Estudantes da EEB Nossa Senhora da Conceição fizeram abaixo-assinado contra o modelo e relatam que tiveram a circulação restringida; Sinte/SC classifica episódio como repressão, enquanto SED e professores apresentam versões diferentes
Alunos da EEB Nossa Senhora da Conceição, no bairro Roçado, em São José, protestaram contra o modelo cívico-militar adotado na unidade e denunciaram terem sido impedidos de circular por parte da escola durante a mobilização. O episódio ocorreu na manhã de sexta-feira (21), enquanto estudantes recolhiam assinaturas para um abaixo-assinado contrário ao modelo.
A denúncia foi levada ao Sindicato dos Trabalhadores em Educação na Rede Pública de Ensino do Estado de Santa Catarina (Sinte/SC), que classificou o episódio como repressão à manifestação estudantil. A entidade afirma ter recebido relatos e registros em vídeo e cobra esclarecimentos da Secretaria de Estado da Educação (SED).
A Secretaria apresentou uma versão diferente. Segundo a pasta, houve um tumulto envolvendo estudantes durante o intervalo e, após o recreio, foi necessário reorganizar o ambiente escolar e orientar os alunos a retornar às atividades pedagógicas.
Professores da unidade também contestaram pontos da denúncia e afirmaram que apenas um dos acessos estava fechado naquele momento, procedimento que, segundo eles, faria parte da rotina de segurança da escola.
As versões disponíveis divergem sobre as circunstâncias em que ocorreu a restrição de circulação. No centro da controvérsia está a mobilização dos próprios estudantes, que decidiram demonstrar oposição ao modelo cívico-militar implantado na unidade.
ALUNOS ORGANIZARAM ABAIXO-ASSINADO CONTRA MODELO CÍVICO-MILITAR
Segundo o Sinte/SC, dezenas de estudantes circulavam pela EEB Nossa Senhora da Conceição para conseguir assinaturas em um abaixo-assinado contra a implantação do modelo cívico-militar.
Durante a mobilização, conforme os relatos recebidos pelo sindicato, os alunos foram orientados a seguir para uma determinada ala da instituição.
Depois que chegaram ao espaço indicado, ainda segundo a denúncia, militares teriam trancado a ala e impedido a circulação dos estudantes.
O Sinte/SC informou ter recebido vídeos e relatos sobre o ocorrido e afirmou que passou a reunir mais informações para esclarecer as circunstâncias do episódio.
Um dos vídeos divulgados após a mobilização mostra uma estudante diante de um portão fechado e um grupo de alunos reunido no local.
“Trancaram os alunos aqui dentro, porque a gente não pode se pronunciar sobre o sistema da nossa escola”, afirma a estudante na gravação.
O vídeo registra a reclamação dos estudantes sobre a restrição naquele momento, mas, isoladamente, não permite identificar quem determinou o fechamento do acesso nem estabelecer a motivação da medida.
SINTE/SC CLASSIFICA EPISÓDIO COMO REPRESSÃO AOS ESTUDANTES
Para o Sinte/SC, manifestações estudantis e a participação dos alunos nas discussões sobre os rumos da própria escola fazem parte do exercício democrático e devem ser respeitadas.
O sindicato considera grave qualquer medida que impeça estudantes de se manifestarem pacificamente ou que restrinja a liberdade de circulação como forma de desmobilizar um protesto.
A entidade também relaciona o episódio à posição que vem adotando contra a expansão das escolas cívico-militares em Santa Catarina.
“A presença de uma lógica militar no ambiente escolar enfraquece a gestão democrática, limita a liberdade pedagógica. A defesa do Sinte/SC é por uma escola pública inclusiva, acolhedora e conduzida por profissionais da educação, que são os trabalhadores preparados para lidar com os desafios do processo educativo”, afirma Elivane Secchi, presidente do Sinte/SC.
O sindicato informou que acompanha o caso e cobra esclarecimentos da Secretaria de Estado da Educação sobre o tratamento dado aos estudantes durante a mobilização.
RELATOS APONTAM TENSÃO ANTES DA MOBILIZAÇÃO
A circulação do abaixo-assinado foi precedida por outro episódio de tensão relatado por integrantes da comunidade escolar. Segundo essa versão, um estudante utilizava o celular para registrar uma abordagem dentro da unidade quando um policial teria retirado o aparelho das mãos do aluno.
O relato foi apresentado por pessoas ligadas à mobilização contra o modelo cívico-militar, mas os detalhes do episódio não foram confirmados de forma independente.
A situação teria ocorrido antes da organização do abaixo-assinado e aumentado a tensão entre estudantes e integrantes do modelo cívico-militar. Posteriormente, alunos passaram a recolher assinaturas contra o programa.
ABAIXO-ASSINADO TAMBÉM É ALVO DE VERSÕES DIFERENTES
Outro ponto de divergência envolve o que aconteceu com o documento elaborado pelos estudantes. Relatos ligados à mobilização indicaram que o abaixo-assinado teria sido retirado durante a atividade.
