Avançar para o conteúdo

Uma cidade inteligente e criativa olha para as pessoas – por Ana Paula Lisboa Sohn

Este texto nasceu de uma atividade que desenvolvi na Universidade da Criativa Idade, projeto que coordeno na Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) e que tem como missão o desenvolvimento do capital humano e criativo. Na Criativa Idade criamos espaços de aprendizagem, convivência, troca de experiências e construção de novos conhecimentos, iniciativas que nos ajudam a construir uma cidade inteligente e criativa.

Afinal, a inteligência de uma cidade vai além da tecnologia que ela utiliza. Está também na capacidade de desenvolver pessoas, valorizar conhecimentos, estimular a criatividade e criar condições para que seus cidadãos participem ativamente da vida urbana.

Vivemos um dos momentos mais urbanos da história. Até 2050, estima-se que cerca de dois terços da humanidade viverão em cidades. Isso significa mais oportunidades de trabalho, educação, cultura e inovação, mas também amplia desafios como congestionamentos, poluição, desigualdade, violência e dificuldades de mobilidade.

Durante muito tempo acreditamos que a resposta a estes desafios estaria na infraestrutura e na tecnologia. Sensores, câmeras, aplicativos, inteligência artificial e grandes bases de dados não resolvem sozinhos os desafios da vida urbana.

Nos últimos anos o conceito de cidade inteligente tem se transformado, deixando de estar centrado exclusivamente na tecnologia e incorporando uma perspectiva mais ampla, que considera as necessidades e a qualidade de vida das pessoas.

É a partir dessa perspectiva que podemos pensar nas Cidades CHICS: humanas, inteligentes, criativas e sustentáveis. Cidades que tomam decisões baseadas nas necessidades humanas, no desenvolvimento social, na promoção da qualidade de vida.

Em Seul, a análise de dados sobre os deslocamentos noturnos da população permitiu identificar demandas e reorganizar linhas de transporte de acordo com os hábitos e as necessidades dos cidadãos.

A inteligência não estava apenas nos dados. Estava na capacidade de transformá-los em uma decisão que melhorasse a vida das pessoas.

Cidades produzem uma quantidade extraordinária de informações todos os dias. Dados sobre trânsito, saúde, segurança, transporte, meio ambiente e utilização dos espaços públicos.

Mas dados não significam necessariamente conhecimento. E conhecimento não significa necessariamente boas decisões.

Uma cidade inteligente precisa observar o que acontece, ouvir seus cidadãos, aprender com experiências anteriores, testar soluções, avaliar resultados e mudar quando necessário.

É humana quando coloca a qualidade de vida das pessoas no centro de suas decisões. É inteligente quando transforma conhecimento e tecnologia em soluções para problemas reais. É criativa quando mobiliza pessoas e ideias para encontrar novas respostas aos desafios urbanos. E é sustentável quando pensa o desenvolvimento de hoje sem comprometer as condições de vida das próximas gerações.

Nesse contexto, a criatividade ajuda a reconhecer problemas e construir novas soluções; a sustentabilidade está presente na forma como nos deslocamos, consumimos, construímos e convivemos; e a tecnologia facilita a vida sem substituir as relações humanas.

Os olhos das ruas criativas

A jornalista Jane Jacobs, observando as ruas de Nova York, percebeu que cidades funcionam melhor quando existem pessoas ocupando seus espaços. Moradias, comércio, escolas, cafés, serviços e praças fazem com que diferentes pessoas circulem em diferentes horários. Ela chamou essa dinâmica de ‘olhos da rua’. Não eram câmeras. Eram pessoas caminhando, conversando, observando e vivendo a cidade.

Em pleno século XXI, essa reflexão continua atual. Tecnologia pode contribuir para a segurança, mas nenhuma tecnologia substitui completamente uma rua viva.

Assim como Jacobs, o urbanista dinamarquês Jan Gehl dedica-se a observar pessoas caminhando. Enquanto grande parte do planejamento urbano enxergava a cidade por mapas e grandes projetos, Gehl decidiu observá-la da altura dos nossos olhos.

A cidade vista de cima é composta por avenidas, edifícios e sistemas de transporte. A cidade vista por quem caminha é feita de calçadas, sombras, árvores, bancos, encontros, segurança e sensações.

Uma avenida pode ser eficiente para os automóveis e péssima para quem caminha. Uma praça pode parecer belíssima vista por um drone e ser desconfortável para quem tenta permanecer nela.

Uma cidade inteligente e criativa precisa enxergar as duas perspectivas.

Outra dimensão fundamental das Cidades CHICS é a criatividade.

Nem toda inovação urbana precisa envolver milhões de reais ou tecnologias sofisticadas. Uma intervenção artística pode transformar um espaço abandonado em ponto de encontro. Uma solução simples pode tornar uma calçada mais acessível. Pequenas mudanças podem transformar a maneira como as pessoas utilizam a cidade.

Criatividade urbana significa experimentar e permitir que cidadãos, universidades, empresas, organizações sociais e governos pensem juntos sobre os problemas urbanos.

Uma cidade criativa é uma cidade capaz de mobilizar a inteligência coletiva de quem vive nela.

Volto, então, ao ponto que inspirou esta reflexão: investir nas pessoas também é investir na inteligência das cidades. Educação ao longo da vida, conhecimento, criatividade, convivência e participação também constroem cidades mais humanas, inteligentes, criativas e sustentáveis. Porque cidades são feitas de pessoas. E é justamente aí que começa a verdadeira inteligência urbana.