O jovem negro Bruno Eulálio Santos concluiu o curso de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) após uma trajetória marcada por trabalho, dedicação e estratégias próprias de aprendizado. Conhecido por desenvolver um método de estudos baseado em cartões de memorização, ele participou da cerimônia de colação de grau nesta quinta-feira (9), no Centro de Cultura e Eventos da universidade, em Florianópolis.
A conquista encerra uma jornada de seis anos na graduação e simboliza uma mudança de vida iniciada anos antes, quando Bruno trabalhava como faxineiro e conciliava a rotina de trabalho com a preparação para o vestibular. Sua história destaca o papel da educação pública e das políticas de permanência estudantil na formação de novos profissionais.
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JOVEM NEGRO CRIOU MÉTODO DE ESTUDOS PARA INGRESSAR NA UFSC
Natural de Contagem (MG), Bruno estudou em escola pública e, após concluir o ensino médio, trabalhou em um lava-jato na comunidade da Ressaca.
Mais tarde, mudou-se para Santa Catarina para morar com a irmã mais velha, mantendo o compromisso de continuar os estudos. Para ajudar nas despesas, passou a trabalhar como faxineiro em um hospital de Balneário Camboriú enquanto se preparava para disputar uma vaga no ensino superior.
Com pouco tempo disponível para estudar, criou uma estratégia baseada em cartões de memorização, conhecidos como flash cards. Primeiro, produziu mais de 300 bilhetes com resumos das disciplinas e, depois, elaborou cerca de 1.300 cartões que carregava no bolso para revisar os conteúdos durante o trajeto entre casa e trabalho.
A metodologia contribuiu para sua aprovação no curso de Medicina da UFSC, onde ingressou no segundo semestre de 2020.
FORMAÇÃO ACONTECEU DURANTE E APÓS A PANDEMIA
Os dois primeiros semestres da graduação ocorreram durante a pandemia de Covid-19, período em que as aulas foram realizadas de forma remota.
“A pandemia foi um desafio para todo mundo, de adaptação à nova realidade. Eu fiz os dois primeiros semestres na pandemia somente, então eu creio que não tenha prejudicado tanto assim em relação ao meu curso, porque fez parte do ciclo básico, um ciclo em que normalmente é um contato mais acadêmico mesmo”.
Ao longo da graduação, Bruno adaptou seu método de estudos para plataformas digitais e continuou utilizando os flash cards como ferramenta de revisão dos conteúdos.
BOLSAS E ASSISTÊNCIA ESTUDANTIL AJUDARAM NA PERMANÊNCIA
Além de atuar como monitor da universidade, Bruno também produziu conteúdos para a internet voltados à preparação de estudantes para o Enem e vestibulares, atividade que complementou sua renda durante parte da graduação.
Nos semestres finais do curso, porém, precisou recorrer à política de permanência estudantil da UFSC e recebeu Bolsa Estudantil.
“Meu trabalho com a internet nunca parou, o que sempre auxiliou, de certa forma. Além disso, eu sempre fui monitor do curso, então eu tinha bolsa de monitoria. Mas no final do curso a minha realidade financeira mudou bastante, aí eu precisei fazer parte da política de permanência estudantil”.
EDUCAÇÃO PÚBLICA FOI DECISIVA NA TRAJETÓRIA
Agora médico formado, Bruno atribui sua conquista às oportunidades oferecidas pela educação pública e pelos programas de acesso e permanência no ensino superior.
“O que eu posso dizer é que a universidade pública mudou a minha vida. Se não fosse a universidade pública, se não fossem programas públicos como o Sisu, como o ProUni, que eu também concorri na época, se não fossem as políticas de ações afirmativas, se não fosse a política de permanência estudantil, se não fossem projetos como as monitorias, que permitem que os alunos possam ter algum tipo de remuneração durante a graduação, eu não teria permanecido. Então, o impacto na minha vida é imenso, tanto intelectual como social”.
Ele também destacou a importância de ampliar o acesso ao ensino superior.
“Acredito que todo jovem deveria ter acesso à universidade. Eu nem digo fazer a universidade propriamente dito, porque cada realidade é uma realidade, mas ter acesso à universidade, pois é um ambiente muito importante para o crescimento não só intelectual mas como pessoal também”.
Ao recordar sua trajetória, Bruno resumiu o sentimento após a formatura.
“Com muito orgulho, o faxineiro conseguiu. Depois de muito sangue, suor e lágrimas, hoje eu tenho o prazer de falar que eu sou médico formado pela Universidade Federal de Santa Catarina”.
