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Aprovada às pressas na Câmara dos Deputados, Minirreforma eleitoral enfraquece fiscalização partidária

A aprovação da Minirreforma eleitoral pela Câmara dos Deputados, na noite da última terça-feira (19), abriu uma nova frente de debate político e jurídico no Brasil. O projeto altera regras de fiscalização partidária, limita punições aplicadas a legendas, flexibiliza mecanismos de controle financeiro e autoriza disparos automatizados de mensagens em campanhas eleitorais.

A proposta foi aprovada em votação simbólica, sem registro nominal no painel eletrônico, após entrar de forma inesperada na pauta da Câmara. O formato acelerado da tramitação provocou críticas de entidades da sociedade civil, que acusam o Congresso de enfraquecer instrumentos de transparência justamente em um momento de crescente pressão por maior controle sobre o uso de recursos públicos nas eleições.

Agora, o texto segue para análise do Senado Federal.

MINIRREFORMA ELEITORAL REDUZ ALCANCE DE PUNIÇÕES A PARTIDOS

O projeto aprovado modifica pontos importantes da legislação eleitoral e partidária brasileira. Entre as principais mudanças está a criação de um teto de R$ 30 mil para multas aplicadas a partidos com contas desaprovadas pela Justiça Eleitoral.

Na prática, especialistas apontam que a regra pode reduzir o impacto das sanções em casos envolvendo irregularidades milionárias, já que o valor da punição deixa de acompanhar proporcionalmente o tamanho da infração identificada.

Outro ponto considerado sensível é a proibição de bloqueio ou penhora de recursos do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral. Caso a proposta seja sancionada, esses recursos públicos ficarão protegidos mesmo diante de condenações judiciais ou cobranças relacionadas a irregularidades partidárias.

Além disso, o texto autoriza que dívidas de partidos sejam parceladas em até 15 anos, ampliando significativamente o prazo atualmente praticado.

A Minirreforma eleitoral também reduz o tempo disponível para análise das contas partidárias pela Justiça Eleitoral. O prazo cai de cinco para três anos.

Na avaliação de críticos da medida, isso pode levar ao encerramento automático de processos sem decisão definitiva caso a Justiça não consiga concluir a análise dentro do período estabelecido.

TRAMITAÇÃO RÁPIDA E SEM REGISTRO DE VOTOS GEROU CRÍTICAS

A forma como a proposta avançou na Câmara se tornou um dos principais focos de questionamento.

O texto foi apreciado na noite de terça-feira (19), sem discussão ampla prévia e sem que constasse inicialmente na pauta oficial do plenário. A votação ocorreu de forma simbólica, modelo em que não há registro individualizado do posicionamento dos parlamentares.

O procedimento gerou reação imediata do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), rede formada por mais de 70 entidades da sociedade civil.

“A aprovação ocorreu por votação simbólica, sem identificação individualizada dos votos parlamentares, dificultando que a população conheça o posicionamento de seus representantes sobre as medidas”, afirmou o movimento em nota pública.

A entidade também criticou a ausência de debate público sobre mudanças consideradas estruturais para o sistema eleitoral brasileiro.

“O tema foi incluído na pauta de maneira repentina, sem o necessário debate público com a sociedade civil, especialistas e instituições comprometidas com a defesa da integridade eleitoral.”

DISPAROS AUTOMATIZADOS PASSAM A TER AUTORIZAÇÃO

Outro trecho da Minirreforma eleitoral que provocou preocupação entre especialistas envolve o uso de ferramentas digitais em campanhas políticas.

O projeto passa a permitir o envio automatizado de mensagens para eleitores previamente cadastrados. Pela nova regra, os disparos em massa deixam de ser considerados irregulares quando direcionados a usuários que tenham fornecido cadastro prévio.

Na avaliação de organizações ligadas ao combate à desinformação, a mudança pode ampliar o uso de estruturas digitais de grande alcance durante campanhas eleitorais, reduzindo barreiras de fiscalização.

“Também causa preocupação a autorização para disparos massivos automatizados de mensagens em campanhas eleitorais, medida que ignora os impactos da desinformação registrados nos últimos processos eleitorais”, destacou o MCCE.

RESPONSABILIZAÇÃO DE PARTIDOS TAMBÉM SOFRE ALTERAÇÕES

O texto aprovado ainda modifica a forma de responsabilização dos diretórios partidários.

Pela nova regra, cada diretório responderá apenas pelas próprias irregularidades, sem extensão automática de responsabilidade para outras estruturas da legenda.

Na prática, críticos afirmam que a medida pode fragmentar investigações e dificultar ações mais amplas da Justiça Eleitoral em casos envolvendo partidos em diferentes níveis organizacionais.

O projeto também facilita processos de fusão entre partidos, ponto que, segundo entidades da sociedade civil, pode dificultar a responsabilização de legendas por irregularidades já identificadas em processos anteriores.

RELATOR DIZ QUE PROJETO GARANTE SEGURANÇA JURÍDICA

O relator da proposta, deputado Rodrigo Gambale, defendeu o texto e afirmou que as mudanças buscam modernizar a legislação partidária brasileira.

Segundo ele, a proposta traz maior segurança jurídica para os partidos e ajusta regras de fiscalização consideradas excessivamente rígidas.

Na avaliação do parlamentar, as alterações harmonizam a atuação da Justiça Eleitoral com princípios constitucionais como proporcionalidade e razoabilidade.

SENADO DEVE ENFRENTAR PRESSÃO SOBRE O TEXTO

Com a aprovação na Câmara, a expectativa agora se volta para a tramitação no Senado, onde entidades da sociedade civil prometem pressionar por mudanças ou rejeição de pontos considerados mais controversos.

O Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral afirmou esperar que os senadores promovam uma discussão mais aprofundada antes da votação final.

“O MCCE espera que o Senado Federal promova ampla discussão sobre a matéria e impeça a consolidação de medidas que representem retrocessos para a transparência, a igualdade política e a integridade eleitoral no Brasil”, concluiu a entidade.

O movimento reúne organizações como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Ordem dos Advogados do Brasil e entidades ligadas à Polícia Federal e aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

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Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

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