Morre Pepe Mujica, líder politico que fez da humildade sua bandeira
Ícone da esquerda, ele enfrentava um câncer de esôfago
O continente latino-americano se despede, nesta terça-feira (13), de uma de suas figuras mais emblemáticas: José Alberto “Pepe” Mujica Cordano faleceu aos 89 anos, em sua casa de campo, próxima a Montevidéu, no Uruguai. Lutando contra um câncer de esôfago, o ex-presidente estava recluso entre as flores e hortas que cultivava com simplicidade — a mesma simplicidade que o consagrou mundialmente como o “presidente mais pobre do mundo”.
Com um histórico de vida que mais parece roteiro de cinema, Mujica trilhou o caminho da luta armada, enfrentou a prisão e a tortura, governou uma nação e, até o fim, defendeu com paixão os ideais de justiça social, solidariedade e união latino-americana. Mas o que torna Pepe Mujica uma figura tão inesquecível?
Conteúdos
UMA VIDA DE LUTA: DO TUPAMARO AO PALÁCIO PRESIDENCIAL
Nascido em 1935, nos arredores de Montevidéu, Mujica teve origem humilde. Ainda jovem, ingressou no Movimento de Libertação Nacional Tupamaros — grupo guerrilheiro que desafiou o regime ditatorial uruguaio entre os anos 60 e 70. Sua trajetória foi marcada por episódios extremos: ficou preso por cerca de 14 anos, escapou da cadeia duas vezes, sobreviveu a seis tiros e suportou longos períodos de confinamento solitário.
Em entrevista ao jornalista Emir Sader, ele compartilhou a brutalidade de sua rotina na solitária: “Se você pegar uma formiga e colocá-la perto do ouvido, vai ouvi-la gritar. Isso eu aprendi no calabouço. [Também] guardava umas migalhas de pão porque havia uma ratazana que aparecia sempre lá”.
Essa fase difícil inspirou o filme Uma Noite de 12 Anos, de Álvaro Brechner, que retrata sua prisão ao lado de outros líderes tupamaros.
DO GUERRILHEIRO AO PRESIDENTE: A REVOLUÇÃO PELA SIMPLICIDADE
Após o fim da ditadura uruguaia, Mujica foi libertado e retomou a vida política. Foi deputado, ministro da Agricultura e senador. Em 2010, chegou à Presidência da República pelo Movimento de Participação Popular, parte da coalizão de esquerda Frente Ampla.
Durante seu governo (2010–2015), o Uruguai viveu uma guinada progressista. Legalização do aborto, casamento igualitário, adoção por casais homoafetivos e regulamentação da maconha foram marcos de uma gestão voltada para os direitos civis e sociais. Para além das reformas, Mujica impressionava o mundo com sua ética de vida.
Dispensava luxos, doava a maior parte de seu salário, vivia em um sítio simples e dirigia um Fusca azul dos anos 70. “Me dediquei a mudar o mundo e não mudei nada, mas me diverti”, disse em entrevista ao El País, em novembro de 2024. “E gerei muitos amigos e muitos aliados nessa loucura de mudar o mundo para melhorá-lo. E dei sentido à minha vida”.
RESULTADOS SOCIAIS E RECONHECIMENTO MUNDIAL
Sob seu comando, o Uruguai viu a pobreza despencar. De 39% em 2004, a taxa caiu para 11,5% em 2015, segundo o historiador Rafael Nascimento, da Universidade de Brasília. Programas de renda foram ampliados, o salário mínimo subiu e laptops foram distribuídos a estudantes e professores.
“Mujica é celebrado não apenas por suas realizações políticas, mas por sua ética de vida, por sua simplicidade e por sua luta por justiça social! Ele defende valores como a solidariedade, o respeito à natureza e o consumo consciente, tornando-se uma referência global”, destacou o especialista.
“OU NOS INTEGRAMOS, OU NÃO SOMOS NADA”
Mais do que um presidente, Mujica foi um pensador inquieto e defensor incansável da união latino-americana. “Ou nos integramos, ou não somos nada”, costumava repetir em suas falas públicas. Para ele, a América Latina só teria voz no cenário global se agisse em bloco, independentemente das diferenças políticas entre os países.
“Para defender a pouca soberania que nos resta em um mundo cada vez mais global, se não nos unirmos, não existimos”, afirmou durante a Jornada Latino-americana e Caribenha de Integração dos Povos, em Foz do Iguaçu, em 2023.
LULA E A HOMENAGEM AO COMPANHEIRO DE LUTAS
O reconhecimento a Mujica atravessou fronteiras. Em 5 de dezembro de 2024, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva foi pessoalmente ao Uruguai para condecorar Mujica com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul — a mais alta honraria brasileira concedida a estrangeiros.
“Essa medalha que eu estou entregando ao Pepe Mujica não é pelo fato de ele ter sido presidente do Uruguai. É pelo fato de ele ser quem é”, disse Lula, visivelmente emocionado. “Entre os presidentes que conheci, ele foi a pessoa mais extraordinária.”
O LEGADO VIVE
Apesar de sua morte, a presença de Mujica segue viva no imaginário político e cultural da América Latina. Com a eleição de Yamandú Orsi pela Frente Ampla em novembro de 2024, o projeto político de centro-esquerda ao qual Mujica dedicou a vida retorna ao poder. Orsi assume a Presidência em março de 2025, e, com ele, parte do legado de Pepe também segue adiante.
E você, já parou para pensar no poder da simplicidade para mudar o mundo?
Fonte: Agência Brasil
CONECTE-SE COM O CONECTA SC
Acompanhe o Portal Conecta SC e fique por dentro das notícias, eventos e dicas de turismo de Santa Catarina também nas redes sociais: Facebook | LinkedIn | Instagram
Receba os destaques semanais do Portal Conecta SC por email, assine nossa newsletter ou participe do nosso grupo no WhatsApp.





