Fortalecer o ensino superior em SC exige políticas públicas para ampliar acesso e permanência – Artigo por Maria Clara Santos

Santa Catarina costuma ser visto como um estado de oportunidades. Mas quando o assunto é ensino superior, essa realidade não é igual para todos. O acesso à universidade ainda é profundamente desigual — e, para muitos, conquistar uma vaga é só o começo.
Instituições como a Universidade Federal de Santa Catarina e a Universidade do Estado de Santa Catarina são referências em qualidade de ensino, pesquisa e extensão. No entanto, o caminho até elas está longe de ser acessível de forma justa.
Os dados ajudam a dimensionar o problema. Segundo o Censo da Educação Superior, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Brasil alcançou cerca de 10 milhões de estudantes no ensino superior em 2024, mas ainda assim a taxa de acesso segue limitada. Quando se observa a população jovem, o cenário é ainda mais preocupante: apenas 27% dos estudantes que concluem o ensino médio conseguem ingressar na graduação logo no ano seguinte, de acordo com dados do próprio Inep com base no PNAD/IBGE. Ou seja: a maioria dos jovens já fica de fora logo na largada.
Quando olhamos para Santa Catarina, essa desigualdade ganha contornos próprios. Apesar de ser um dos estados com melhores indicadores socioeconômicos do país, o acesso ao ensino superior ainda é concentrado e injusto. A maior parte das vagas presenciais está em regiões mais urbanizadas, como a Grande Florianópolis, o Vale do Itajaí e o Norte do estado. Isso significa que jovens do interior precisam se deslocar — muitas vezes mudando completamente de cidade — para conseguir estudar.
Na Grande Florianópolis, cidades como Palhoça, São José e Biguaçu concentram milhares de estudantes que dependem diariamente de deslocamentos longos até Florianópolis, onde estão os principais campi. Esse movimento escancara outro problema: o custo e a precariedade do transporte público.
Para muitos estudantes, a aprovação vem acompanhada de uma nova preocupação: como pagar aluguel? Como se alimentar? Como chegar até a universidade todos os dias?
É aqui que o debate sobre permanência estudantil se torna central. Porque não basta garantir o acesso — é preciso garantir que os estudantes consigam permanecer.
Dados do próprio INEP mostram que políticas de assistência estudantil fazem diferença concreta: 51% dos estudantes cotistas concluem seus cursos, contra 41% entre os não cotistas. Ou seja, quando há apoio, há permanência.
Ainda assim, a realidade de muitos estudantes é marcada por dificuldades cotidianas. A insuficiência de moradia estudantil, o número limitado de bolsas, o custo da alimentação e o tempo gasto no transporte impactam diretamente a trajetória acadêmica. Soma-se a isso um fator cada vez mais presente: o adoecimento mental, resultado da pressão, da instabilidade financeira e da sobrecarga.
E esse cenário não se limita às universidades públicas.
Em Santa Catarina, o ensino superior privado tem um peso ainda maior. Muitas cidades contam apenas com instituições privadas, o que faz com que milhares de estudantes dependam de bolsas, financiamentos ou de um esforço financeiro extremo para estudar. Mesmo assim, muitos precisam conciliar jornadas exaustivas de trabalho e estudo, o que aumenta o risco de evasão.
Por isso, defender o acesso à universidade passa também pela defesa da manutenção e ampliação de políticas de bolsas de estudo, tanto públicas quanto institucionais. Sem essas políticas, o ensino superior segue sendo um espaço limitado — e não um direito garantido.
Falar de educação superior é falar de futuro. É falar de desenvolvimento econômico, social e humano. Santa Catarina é um estado que cresce, que se destaca, que forma profissionais qualificados — mas que ainda não garante que todos tenham as mesmas condições de chegar até lá.
E é preciso fazer uma escolha: queremos um estado que selecione quem pode sonhar, ou um estado que garanta que todos tenham a chance de construir seu futuro?
Porque democratizar o ensino superior não é apenas abrir portas. É garantir que ninguém precise desistir no meio do caminho.
Maria Clara Santos, 29 anos, é natural de Palhoça (SC), formada em Nutrição, estudante de Jornalismo e repórter da Rádio Alesc. Diretora da UCE e ex-presidente do PT Palhoça.





