Cuidado multidisciplinar previne as complicações da traqueostomia infantil
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A traqueostomia pediátrica é indicada como uma função crucial na assistência a recém-nascidos e crianças que necessitam de suporte respiratório prolongado. O procedimento consiste na criação de uma abertura na traqueia para garantir a ventilação adequada. Isto é, o “tubo de respiração”, em termos leigos, é inserido pela área externa na parte inferior do pescoço e superior do peito. É especialmente indicado para casos de obstrução das vias aéreas superiores. Também ocorre quando a intubação orotraqueal (inserção da cânula por meio da boca) prolongada se torna inviável por atrasar a recuperação do paciente ou constituir maior risco de sequela.
No contexto pediátrico, a traqueostomia pode salvar vidas e proporcionar maior sobrevida e qualidade de vida a crianças com condições complexas. São exemplos dessas condições a prematuridade extrema, doenças neurológicas (paralisia cerebral, epilepsia), e situações de estenose laringotraqueal adquirida após longos períodos de ventilação mecânica invasiva.
Quando a traqueostomia é indicada em pediatria
De acordo com dados da Unicamp, cerca de 20% a 30% dos traqueostomizados infantis nasceram prematuros extremos e passaram por longos períodos de intubação. Esse tempo prolongado pode levar a uma obstrução crônica das vias aéreas superiores, como na estenose laringotraqueal. A condição demanda intervenção e acompanhamento especializado.
O dado é reforçado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) que aponta que crianças intubadas por mais de 14 dias, caso não haja perspectiva de extubação segura, precisarão de traqueostomia para garantir uma via aérea segura e estável.
Além disso, a Biblioteca Virtual do Ministério da Saúde mostra que, entre 0,5% e 2% das crianças submetidas à intubação orotraqueal prolongada necessitam de traqueostomia, a maioria delas menores de 1 ano de idade.
Outros fatores clínicos também podem demandar a indicação da traqueostomia. É o caso de doenças neuromusculares e neurológicas graves, que comprometem a função respiratória.
Desafios no acompanhamento de crianças traqueostomizadas
O acompanhamento contínuo por equipes multiprofissionais é indicado por especialistas para prevenir complicações e promover o desenvolvimento pleno da criança. Pneumologistas pediátricos, fonoaudiólogos, gastropediatras, fisioterapeutas e nutricionistas são alguns desses profissionais.
“É importante conscientizar que a traqueostomia exige acompanhamento constante e planejamento baseado no progresso da reabilitação respiratória,” comenta Ana Franco, coordenadora de Fisioterapia do Neocenter Felício Rocho. Segundo a especialista, é recomendado que, após a alta hospitalar, seja garantida a continuidade do cuidado domiciliar. Ela reforça que a higienização da cânula, a aspiração das vias aéreas e a monitorização constante são práticas indispensáveis para evitar complicações como, por exemplo, obstrução das vias respiratórias e infecções recorrentes, como pneumonia.
Tecnologia e humanização no cuidado
O Grupo Neocenter desenvolveu uma cartilha de orientação para as famílias de crianças traqueostomizadas, entregue no momento em que a equipe multiprofissional discute a necessidade da traqueostomia. Esse material reúne informações essenciais para esclarecer dúvidas, familiarizar os pais com a nova rotina e reforçar os cuidados necessários.
Antes da alta hospitalar, os familiares também passam por um treinamento para que se sintam seguros e preparados para dar continuidade aos cuidados em casa, garantindo mais qualidade de vida à criança e reduzindo o risco de complicações.
A evolução tecnológica e o treinamento constante das equipes de saúde têm sido determinantes para o aumento das taxas de “decanulação” em crianças, devolvendo a elas a possibilidade de uma vida plena e ativa. “Por mais que possa ser difícil inicialmente, encarar a intervenção como uma fase transitória, não definitiva, pode ajudar. As crianças apresentam uma incrível capacidade de regeneração, diferente dos adultos, cuja recuperação pode ser mais lenta, como vimos nos casos de ventilação prolongada durante a pandemia”, aponta Ana Franco.