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Inclusão digital avança, mas 20,5 milhões de brasileiros ainda vivem à margem da internet

Muitos sequer sabem usá-la

Apesar dos avanços significativos no acesso à internet no Brasil nos últimos anos — sobretudo entre idosos e moradores de áreas rurais —, um dado preocupante se mantém: 20,5 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais continuam sem acessar a rede mundial de computadores. O principal motivo, segundo o IBGE, é emblemático da exclusão digital estrutural do país: 45,6% dessas pessoas simplesmente não sabem usar a internet.

Os dados, divulgados nesta quinta-feira (24) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fazem parte do módulo de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD). A coleta ocorreu no último trimestre de 2024 e reflete os hábitos dos brasileiros nos 90 dias anteriores.


Avanços significativos entre os idosos

Um dos principais destaques do levantamento é o crescimento exponencial do número de idosos conectados: o grupo passou de 6,5 milhões em 2016 para 24,5 milhões em 2024, uma alta de 278%. Ou seja, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais que utilizam a internet saltou de 44,8% para 69,8% no período.

Esse crescimento demonstra que o envelhecimento da população brasileira não tem impedido o avanço da digitalização. Pelo contrário, muitos idosos passaram a acessar a rede para se comunicar, acessar bancos e serviços públicos, e até consumir conteúdo de entretenimento. Em 2024, 87,9% dos idosos que acessavam a internet o faziam todos os dias.

Para o analista Gustavo Geaquinto Fontes, do IBGE, o aumento está diretamente relacionado à crescente digitalização dos serviços: “A internet tem feito cada vez mais parte do cotidiano da sociedade. Muitos serviços são acessados online, e isso pressiona a inclusão mesmo entre os mais velhos”.


Quase 170 milhões de brasileiros conectados, mas desigualdades persistem

O número total de usuários da internet no Brasil em 2024 chegou a 168 milhões de pessoas com 10 anos ou mais — o equivalente a 89,1% da população dessa faixa etária. Em 2016, esse índice era de 66,1%. O salto reflete a tendência de quase universalização da internet no país, especialmente via celulares, que são o meio de acesso para 98,8% dos usuários.

Apesar disso, os 20,5 milhões que permanecem offline não podem ser ignorados. São, em sua maioria, pessoas com baixa escolaridade (73,4% têm até o ensino fundamental) e idosos (52,1%). Em muitos casos, a exclusão digital se mistura com exclusões econômicas, sociais e educacionais.


Por que ainda há tanta gente desconectada?

Entre os brasileiros que não utilizam a internet, as principais razões são:

  • Não saber utilizar: 45,6%

  • Falta de necessidade: 28,5%

  • Serviço caro: 7,5%

  • Preocupações com privacidade e segurança: 3,8%

  • Equipamentos caros: 3,4%

  • Falta de tempo: 4,3%

Embora o custo ainda seja uma barreira para cerca de 11% da população offline, a questão mais evidente é o desconhecimento. O dado é ainda mais alarmante quando se observa que em 32,6% dos domicílios sem internet, nenhum morador sabia usar a rede.

Essa lacuna evidencia que o problema da inclusão digital no Brasil não é apenas técnico ou financeiro — é educacional. Sem letramento digital, milhões continuarão marginalizados de uma sociedade cada vez mais conectada.


Desigualdade entre campo e cidade diminui, mas não desaparece

O estudo do IBGE aponta uma redução importante na diferença de acesso entre áreas urbanas e rurais. Em 2016, a disparidade era de quase 38 pontos percentuais: 71,4% dos moradores urbanos usavam internet, contra 33,9% dos rurais. Em 2024, os números subiram para 90,2% na cidade e 81% no campo.

No entanto, a qualidade e a disponibilidade do serviço ainda são entraves. Em 12,1% dos domicílios rurais sem internet, o acesso não está disponível na localidade — proporção muito maior do que os 0,9% nas áreas urbanas.


Equipamentos: da hegemonia do celular à queda dos computadores

A forma como os brasileiros acessam a internet também vem mudando:

  • Uso de celular para acesso: 98,8%

  • Uso de computadores: caiu de 63,2% (2016) para 33,4% (2024)

  • Uso de TVs: subiu de 11,3% para 53,5%

Os computadores perderam espaço para smartphones e TVs conectadas, especialmente nas classes mais baixas. Já o rendimento médio mensal nas casas com internet é de R$ 2.106 por pessoa — nas que não têm, é de apenas R$ 1.233.


Domicílios conectados: quase universal, mas com contrastes internos

O número de domicílios com acesso à internet saltou de 70,9% (2016) para 93,6% (74,9 milhões) em 2024. A maior parte das conexões é por banda larga fixa (88,9%) ou móvel (84,3%), com a conexão discada praticamente extinta (0,3%).

O avanço é especialmente expressivo em áreas rurais, onde o acesso passou de 35% (2016) para 84,8% (2024). Ainda assim, 5,1 milhões de lares seguem desconectados, e entre eles, 27,6% citam o custo do serviço como impeditivo e 26,7% dizem não ver necessidade de estar online.


Inclusão digital: mais do que conexão, é cidadania

A exclusão digital no Brasil hoje é menos marcada pela ausência de infraestrutura e mais pela ausência de formação, consciência e políticas públicas direcionadas. Conectar é só o primeiro passo — ensinar, incluir e proteger são as etapas que ainda faltam.

Enquanto as cidades avançam para um cenário de internet das coisas, com dispositivos inteligentes em 18,1% dos domicílios, quase 10 milhões de brasileiros sequer sabem como abrir um navegador. A inclusão digital precisa ir além da rede: deve ser educacional, acessível e justa.

O crescimento no número de idosos conectados e a redução das desigualdades entre áreas rurais e urbanas são conquistas importantes. Mas a existência de milhões de brasileiros offline, por desconhecimento ou desinteresse, revela uma falha estrutural grave.

Sem ações coordenadas de alfabetização digital, o país corre o risco de trocar a exclusão tradicional pela exclusão digital — tão cruel quanto a primeira.

Fonte: IBGE

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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