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Perdoar é devolver ao outro o que é do outro

Uma arquitetura do perdão

Perdoar não é esquecer. Não é justificar. E, muitas vezes, tampouco é reconciliar-se.

Perdoar é, antes de tudo, um movimento interno, uma decisão íntima de não continuar carregando uma dor que se instalou em nós.

O perdão, portanto, diz respeito principalmente a quem foi ferido.

Talvez a parte mais difícil de todo o processo seja a primeira: reconhecer que alimentar a mágoa não nos faz bem. Parece simples, mas não é. Nossa natureza neste mundo, frequentemente nos empurra na direção oposta: revidar, endurecer, cultivar ressentimentos, manter viva a memória da ferida como se ela nos protegesse de novas dores.

Por isso, a vontade genuína de perdoar pode levar muito tempo para surgir. E, em alguns casos, talvez nunca surja.

Mas, se em algum momento conseguimos enxergar que é inútil continuar carregando esse peso, algo já começa a mudar e o processo se inicia.

E a primeira pergunta ao nos colocarmos a caminho do perdão pode ser: o que essa mágoa fez com a sua vida?

Ela alterou sua forma de se relacionar?

Fez você se fechar?

Passou a desconfiar mais?

A endurecer?

A esperar menos das pessoas?

Algumas feridas realmente se tornam profundas e passam a moldar escolhas, comportamentos, relações e até a forma como enxergamos a vida.

Se suas respostas apontarem para mudanças negativas em sua forma de viver, existe aqui um trabalho importante: rever os padrões que a mágoa instalou em você.

Reconhecer isso é fundamental, porque esses padrões não são, necessariamente, quem você é. Muitas vezes, são adaptações construídas para sobreviver à dor.

E aquilo que foi adquirido, mesmo pela dor,  também pode ser transformado, isto é fato.

Como? Percebendo que o padrão adquirido não é o que você quer para você. Foi adquirido em função do que fizeram com você e que a partir desse entendimento, pode mudar, ser reconstruído de maneira a lhe colocar no mundo mais positivamente, mais voltado a quem você é e ao que deseja verdadeiramente.

Mas nem toda dor se instala da mesma forma.

Algumas, embora marcantes, parecem maiores dentro da memória emocional do que na realidade concreta da vida.

Perceber essa diferença importa.

Porque, às vezes, descobrimos que estamos bem mais inteiros do que pensávamos. Pode acontecer nesta parte, que ao olhar com honestidade, você perceba que, embora tenha doído, ou ainda doa, sua vida não foi tão profundamente afetada quanto imaginava. Aqui encontramos uma facilidade pelo caminho. Ele já não está mais tão cheio de obstáculos e muitos processos acabam findando já nesta etapa. Você está livre! Pode até assumir uma atitude de “Vou deixar pra lá, já não importa mais”, que não tinha percebido antes.

Mas, voltando ao processo, caso seja necessário, vem uma etapa também delicada (aliás, todas as etapas são, você percebe, não é?) a de tentar compreender o que levou o outro a agir como agiu.

Essa parte não é para justificar a ação do outro, mas compreender os motivos da sua ação. Significa apenas olhar com mais profundidade para a origem do gesto.

Isso é importante porque a mágoa quase sempre vem acompanhada por um profundo sentimento de injustiça.

Ao olhar com mais profundidade, porém, podemos perceber algo fundamental: muitas vezes, a injustiça do outro fala muito mais sobre quem ele é do que sobre quem nós somos.

Entender isso é perceber que, muitas vezes, o que carregamos dentro de nós pertence ao outro: suas limitações, seus medos, suas distorções, sua maldade, sua arrogância, sua incapacidade de amar ou de ver além de si mesmo.

Aqui começamos a devolver ao outro aquilo que nunca foi nosso. 

Mas neste momento do processo, há casos um tanto difíceis. Em que a dor chega a ser paralisante. Onde há camadas de dor bem mais profundas, que merecem atenção especial. São os casos em que a ação em si é menos importante do que o fato de ela ter vindo de alguém que amamos, admiramos ou em quem confiávamos profundamente.

E isso traz uma pergunta dilacerante:
“Como essa pessoa pôde fazer isso comigo?”

Ou, mais profundamente ainda:
“Eu gostava tanto de você… por quê?”

