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Brasil avalia criar sistema de GPS próprio para garantir sua soberania tecnológica

Grupo interministerial vai estudar prós, contras e custos dessa ambição espacial

O Brasil pode estar prestes a dar um passo ousado no campo da soberania tecnológica. O governo federal instituiu, neste mês de julho, um grupo técnico que irá analisar a viabilidade de desenvolver um sistema nacional de navegação por satélite — em outras palavras, um GPS totalmente brasileiro.

Formado por representantes de ministérios, da Aeronáutica, de agências e institutos federais, além da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil, o grupo vai avaliar se o país tem, de fato, condições técnicas, estratégicas e financeiras de bancar um projeto dessa magnitude.

INICIATIVA GANHA FORÇA EM MEIO A TENSÕES INTERNACIONAIS

Embora o governo afirme que a decisão de criar o grupo não tem relação direta com acontecimentos recentes, o cenário global adicionou tensão ao tema. A criação da comissão antecedeu, por poucos dias, dois eventos que movimentaram o debate nas redes sociais: o anúncio de tarifa de 50% para produtos brasileiros nos EUA, feito por Donald Trump, e especulações sobre uma possível restrição ao acesso brasileiro ao sistema GPS norte-americano.

Mas há base real para essa preocupação? Para Rodrigo Leonardi, diretor de Gestão de Portfólio da Agência Espacial Brasileira (AEB), não.

“Este é um típico caso de ruído surgido nas mídias sociais, capaz de gerar ansiedade. E uma coincidência, porque já vínhamos discutindo o tema há tempos, de maneira que a criação do grupo não teve nenhuma relação com o que aconteceu depois.”

Segundo ele, não há qualquer indício oficial de que os EUA tenham intenção de cortar ou degradar o sinal de GPS para o Brasil. Mesmo que isso ocorresse, afirma, existem alternativas tecnológicas em operação.

GPS É APENAS UM ENTRE VÁRIOS SISTEMAS DE NAVEGAÇÃO POR SATÉLITE

É comum usar o termo GPS como sinônimo de sistema de geolocalização. Mas, na prática, o GPS é apenas uma das opções — e, nesse caso, a de propriedade dos Estados Unidos. O termo mais abrangente é GNSS (Global Navigation Satellite System), que inclui também o Glonass (Rússia), Galileo (União Europeia), BeiDou (China), além dos sistemas regionais operados por Índia e Japão.

“É lógico cogitar que, em tese, os EUA poderiam degradar ou até mesmo restringir o sinal de seu GPS para determinadas regiões, mas esta seria uma medida tão drástica que, a meu ver, só se justificaria se a segurança nacional dos EUA estivesse sendo ameaçada”, explicou Leonardi.

O BRASIL TEM TECNOLOGIA — MAS FALTA INVESTIMENTO

Segundo especialistas, tecnologia e conhecimento humano o Brasil já tem. O desafio está em outro lugar: o investimento.

“Nosso problema não é RH [recursos humanos]. É dinheiro. Temos pessoal capacitado. A questão é se temos condições de bancar um projeto desta envergadura”, afirma o professor Geovany Araújo Borges, da Universidade de Brasília (UnB), onde coordena o Laboratório de Automação e Robótica (Lara).

Borges lembra que criar um sistema de navegação exige muito mais do que lançar satélites. É preciso desenvolver a indústria de microeletrônica, investir pesado em ciência, tecnologia e educação básica — e, sobretudo, garantir continuidade política, já que se trata de um projeto de longo prazo.

“Qualquer coisa neste sentido que comecemos hoje, demorará a vingar. Ainda que tardia, é positiva a criação de um grupo de especialistas para debater o tema.”

SISTEMAS MULTICONSTELAÇÃO GARANTEM REDUNDÂNCIA EM CASO DE FALHAS

Mesmo que o sinal do GPS fosse cortado — o que é considerado improvável —, a maioria dos aparelhos modernos está preparada para lidar com isso. Muitos smartphones e sistemas embarcados já são multiconstelação, ou seja, conseguem captar sinais de mais de um sistema GNSS.

“De forma que, em termos de localização, nossos celulares seguiriam funcionando normalmente se deixássemos de receber o sinal do GPS”, explica Borges.
“A mesma lógica vale para muitos outros sistemas: se o sistema de sincronização for redundante, o impacto será limitado.”

Além disso, qualquer medida drástica como essa impactaria também empresas norte-americanas que operam no Brasil — como as de logística e transporte —, além de afetar países vizinhos e até gerar riscos à aviação civil.

O CUSTO DA SOBERANIA TECNOLÓGICA VALE A PENA?

A pergunta que o grupo técnico precisará responder é complexa: vale a pena o Brasil ter seu próprio GPS? Seria um sistema global, cobrindo o planeta, ou regional, restrito ao território nacional? Quais os impactos econômicos, militares e industriais de uma decisão como essa?

O grupo terá até 180 dias, contados a partir de 14 de julho, para entregar um relatório ao ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Marcos Antonio Amaro dos Santos, com conclusões e sugestões.

“Vamos procurar entender os gargalos, as dificuldades, os prós e contras de desenvolvermos um sistema destes”, explicou Leonardi.

Independentemente do desfecho, a discussão já coloca o Brasil frente a frente com uma decisão estratégica: continuar dependendo de sistemas controlados por outras nações ou começar a trilhar o caminho da autonomia em uma área-chave para o futuro digital, militar e econômico do país.

Fonte: Agência Brasil

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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