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Sob risco de expulsão do PSD, Topázio deixa a sigla e reforça alinhamento à extrema-direita

A saída de Topázio Neto do PSD não pode ser lida como um gesto isolado ou inesperado. Ela ocorre no momento em que sua permanência na sigla se tornava insustentável, diante da possibilidade concreta de expulsão por desalinhamento político.

Ao se antecipar, Topázio tenta assumir o controle da narrativa e reposicionar sua saída como reação a um ambiente de “truculência” e “intimidação”. O movimento, no entanto, levanta uma questão central. Trata-se de uma decisão ética ou de uma saída conveniente diante de um impasse político criado por ele próprio?

ENTRE FIDELIDADE PARTIDÁRIA E CONVENIÊNCIA POLÍTICA

O ponto de ruptura é claro. Enquanto o PSD se organiza para lançar candidatura própria ao governo de Santa Catarina, liderada por João Rodrigues, Topázio atua publicamente em defesa da reeleição de Jorginho Mello.

Não se trata de divergência pontual. É uma escolha política direta e consciente que contraria o projeto central do partido ao qual ele ainda estava filiado.

Nesse contexto, a reação interna não é uma anomalia. Partidos exigem coerência mínima de seus quadros, especialmente quando estão em disputa majoritária. Ao ignorar essa premissa e, ao mesmo tempo, permanecer na sigla, Topázio cria um cenário de conflito inevitável.

A antecipação da saída, portanto, não resolve o problema. Apenas evita o constrangimento formal de uma expulsão e permite que ele reorganize publicamente os termos do rompimento.

A CARTA E A CONSTRUÇÃO DA VÍTIMA

Na carta de desfiliação, o prefeito adota um tom de enfrentamento e vitimização. Afirma ter sofrido “truculência, intimidação e socos na mesa” e classifica a reação do partido como uma “grotesca encenação”.

Também parte para o ataque direto ao afirmar que o projeto liderado por João Rodrigues transformou o partido em “refém de um projeto sem sentido”, movido por “ego, vaidade e sede de poder”.

Ao mesmo tempo, tenta se descolar da acusação mais evidente ao escrever que “repudia o rótulo de traidor”.

Mas é justamente esse o ponto central que a carta evita enfrentar de forma direta.

QUEM ROMPEU COM QUEM

Ao declarar que há dois anos defende o apoio à reeleição de Jorginho Mello, Topázio admite que seu distanciamento do PSD não é recente. Ele é estrutural e consciente.

Sob essa perspectiva, a crise atual não nasce de uma perseguição interna. Ela é consequência de uma escolha política reiterada ao longo do tempo.

A eventual expulsão, portanto, não seria um ato arbitrário, mas o desfecho lógico de um desalinhamento prolongado.

Ao inverter essa lógica e se apresentar como vítima, o prefeito desloca a responsabilidade do próprio ato para o comportamento do partido.

O ALINHAMENTO QUE A CARTA CONFIRMA

Mais do que justificar sua saída, a carta cumpre outro papel. Ela explicita, sem ambiguidades, o campo político escolhido por Topázio.

Ao elogiar a gestão de Jorginho Mello como “a mais bem avaliada do país” e defender sua reeleição, o prefeito reafirma seu alinhamento com o projeto político do PL em Santa Catarina.

Quando avança para o cenário nacional e critica a possibilidade de o PSD não apoiar Flávio Bolsonaro, reforça ainda mais esse posicionamento.

Não se trata apenas de uma decisão estratégica. É uma adesão clara a um campo político identificado com o bolsonarismo e com a extrema-direita.

Ao fazer esse movimento, Topázio não apenas deixa um partido. Ele redefine publicamente seu posicionamento.

ÉTICA, COERÊNCIA E CONFIANÇA POLÍTICA

A carta começa com uma afirmação enfática. “Política para mim é diálogo, gratidão e respeito. Considero a palavra dada o bem mais valioso de um homem público.”

A própria condução do episódio, no entanto, tensiona esse discurso.

Ao permanecer em um partido cujo projeto central ele não apenas discorda, mas combate, e ao sair apenas quando sua permanência se torna inviável, o prefeito abre espaço para um questionamento legítimo sobre coerência.

Mais do que isso, levanta dúvidas sobre confiança política. Até que ponto é possível sustentar compromissos quando eles deixam de ser convenientes?

ENTRE DISCURSO E POSICIONAMENTO

A tentativa de enquadrar a saída como reação à intimidação não elimina o elemento central do episódio. Topázio fez uma escolha política consciente e prolongada de se alinhar a outro projeto de poder.

A carta não nega isso. Ao contrário, confirma e aprofunda esse alinhamento.

Ao final, o debate deixa de ser apenas sobre um conflito interno de partido. Passa a ser sobre ética, coerência e responsabilidade pública.

E, sobretudo, sobre a distância entre o discurso adotado e as decisões efetivamente tomadas.

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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