EducaçãoNotíciasSanta Catarina
Em Destaque

Militarização de escolas em Santa Catarina faz gastos com militares crescerem 200 vezes em seis anos

A militarização de escolas em Santa Catarina ampliou significativamente os gastos da Secretaria de Estado da Educação (SED/SC) com militares da reserva nos últimos anos. Dados do Portal da Transparência do governo estadual apontam que as despesas saltaram de R$ 122,3 mil em 2019 para R$ 24,4 milhões em 2025, acompanhando a expansão do modelo cívico-militar na rede pública estadual.

O levantamento foi realizado pela assessoria econômica do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina (Sinte/SC), que analisou os pagamentos destinados a agentes das forças de segurança que atuam em atividades de segurança, gestão e monitoria dentro das escolas estaduais.

GASTOS COM MILITARES NAS ESCOLAS DISPARAM

Segundo os dados analisados pelo sindicato, os gastos da Educação catarinense com militares da reserva cresceram cerca de 200 vezes entre 2019 e 2025.

O aumento ocorre paralelamente à ampliação do número de unidades que adotam o modelo cívico-militar. Em Santa Catarina, eram duas escolas nesse formato em 2020. Em 2026, o número chegou a 26 unidades.

De acordo com a avaliação do Sinte/SC, o montante destinado ao pagamento desses profissionais seria suficiente para custear a abertura de 413 vagas efetivas no magistério estadual ao longo de 2026.

A presidente do sindicato, Elivane Secchi, criticou a destinação dos recursos.

“Enquanto o governo amplia os gastos com militares da reserva, professores e professoras seguem reivindicando valorização salarial, descompactação da carreira e melhores condições de trabalho. Melhorar a educação exige investimento estrutural na escola pública e nos seus profissionais, não a expansão de um modelo militarizado”, afirmou.

MODELO CÍVICO-MILITAR AVANÇOU APÓS 2023

O Programa Estadual das Escolas Cívico-Militares foi instituído pelo governo catarinense em 2023, após o encerramento do Programa Nacional de Escolas Cívico-Militares (Pecim) pelo governo federal.

Criado em 2019 durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, o programa federal oferecia incentivos financeiros para que estados e municípios adotassem o modelo em suas redes de ensino.

Segundo os dados citados pelo Sinte/SC, o Pecim teve orçamento de R$ 64 milhões em seu último ano de funcionamento, em 2022, atendendo cerca de 0,1% das escolas brasileiras.

DENÚNCIA SOBRE IMPLANTAÇÃO EM ESCOLA DE SÃO JOSÉ

Em junho deste ano, a regional do Sinte/SC em São José protocolou uma denúncia junto ao Ministério Público questionando a implementação do modelo cívico-militar na Escola de Educação Básica Nossa Senhora da Conceição, localizada no bairro Roçado.

De acordo com o sindicato, a consulta realizada com a comunidade escolar ocorreu sem debate prévio suficiente e com acesso limitado às informações sobre a proposta.

A entidade sustenta que o processo teria comprometido a participação democrática de professores, estudantes e famílias na decisão sobre o futuro da unidade.

Após a denúncia, sindicalistas relataram ataques virtuais promovidos por parlamentares alinhados à extrema direita. Também houve relatos de pressão sobre professores da escola que se posicionaram em defesa da participação democrática durante o processo de consulta.

ESTUDO APONTA QUEDA NO IDEB EM ESCOLAS MILITARIZADAS

Um dos principais argumentos utilizados por defensores da militarização das escolas é que a presença de militares da reserva contribuiria para o aumento da disciplina e para a melhoria dos resultados educacionais.

Entretanto, um estudo elaborado pelo Sinte/SC aponta resultados diferentes.

De acordo com o levantamento, entre 2021 e 2023 as escolas estaduais militarizadas registraram redução de 8% nos indicadores do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) no Ensino Médio.

O sindicato argumenta que os dados colocam em dúvida a efetividade do modelo como estratégia para melhorar a aprendizagem dos estudantes.

PESQUISADORES QUESTIONAM BENEFÍCIOS DA MILITARIZAÇÃO DE ESCOLAS

Especialistas da área da educação também têm manifestado críticas à expansão do modelo cívico-militar.

A pedagoga e doutora em educação Catarina de Almeida Santos afirma que a qualidade da educação não deve ser medida apenas por indicadores relacionados à disciplina e à ordem.

“A escola é esse espaço de formação que tem a ver com o debate, com o questionamento, com o exercício do perguntar, do duvidar. O processo de militarização faz o inverso. Ele conforma a escola a um modelo em que só vai caber naquela escola quem se adequa a esse modelo. E o modelo da militarização é o modelo da uniformização, da ordem, de todo mundo obedecendo às mesmas regras”, completa Catarina.

DADOS COMPLETOS ESTÃO DISPONÍVEIS PARA CONSULTA

O levantamento elaborado pelo Sinte/SC reúne informações extraídas do Portal da Transparência do Governo de Santa Catarina e detalha a evolução das despesas da Secretaria de Estado da Educação com militares da reserva que atuam nas escolas estaduais.

Os dados completos podem ser consultados no relatório disponibilizado pela entidade sindical.

APOIE FINANCEIRAMENTE O CONECTA SC

Francine Canto Boico

Francine Canto Boico é jornalista multimídia com mais de 20 anos de experiência profissional na área de comunicação, educação e cultura. Pós-graduada em Jornalismo Digital e mestre em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC, é diretora e editora-chefe do Conecta SC.

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao Topo