Pequenas frestas por onde brilha o humano
Empatia espontânea, senso coletivo e gentilezas nas microcenas urbanas
Sou daquelas pessoas que torce quando vê gente correndo pra pegar o ônibus que já está no ponto. Se der, ainda dou um toque pro motorista. Para ele ver que tá vindo gente.
E vibro mesmo quando conseguem.
Me dá muita felicidade.
Sei que, para algumas pessoas, isso pode parecer bobo. Mas, pra mim, não é.
Porque fico pensando que essa pequena torcida silenciosa pela vida do outro, um desconhecido, é um dos fortes contrapontos ao discurso dominante de produtividade e individualismo. São as alianças anônimas entre pessoas que provavelmente nunca mais vão se ver, afirmando que alguma esperança é possível.
A delicadeza raramente aparece nas estatísticas do mundo, mas aparece como fator primordial do processo civilizatório. São gestos mínimos que quase ninguém contabiliza: quem segura o elevador, quem avisa que a mochila está aberta, quem espera o outro atravessar, quem fala baixinho da alface no dente, quem percebe alguém sozinho numa roda e puxa conversa, quem sorri para o caixa no fim de um dia claramente difícil.
Pequenas coisas que não mudam o planeta inteiro, mas mudam o instante de quem faz e de quem recebe.
Há quem escolha não dificultar ainda mais um mundo que já é tão difícil. Uma aceitação pura e discreta de que não vivemos sozinhos.
São gestos que não geram status ou vantagem. Não aparecem em currículo ou relatórios. Mas se engana quem acha que não se ganha nada com isso. Se ganha um pouco de paz e beleza pra colocar no nosso dia a dia. Não é gostoso demais?
Tem gente que vê alguém correndo atrás do ônibus e pensa: “Não vai dar tempo.”
Sempre penso: “Vai, vai, vai…”
E quando a porta do ônibus continua aberta por mais alguns segundos, esperando a pessoa que corre para alcançá-lo, tenho a sensação de que o humano que a comanda brilha mais. E assim brilhamos todos!
E isso, no fundo, talvez não seja tão bobo quanto parece. É a humanidade encontrando pequenas frestas para existir. O que é bobo, na verdade, é não pensar em ampliar essas frestas.
Nota de rodapé
Assim como também acho que não ficaria confortável tendo uma Mercedes último tipo. Ia ficar envergonhada de passar pelos pontos de ônibus de manhã cedo e ver mães com bebê no colo esperando condução. Mas como isso envolve inúmeros pontos de vista, talvez seja assunto para:
– Um debate
– Outros 33 textos
– Uma boa conversa sobre privilégios e contradições.