Professores da escola, entretanto, apresentaram outra versão. Segundo dois docentes que se manifestaram após a repercussão do caso, a EEB Nossa Senhora da Conceição realizava uma feira de ciências nos dias 20 e 21 de agosto, com horários organizados para a circulação das turmas. De acordo com os professores, o abaixo-assinado começou a circular justamente durante as apresentações.
Eles afirmaram não serem contrários à existência do documento, mas defenderam que a coleta das assinaturas deveria ocorrer em momento e local que não interferissem nas atividades programadas pela escola. Os docentes também contestaram a informação de que o documento teria sido retirado à força dos estudantes. Segundo essa versão, um professor responsável pelo projeto encontrou o abaixo-assinado sobre uma mesa e o recolheu.
PROFESSORES NEGAM QUE POLICIAIS TENHAM FECHADO PORTÃO
Os professores também contestaram o ponto central da denúncia apresentada pelo Sinte/SC.
Segundo os docentes, a escola possui dois acessos e apenas um dos portões estava fechado naquele momento. A medida, de acordo com eles, seria adotada rotineiramente como procedimento de segurança durante o recreio das turmas menores. Eles também negaram que policiais tenham sido responsáveis pelo fechamento do acesso.
“Os policiais em nenhum momento agrediram esses alunos. Os policiais em nenhum momento fecharam esse portão”, afirmaram os professores em vídeo divulgado após a repercussão do episódio.
Essa versão diverge diretamente da apresentada pelo Sinte/SC, que afirma ter recebido relatos de que militares teriam trancado a ala para onde os estudantes foram direcionados.
Até o momento, não há uma apuração independente que permita estabelecer quem determinou o fechamento do acesso mostrado nas imagens, por quanto tempo houve restrição à circulação e qual foi a motivação da medida.
SED DIZ QUE HOUVE TUMULTO DURANTE O INTERVALO
Procurada pela imprensa, a Secretaria de Estado da Educação, por meio da Coordenadoria Regional de Educação de Florianópolis, informou que tomou conhecimento do episódio e acompanha a situação. Segundo a pasta, com base nas informações da equipe gestora da escola, houve um tumulto envolvendo estudantes durante o intervalo entre as aulas.
Após o término do recreio, conforme a SED, foi necessário reorganizar o ambiente escolar e orientar os estudantes a retornar às atividades pedagógicas. A versão apresentada pela Secretaria não confirma a denúncia de que os alunos tenham sido impedidos de circular como forma de repressão à mobilização contra o modelo cívico-militar.
IMPLANTAÇÃO DO MODELO JÁ ERA QUESTIONADA PELO SINTE
A discussão sobre o modelo cívico-militar na EEB Nossa Senhora da Conceição começou antes dos acontecimentos de sexta-feira. Em junho, a Regional do Sinte de São José denunciou ao Ministério Público a forma como teria sido conduzido o processo de implantação do programa na unidade.
Segundo o sindicato, a consulta à comunidade escolar ocorreu sem debate prévio considerado adequado e com acesso limitado às informações sobre a proposta. Na avaliação da entidade, essas condições teriam comprometido a participação democrática da comunidade nas discussões sobre o futuro da escola.
O Sinte/SC também afirma ter recebido relatos de que professores da unidade estariam sofrendo pressão após defenderem maior participação democrática na decisão sobre a implantação do modelo.
SED AFIRMA QUE ADESÃO TEVE APROVAÇÃO DA MAIORIA
A Secretaria de Estado da Educação apresenta outra avaliação sobre o processo. Segundo a SED, a EEB Nossa Senhora da Conceição passou a adotar o modelo cívico-militar após uma solicitação aprovada pela maioria da comunidade escolar.
A divergência, portanto, não está apenas no resultado da consulta. Enquanto o Governo do Estado aponta a aprovação majoritária como fundamento para a implantação do programa, o Sinte questiona as condições em que a discussão e a votação foram realizadas.
PROTESTO COLOCA PARTICIPAÇÃO DOS ALUNOS NO CENTRO DO DEBATE
As versões sobre o que aconteceu dentro da EEB Nossa Senhora da Conceição na sexta-feira permanecem divergentes. Os estudantes envolvidos na mobilização denunciaram que tiveram a circulação restringida enquanto protestavam contra o modelo cívico-militar. O Sinte/SC considera que houve repressão e cobra esclarecimentos do Governo do Estado.
A SED sustenta que houve um tumulto durante o intervalo e que a intervenção teve como objetivo reorganizar a rotina escolar. Professores que se manifestaram sobre o episódio também negam que policiais tenham fechado o acesso para impedir o protesto.
O episódio, contudo, expôs uma divergência que vai além do que ocorreu diante do portão: parte dos estudantes contesta o modelo cívico-militar e reivindica espaço para participar das decisões sobre a própria escola.