Nesses casos, a dor não nasce apenas da ferida causada pela ação, mas também da ruptura de uma imagem interna. 

Sofremos pelo que aconteceu e sofremos pela queda da pessoa que existia dentro de nós.

Há lutos nesses casos. Para além da relação em si, morre também a inocência com que a vivíamos. Aqui não perdoamos apenas a ação do outro, precisamos também nos despedir da imagem que tínhamos dele. 

Talvez uma das partes mais difíceis seja justamente aceitar essa morte. Aceitar que algo se rompeu, que algo não voltará a ser como antes e que insistir em manter viva uma imagem que já não corresponde à realidade apenas prolonga o sofrimento.

E justamente por isso tudo, surge a questão essencial: se essa dor sufoca, o que poderia ser mais importante do que libertar-se dela?

Ao compreendermos que muitas vezes não fomos feridos pelo que somos, mas pelo que representamos para o outro, construímos um novo degrau na nossa autoconfiança e isso será fantástico para nossa caminhada.

Este entendimento nos devolve a consciência de que não precisamos definir nosso valor a partir da incapacidade emocional alheia.

Só por isso, esse processo já vale a pena.

E então acontece aquilo que, de fora, pode parecer quase uma mágica. Mas não é mágica. É consciência.

“Você me feriu, mas eu não sou responsável pelos seus conflitos internos.

Não sou responsável pela forma distorcida com que você me viu, me interpretou ou me tratou.

Reconheço sua injustiça.
Reconheço sua falta de cuidado.

Mas isso pertence a você, não a mim.

Escolho seguir em frente optando por largar mão dessa mágoa, desse sofrimento.”

Esse é o ponto de virada.

Entendendo o que houve. Aprendendo com o que houve. Mas sem continuar vivendo dentro disso.

E, com o tempo, aquilo que parecia imenso começa a perder densidade.

Vai ficando distante.

Menor.

Menos vivo.

Importante lembrar: todo esse processo acontece dentro de quem foi ferido. Muitas vezes, quem causou a dor sequer imagina que essa travessia está acontecendo.

Em alguns casos, pode haver conversa. Pode haver pedido de desculpas. Pode haver reconstrução da relação e tudo pode voltar a ficar bem.

Mas nem sempre.

Existem feridas mais marcantes ou profundas, aquelas em que a pessoa que magoou não consegue perceber o que fez. Existem pessoas incapazes de reconhecer o mal que causam. E existem aquelas que ferem repetidamente, de forma constante, quase habitual.

Nesses casos, mesmo que tenhamos feito o processo de cura interna, o afastamento pode ser necessário, pois não podemos esperar mudanças na pessoa, uma vez que ela está alheia ao que se passa ao seu redor. 

Muito importante: perdoar não significa permanecer disponível para continuar sendo ferido!

O mais transformador em tudo isso Talvez seja perceber que, ao mudarmos nossa energia em relação ao que nos magoou, desapegando-nos e voltando o olhar para outros horizontes, o que parecia tão pesado começa a perder força.

Porque mágoa é uma coisa pesada. Exaure. Ocupa espaço dentro de nós. Assim, soltar, desapegar, respirar, mudar o foco sempre vai fazer muita diferença. Que tal experimentar?

Aos poucos, o que e quem nos magoou deixa de ocupar nosso campo, nosso cotidiano e, principalmente, nosso mundo interno.

Nota de rodapé:

Aqui, falo do perdão como um movimento interno de libertação. Uma forma de aliviar o peso que carregamos no peito e seguir com mais leveza.

Isso não significa relativizar ou minimizar o erro de quem feriu. Cada um continua responsável por seus atos e por suas consequências diante da vida.

Também não me refiro aqui ao perdão no âmbito jurídico: crimes e violações de qualquer natureza devem responder à lei e ao devido julgamento.

 

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Ana Lucia Fernandez

Terapeuta transpessoal, faz o Outros Mapas (@outrosmapas.anafernandez), trabalho voltado a quem busca novos caminhos dentro e fora de si. Admiradora profunda do ser humano, daqueles que carregam um olhar sensível para o outro e para as suas pluralidades infinitas. Escreve aqui sobre comportamento, dimensões do ser humano, presença e os vários caminhos possíveis do existir. Nasceu e vive em Florianópolis/SC.

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