Artigos de opinião

Por que comparar agora mesmo Livros Restantes com Dark Horse

É importante falarmos de Livros Restantes, de Márcia Paraíso, e compará-lo com Dark Horse, de Cyrus Nowrasteh, porque ambos existem no mesmo mundo audiovisual, disputam atenção, circulação e legitimidade, mas são frutos de estruturas radicalmente distintas.

Livros Restantes está em cartaz no Brasil e vem conquistando o olhar afetivo de um público que sente falta de filmes adultos, inteligentes e sensíveis. Filmes que não têm medo do tempo, do silêncio, da escuta e do amadurecimento dos personagens. O protagonismo de Denise Fraga não é casual. Ele está em sintonia com um projeto narrativo que exige uma atriz capaz de sustentar complexidade emocional sem recorrer a atalhos dramáticos.

Esse cuidado se estende ao elenco como um todo. As atuações de Marcinho Gonzaga, Joana dos Santos e Dea Busato constroem personagens que existem mais pelo gesto, pela presença e pela escuta do que pela explicação excessiva. É um elenco afinado com a proposta do filme, que aposta na contenção e na densidade emocional como linguagem.

Há também um elemento que não pode ser tratado como simples paisagem: o sotaque de Florianópolis e a presença da Barra da Lagoa como espaço filmado. O último longa rodado ali e lançado em circuito de cinema foi A Fêmea do Mar, de Ody Fraga, em 1981. Quatro décadas se passaram sem que um dos lugares mais emblemáticos do litoral brasileiro ocupasse novamente a tela grande de forma autoral. Isso diz muito sobre a centralização da produção audiovisual no país, sobre escolhas políticas recorrentes e sobre quais territórios são autorizados a existir simbolicamente no cinema nacional.

A equipe de Livros Restantes reúne alguns dos melhores talentos do cinema catarinense. A direção de fotografia de Kike Krueger e a direção de arte de Cleo Rosa são exemplos claros disso. Cleo, inclusive, é nativa da Barra da Lagoa e desponta como uma das artistas mais talentosas do cinema brasileiro contemporâneo. Não se trata apenas de orgulho local, mas de reconhecer como o cinema se fortalece quando cria condições para que artistas de seus próprios territórios construam imagens a partir de dentro, com conhecimento sensível do espaço que filmam.

O filme é necessário porque o afeto é necessário no Brasil. Livros Restantes fala de mudança de rota, de amadurecimento, daquele momento em que a ficha cai e a vida segue por caminhos que não estavam previstos. Em um país marcado por urgências permanentes, violências simbólicas e um cansaço coletivo difícil de elaborar, esse tipo de narrativa não funciona como fuga, mas como elaboração possível do tempo presente.

dark horse poster 1
Foto: Divulgação

Em contraponto, Dark Horse, de Cyrus Nowrasteh, é uma produção estrangeira com aporte multimilionário de recursos. Nowrasteh é um cineasta iraniano de direita, e o filme se insere em uma tradição bastante conhecida do cinema internacional: os chamados “biopics” sobre figuras controversas da história contemporânea. Nada disso é, por si só, um problema. Personagens históricos disputados costumam render filmes interessantes.

O sucesso de séries de true crime como Tremembé, que tratam de criminosos ainda vivos, mostra como esse tipo de abordagem encontra público. Tecnicamente, a mesma lógica se aplicaria a um filme sobre Jair Bolsonaro, por exemplo. A questão aqui não é moral, nem estética. É estrutural.

Artigos Relacionados

Livros Restantes é fruto direto de políticas públicas de fomento ao cinema. O filme passou por editais da Aldir Blanc, pela Fundação Franklin Cascaes de Florianópolis, pelo Prêmio Catarinense de Cinema da FCC e pelo FSA/Ancine via BRDE. São instrumentos legítimos de incentivo à indústria audiovisual, com regras claras, prestação de contas rigorosa e acompanhamento por órgãos de controle. Nada disso é improviso. O filme é resultado de décadas de construção institucional no campo do audiovisual brasileiro.

Por isso, Livros Restantes não é um filme isolado. Ele é o filme de Márcia Paraíso, cineasta com trajetória consolidada, que foi minha professora de roteiro na faculdade de cinema e que tem capacidade técnica e artística para realizar um longa-metragem por ano, desde que existam condições estruturais mínimas para isso. O cinema brasileiro não carece de talento. Carece de continuidade.

Faço aqui uma observação pessoal, sem esconder o lugar de onde falo. Tenho profunda admiração por Márcia Paraíso, não apenas como cineasta, mas como formadora. E a Barra da Lagoa, cenário central do filme, foi espaço de vida do meu avô Orlando, pescador, com raízes culturais profundas naquela praia. O cinema também é feito dessas camadas de pertencimento, mesmo quando elas não estão explicitadas na tela.

Não é confortável comparar filmes, mas o próprio sistema de festivais, premiações e janelas internacionais é competitivo. Comparações acontecem o tempo todo. Vale, então, perguntar: o que retorna, em termos culturais, simbólicos e econômicos, de um filme como Livros Restantes, produzido a partir de políticas públicas, em relação a produções multimilionárias estrangeiras como Dark Horse? Essa é uma pergunta legítima, especialmente quando se tenta desqualificar o fomento público ao cinema.

Em tempo, vale lembrar que Florianópolis possui o Funcine, o Fundo Municipal de Cinema. Se houvesse o mínimo de visão estratégica por parte da Prefeitura, esse instrumento poderia ser um dos grandes incentivadores de cinema autoral articulado com turismo cultural internacional, gerando retorno para toda a economia da cidade. O cinema tem essa capacidade quando tratado como política pública de longo prazo, e não como gasto supérfluo.

Mas, ao que tudo indica, segue sendo mais fácil investir milhões em uma novela de produção portuguesa e em campanhas de autopromoção digital do poder público. E isso, evidentemente, também é uma escolha política.

Pedro MC é cineasta e produtor cultural de Florianópolis, diretor criativo da Mostra Catarina Fantástica e coordenador de eventos de cinema com impacto social.

APOIE FINANCEIRAMENTE O CONECTA SC

Pedro MC

Pedro MC é cineasta e produtor cultural de Florianópolis, diretor artístico da Mostra Catarina Fantástica e coordenador de eventos de cinema com impacto social.

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao Topo