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Do avesso da arte europeia, nasce uma nova história contada por corpos negros

A exposição de Roméo Mivekannin transforma clássicos do Louvre com uma potente crítica ao colonialismo.

Entre os meses de agosto e dezembro de 2025, museus brasileiros irão receber exposições que propõem uma revisão contundente da história da arte — não só pelo que mostram, mas principalmente pelo que questionam. Já se perguntou por que as figuras negras são tão frequentemente ausentes das grandes obras europeias? Ou ainda, quem são os corpos que ocupam o protagonismo nos quadros consagrados da história? Duas grandes mostras internacionais se debruçam exatamente sobre esses vazios e silenciam os discursos coloniais por meio da arte.

ROMÉO MIVEKANNIN TRAZ RELEITURAS PODEROSAS DE OBRAS EUROPEIAS AO MAM DA BAHIA

Uma das atrações mais impactantes da Temporada França-Brasil será a exposição O Avesso do Tempo, do artista beninense Roméo Mivekannin, que desembarca em Salvador após passagem pelo Louvre Lens, unidade do prestigiado Museu do Louvre no norte da França. Em exibição entre agosto e novembro no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), a mostra desconstrói obras icônicas da arte europeia ao inserir o corpo negro em lugar de destaque.

Utilizando lençóis europeus de segunda mão como suporte, Mivekannin — que é descendente direto da realeza de Daomé — costura com tinta, fé e ancestralidade uma nova leitura da história da arte ocidental. Suas telas, profundamente simbólicas, passam antes por um processo de purificação com ervas. Algumas guardam cartas costuradas, nas quais o artista pede permissão às figuras originais para ocupar seus lugares — um gesto que remete às práticas espirituais do vudu, religião tradicional de seu país natal.

Entre as obras reinterpretadas está A Balsa da Medusa, de Théodore Géricault (1819), onde Mivekannin ocupa o lugar dos náufragos sobreviventes, transformando uma narrativa de tragédia e heroísmo em uma crítica aos mecanismos de exclusão histórica. Na releitura do Retrato de Madeleine (Marie-Guillemine Benoist, 1800), o artista substitui a figura de Madeleine — por muito tempo identificada apenas como “uma mulher negra” — por sua própria imagem, encarando diretamente o público.

“Ele se insere para reescrever a história, para propor a sua narrativa. Ele também nos interpela para nos fazer entrar nessa história”, explica Evelyne Reboul, gerente de atividades educacionais do Louvre Lens, que acompanhou a visita da Agência Brasil à exposição.

BRASIL ILUSTRADO: DEBRET SOB NOVO OLHAR NO MUSEU DO IPIRANGA

Já em São Paulo, é o Museu do Ipiranga que acolhe a exposição Brasil Ilustrado – Um legado pós-colonial de Jean-Baptiste Debret, a partir de agosto. A mostra propõe um olhar crítico sobre a produção do pintor francês, que retratou o Brasil entre 1816 e 1839. Suas imagens, antes vistas como registros pitorescos do cotidiano colonial, são agora interpretadas como evidências da brutalidade escravocrata vigente na época.

A curadoria é assinada por Jacques Leenhardt, especialista na obra de Debret, que aponta a dissonância entre o impacto das imagens na Europa e no Brasil: “Na França, elas chocaram. Aqui, viraram estampa de pano de prato”.

A mostra reúne trabalhos de 15 artistas brasileiros contemporâneos que reinterpretam ou dialogam com os desenhos originais. Retrato da Mãe e transformações (2022), de Eustáquio Neves, por exemplo, sobrepõe imagens da mãe do artista com uma máscara de ferro usada em pessoas escravizadas para impedir o suicídio por ingestão de terra — elemento retirado diretamente de uma gravura de Debret.

Jaime Lauriano, por sua vez, aborda o racismo estrutural em Trabalho (2017), reunindo frases como “entrada de serviço pelos fundos” e profissões frequentemente associadas a pessoas negras. Já Gê Viana, em Espera da reza pro bater do tambor (2024), atualiza as cenas retratadas por Debret ao inserir elementos de cultura afro-brasileira contemporânea.

TEMPORADA FRANÇA-BRASIL VALORIZA O DIÁLOGO ENTRE HISTÓRIAS E CULTURAS

As duas exposições fazem parte da Temporada França-Brasil, programa acordado entre os presidentes Emmanuel Macron e Luiz Inácio Lula da Silva em 2023. O objetivo da iniciativa é fortalecer os laços entre os dois países por meio da cultura e da arte, especialmente em torno de temas centrais como diversidade, democracia e transição ecológica.

A temporada se divide em duas fases: no primeiro semestre, o Brasil ocupou os palcos e galerias da França; agora, é a vez de os franceses ocuparem o território brasileiro com sua programação. De agosto a dezembro, 15 cidades brasileiras — incluindo São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Recife e Belém — receberão atrações culturais que vão do cinema às artes visuais, passando por debates, residências artísticas e colóquios.

As obras de Mivekannin e as releituras de Debret reforçam o compromisso da Temporada com a revisão crítica do passado colonial e a valorização das vozes que por muito tempo foram silenciadas. O que antes era ausência, agora é presença — uma presença viva, crítica e profundamente contemporânea.

Quer testemunhar essas transformações? As portas estarão abertas.


SERVIÇO

O QUE: Exposição O Avesso do Tempo, de Roméo Mivekannin
QUANDO: Agosto a novembro de 2025
ONDE: Museu de Arte Moderna da Bahia – Salvador (BA)
ENTRADA: Gratuita

O QUE: Exposição Brasil Ilustrado – Um legado pós-colonial de Jean-Baptiste Debret
QUANDO: A partir de agosto de 2025
ONDE: Museu do Ipiranga – São Paulo (SP)
ENTRADA: Gratuita

Confira a programação completa da Temporada França-Brasil em: https://temporadafrancabrasil.com

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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