Especialistas em geopolítica, relações internacionais e tecnologia avaliam que a escalada de tensões entre os governos pode avançar para o ambiente digital. Memorando de Donald Trump que prevê cooperação com empresas privadas amplia os alertas sobre possíveis tentativas de influência no pleito brasileiro.
As eleições gerais brasileiras de outubro de 2026 entram no radar de analistas que veem risco de uma nova frente de pressão dos Estados Unidos sobre o país: o ambiente cibernético. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil avaliam que a atual escalada de medidas adotadas pelo governo de Donald Trump pode abrir espaço para ações digitais voltadas à vigilância, à influência política e à tentativa de interferir na percepção pública sobre o processo eleitoral.
A preocupação ganhou força após a assinatura, em 12 de agosto, de um memorando da Casa Branca que amplia a capacidade dos Estados Unidos de atuar contra crimes cibernéticos transnacionais. O texto prevê parcerias com empresas privadas e autoriza medidas que incluem o acesso a sistemas sem autorização do proprietário, além de operações capazes de manipular, interromper ou degradar redes e infraestruturas.
Para o pesquisador Reynaldo Aragon, do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação e editor do portal Código Aberto, o alcance do novo normativo merece atenção especial.
“Os efeitos desse memorando são assustadores. A gente está falando de espionagem e ação de hackeamento de altíssimo nível e muito profundo. Eles podem entrar literalmente no perfil de qualquer pessoa para fazer relatórios e dossiês para favorecer ou prejudicar determinado candidato”, disse.
O alerta ocorre em meio ao aumento das tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. A sequência recente de medidas inclui o tarifaço de 25% e o cancelamento de vistos de autoridades brasileiras, fatores que, na avaliação dos especialistas, indicam a possibilidade de novos desdobramentos.
MEMORANDO PREVÊ PARCERIA COM EMPRESAS PRIVADAS
Embora o documento tenha como justificativa o combate ao crime cibernético transnacional, analistas destacam que os mecanismos previstos ampliam a capacidade de atuação do governo norte-americano no espaço digital.
Entre as possibilidades descritas está o acesso a sistemas de informação sem autorização ou além do nível de acesso originalmente concedido. O memorando também estabelece operações de “efeitos cibernéticos”, que podem atingir redes de telecomunicações, sistemas de informação e infraestruturas físicas ou virtuais.
Na prática, essas ações podem envolver manipulação, interrupção, negação, degradação ou destruição de sistemas.
Para Aragon, o debate também expõe a dependência tecnológica do Brasil. O pesquisador defende investimentos em infraestrutura digital própria diante do fato de que “todos os sistemas sensíveis do Estado brasileiro estão na mão de sistemas de empresas dos EUA”.
RISCO DE OPERAÇÕES OCULTAS
Diferentemente de sanções comerciais ou decisões diplomáticas, uma eventual operação no ambiente digital poderia ocorrer de forma discreta, sem identificação imediata de seus responsáveis.
Aragon avalia que essa característica torna o risco ainda mais complexo. Segundo ele, a atuação pode começar pela amplificação de determinados conteúdos ou perfis e alcançar estratégias mais amplas de influência.
“O impulsionamento de perfis nas redes sociais é só uma das ações que já estão ocorrendo, mas pode ir muito além. O risco é sistêmico e estrutural”, completou.
Em julho, o governo brasileiro já havia barrado a entrada de dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos diante da suspeita de que eles pretendiam questionar o sistema eleitoral brasileiro.
TENTATIVAS DE DESACREDITAR O PROCESSO ELEITORAL
O professor de história e especialista em geopolítica Euclides Vasconcelos considera provável que os Estados Unidos adotem novas iniciativas capazes de interferir no cenário eleitoral brasileiro. Entre os riscos apontados está uma tentativa de enfraquecer a confiança pública nas eleições e nas urnas eletrônicas.
“As big techs são muito mais que plataformas ou espaços de discussões. Elas são empresas ligadas a Estados, ligadas a governos, que têm esforços e que conseguem mobilizar, canalizar e influenciar de maneira muito direta certos recortes demográficos da população”, comentou.
Para Vasconcelos, a capacidade de direcionar informações a grupos específicos transforma as grandes plataformas digitais em atores relevantes em disputas políticas e geopolíticas.
O especialista cita ainda episódios internacionais para demonstrar como a circulação de desinformação nas redes pode mobilizar grandes grupos. A imigração em massa para Ceuta, enclave espanhol no continente africano, é mencionada como exemplo do impacto que informações falsas podem ter sobre decisões coletivas.
BIGTECHS NO CENTRO DA DISPUTA GEOPOLÍTICA
Outro fator observado pelos analistas é a aproximação entre grandes empresas de tecnologia e estruturas do governo norte-americano.
Vasconcelos lembra a presença dos principais empresários do setor tecnológico na posse de Donald Trump como um sinal dessa relação. Na avaliação dele, essas empresas podem atuar como “uma espécie de tentáculo dos interesses dos EUA na nossa região”.
Em 2025, o Exército dos Estados Unidos anunciou a nomeação de executivos ligados a empresas como Meta, OpenAI e Palantir para o recém-criado Destacamento 201, iniciativa voltada à aproximação entre o setor militar e lideranças da tecnologia.
Para os especialistas, essa conexão entre plataformas digitais, empresas privadas e estruturas de Estado amplia a importância do debate sobre soberania tecnológica em países que dependem de sistemas estrangeiros.
NOVA DOUTRINA DOS EUA COLOCA AMÉRICA LATINA NO FOCO
Na análise de Euclides Vasconcelos, as tensões atuais devem ser interpretadas também à luz da nova doutrina de segurança dos Estados Unidos, divulgada no fim de 2025. O documento reforça a ideia de “proeminência” norte-americana na América Latina.
O mestrando em ciências militares entende que essa estratégia busca ampliar a influência de Washington sobre os governos da região.
“Os EUA tentam consolidar o continente americano por completo com governos à sua imagem e semelhança. Houve uma intervenção muito forte na eleição colombiana e um esforço parecido em outros países da região nessa lógica de tentar moldar todo o continente”, disse.
Em junho deste ano, Donald Trump indicou que a eleição brasileira representa mais um teste para a geopolítica norte-americana na América Latina. Pouco depois, o Departamento de Estado dos EUA também divulgou uma mensagem afirmando que a “dominação” norte-americana sobre a região não poderia mais ser questionada.
Para Vasconcelos, o peso econômico, territorial e político do Brasil explica por que o país ocupa posição central nesse cenário.
“E, para isso, o Brasil é uma peça-chave. O Brasil sempre foi visto pelos EUA como o único país que, se quisesse, poderia desafiar a dominação estadunidense nisso que eles chamam de ‘seu hemisfério’ ”, concluiu o especialista.
Com a aproximação das eleições de outubro, os alertas reforçam o debate sobre segurança cibernética, soberania digital e a capacidade do Brasil de proteger sua infraestrutura e seu processo eleitoral. Para os analistas, o impacto de uma eventual interferência não dependeria necessariamente de uma ação direta ou publicamente assumida: a disputa pode se desenvolver de maneira silenciosa, dentro das próprias redes e sistemas digitais que sustentam a comunicação política contemporânea.
Com informações de Agência Brasil
