Venda do TikTok para a Oracle redefine gestão da plataforma nos EUA
A finalização da venda da operação do TikTok nos Estados Unidos está prevista para acontecer nesta quinta-feira (22), encerrando um dos mais polêmicos processos envolvendo uma importante plataforma digital no país. A transação transferirá o controle decisório e a gestão de dados da empresa, até então sob a tutela da chinesa ByteDance, para um grupo de empresas ligadas ao governo norte-americano, em meio a preocupações relacionadas à segurança nacional.
A venda do TikTok nos EUA adquire relevância neste momento pois reforma o equilíbrio entre mercado, política e controle de dados em uma das maiores redes sociais do país, que conta com cerca de 170 milhões de usuários. Este movimento também reacende a discussão global sobre soberania digital, liberdade de expressão e regulação de plataformas tecnológicas.
PRESSÃO POLÍTICA E CONTEXTO ELEITORAL
As negociações acontecem sob intensa pressão do governo dos Estados Unidos e remontam ao primeiro mandato de Donald Trump, quando a presença do TikTok no país começou a ser enxergada como uma ameaça à segurança. O tema voltou a ser central durante a segunda campanha de Trump para a presidência, intensificando o caráter político dessa operação.
Do lado da China, o governo de Pequim expressou publicamente sua posição, considerando a transação uma forma de preservar as relações comerciais. Em dezembro, ao anunciar o acordo, o porta-voz do Ministério do Comércio da China, He Yongqian, afirmou: “O governo chinês espera que as partes relevantes possam chegar a uma solução a respeito do TikTok que esteja de acordo com as leis e regulamentos chineses, atingindo um equilíbrio de interesses”.
Especialistas apontam contradições no discurso adotado pelo governo norte-americano. Para Andressa Michelotti, o debate vai além da propriedade da empresa.
“Tem um paradoxo aí porque os Estados Unidos, com esse movimento de neoliberalismo econômico, usa ao mesmo tempo a justificativa da segurança nacional para poder controlar os dados de sua população. Afeta, ao mesmo tempo, o livre mercado e também a liberdade de expressão, que muitas vezes foi questionada pois houve a ameaça de fechar a plataforma”, avaliou.
QUEM VAI CONTROLAR O TIKTOK NOS EUA
Na prática, a venda do TikTok nos Estados Unidos diminuirá a participação da ByteDance para 20% e transferirá o controle para empresas alinhadas ao governo Trump e seus aliados internacionais. Entre as empresas estão o fundo MGX, associado à família real dos Emirados Árabes Unidos, e a Oracle, que ficará responsável pelo armazenamento e gerenciamento dos dados de usuários americanos.
A transação está avaliada em US$ 14 bilhões, conforme informou o vice-presidente dos Estados Unidos, James Vance. O nome mais visível à frente da participação da Oracle é Larry Ellison, frequentemente citado como um exemplo de “brolygarch”, termo que descreve grandes empresários próximos ao poder político. Trump tem se cercado de figuras semelhantes, como Mark Zuckerberg e Elon Musk.
UM PARADOXO ENTRE MERCADO E SEGURANÇA NACIONAL
De acordo com a pesquisadora, a disputa de poder vai além do controle de dados, envolvendo decisões sobre a arquitetura da plataforma, moderação de conteúdo e governança.
ESTRUTURA DA EMPRESA E QUESTÕES IGNORADAS
A venda forçada desconsiderou os argumentos da ByteDance de que o TikTok opera de forma independente do governo chinês. Atualmente, aproximadamente 60% do capital da empresa está disponível para fundos internacionais como BlackRock, General Atlantic e Susquehanna, enquanto 20% pertencem aos funcionários, incluindo cerca de 7 mil trabalhadores nos Estados Unidos, e os 20% restantes ficam com os fundadores, entre eles Zhang Yiming, o único nome amplamente conhecido.
MUDANÇAS NO APLICATIVO E INCERTEZAS TÉCNICAS
Além da troca de controle, há rumores na mídia especializada americana de que a venda do TikTok nos Estados Unidos pode envolver não apenas a migração de servidores, mas também a criação de um aplicativo distinto, com impactos ainda incertos sobre design, funcionalidades e arquitetura da plataforma.
“Como será que esse TikTok vai se dividir nos Estados Unidos? Haverá uma nacionalização, resultando em uma plataforma separada, ou ainda terá uma estrutura que de alguma forma se conecte com a plataforma em outros países?”, questiona Andressa Michelotti. Para ela, uma potencial “balcanização” — com plataformas isoladas por país — é um dos cenários possíveis.
DADOS, MODERAÇÃO E REGULAÇÕES LOCAIS
As incertezas se estendem ao tráfego internacional de dados, envolvendo o acesso dos usuários americanos a servidores localizados na Europa, na China ou na América Latina e vice-versa. A maneira como essas informações serão compartilhadas pode influenciar políticas de moderação, transparência e resposta a reivindicações legais.
“Pode ser que o TikTok se torne uma empresa totalmente diferente, menos atrativa. Pode ser que implementem um novo design, novos elementos, talvez se assemelhe mais a outras plataformas americanas”, reflete a pesquisadora da UFMG.
O debate se conecta a regulações que já estão sendo implementadas em outros países. Na Europa, por exemplo, o TikTok anunciou novas diretrizes de moderação para usuários com menos de 13 anos, após ocorrências de autoagressão relacionadas a conteúdos na plataforma. Essa medida envolve escaneamento automático e revisão por humanos, podendo resultar em banimentos.
IMPACTOS PARA O BRASIL E PRÓXIMOS PASSO
Segundo a ByteDance, a venda do TikTok nos Estados Unidos não afetará suas operações em outros países. “A nova Joint Venture é específica para as operações do TikTok nos Estados Unidos e não interfere na experiência no Brasil”, afirmou a empresa em comunicado.
Entretanto, especialistas brasileiros percebem impactos indiretos no debate regulatório. Para Rafael Evangelista, professor da Unicamp e conselheiro do CGI.br, o caso não deve ser replicado no Brasil, mas serve como um alerta. “A venda forçada da operação do TikTok nos Estados Unidos não deve ser interpretada como um modelo a ser seguido no Brasil, mas traz uma lição importante para o debate sobre regulação e governança da internet”, explica.
No Brasil, a ByteDance está ampliando sua presença com a construção de um novo data center em Caucaia, no Ceará, que começou no dia 15. O empreendimento terá capacidade de 200 MW, com um investimento estimado em R$ 200 bilhões e utilizará energia solar e eólica.
Paralelamente, o setor aguarda a tramitação do Projeto de Lei de Concorrência Digital (PL 4675/2025), que pode aumentar o papel do Cade na mediação de negócios digitais, além da recente implementação da Lei 15.211/2025, conhecida como ECA Digital. Esses esforços indicam que, mesmo sem uma venda forçada, o debate sobre soberania digital e o poder das plataformas continuará no centro das discussões no Brasil.





