilizatório.

E Santa Catarina não pode ficar de fora dessa discussão.


Vereador de Blumenau, suplente de deputado estadual, jornalista e professor, especialista em gestão de política
pública, com mandato que se destaca na defesa da saúde, causa animal, educação, cultura, direito das mulheres,
LGBTQIA+, meio ambiente e dignidade humana.

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