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Mercado imobiliário de Florianópolis bate recordes, mas exclui população de baixa renda

Florianópolis vem registrando números recordes no mercado imobiliário. De acordo com estudo da consultoria Brain, divulgado pela Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC), a capital catarinense liderou as vendas de imóveis entre as capitais do Sul do Brasil no primeiro trimestre de 2025. Foram comercializadas 1.942 unidades entre janeiro e março — um aumento de 97% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O Valor Geral de Vendas (VGV) somou R$ 1,6 bilhão, representando um crescimento de 67,2%. Também houve destaque nos lançamentos: 1.637 novas unidades foram disponibilizadas no mercado no mesmo período, com VGV de R$ 1,2 bilhão — superando inclusive mercados consolidados como Curitiba e Porto Alegre.

Diante desses dados, uma constatação chama a atenção: o mercado imobiliário da capital está mais aquecido do que nunca. Mas será que esse crescimento atende às necessidades de todos os moradores?

A CIDADE QUE BATE RECORDE, MAS EXCLUI POPULAÇÃO DE BAIXA RENDA?

O aumento nas vendas e lançamentos imobiliários traz impactos econômicos positivos — movimenta cadeias produtivas, gera empregos e impulsiona investimentos. No entanto, o cenário atual também revela um desequilíbrio: a falta de imóveis voltados à população de menor renda.

Segundo o estudo da Brain, apenas 10,7% da oferta atual em Florianópolis se encontra na faixa de R$ 350 mil a R$ 700 mil. E na categoria econômica, com imóveis de até R$ 350 mil, a oferta é praticamente nula. Dados da Câmara de Desenvolvimento da Indústria da Construção mostram que esse tipo de produto praticamente desapareceu do mercado local.

Essa escassez agrava o déficit habitacional, pressiona o valor dos aluguéis e compromete o direito à moradia digna para milhares de famílias. O que fazer, então, diante de uma cidade que valoriza, mas também exclui?

OPORTUNIDADES IMOBILIÁRIAS FORA DA ILHA

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Foto: divulgação SECOM São José

Com os altos custos na Ilha de Santa Catarina, municípios da Região Metropolitana — como São José, Palhoça e Biguaçu — passaram a receber maior atenção do setor imobiliário. Com preços mais acessíveis, infraestrutura urbana em expansão e maior disponibilidade de terrenos, essas cidades têm se consolidado como alternativas viáveis para novos empreendimentos.

Esses locais reúnem características valorizadas por quem busca moradia: proximidade com centros urbanos, acesso a transporte público, serviços essenciais e, em alguns casos, compatibilidade com o programa Minha Casa Minha Vida. Para muitas famílias, a mudança para fora da Ilha tem sido a única opção possível para garantir o sonho da casa própria.

A NECESSIDADE DE UMA PRODUÇÃO HABITACIONAL MAIS DIVERSIFICADA

O desafio, segundo especialistas, está em ampliar a produção de moradias voltadas às faixas de renda mais populares, sem abrir mão da qualidade urbanística e construtiva. É nesse ponto que algumas incorporadoras vêm se destacando ao oferecer unidades compatíveis com programas habitacionais e faixas intermediárias de renda.

Empresas como a SCIRE Empreendimentos, por exemplo, têm apostado em projetos com esse perfil. Com foco na arquitetura funcional, boas localizações e enquadramento em faixas do Minha Casa Minha Vida, esses empreendimentos ajudam a atender uma demanda reprimida que, muitas vezes, é negligenciada pelo mercado tradicional. A atuação de incorporadoras com esse olhar mais social, ainda que pontual, sinaliza que há espaço para inovação e inclusão no setor.

MINHA CASA MINHA VIDA: PILAR PARA A MORADIA POPULAR

Relançado com novo fôlego em 2023, o programa Minha Casa Minha Vida voltou a ser uma ferramenta essencial para ampliar o acesso à moradia no Brasil. A iniciativa do governo federal pretende contratar mais de 2 milhões de moradias até 2026, priorizando famílias com renda mensal de até R$ 2.640 (faixa 1), mas também incluindo faixas superiores.

Para que esse programa tenha impacto real em cidades com mercado aquecido, como Florianópolis, é fundamental que haja sinergia entre políticas públicas, setor privado e entes municipais. A adaptação de legislações urbanísticas, oferta de terrenos bem localizados e incentivo à produção habitacional acessível são passos cruciais para viabilizar esse objetivo.

QUAL CIDADE QUEREMOS CONSTRUIR?

O crescimento do setor imobiliário em Florianópolis é inegável. A capital continua atraente para investidores e novos moradores, consolidando-se como uma das cidades mais desejadas do Brasil. Mas essa valorização não pode ser confundida com desenvolvimento pleno se deixar de fora justamente quem mais precisa.

Promover o acesso à moradia digna não é apenas uma meta social: é um compromisso urbano. E para que esse compromisso se materialize, é preciso que o setor privado, como algumas incorporadoras já vêm fazendo, atue de forma mais inclusiva — e que o poder público exerça um papel ainda mais ativo na construção de uma cidade para todos.

A pergunta que ecoa é simples, mas profunda: o crescimento que celebramos hoje será lembrado amanhã como inclusão — ou como exclusão?


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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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