Um texto intitulado “O tesouro escondido sob as florestas”, publicado no portal da Associação Catarinense de Empresas Florestais (ACR), desinforma ao apresentar monocultivos comerciais de pínus como aliados inequívocos da conservação do solo, da água, da biodiversidade e do clima. Transformar benefícios de uma atividade econômica em benefícios socioambientais abrangentes, ignorando os custos e perdas da substituição de ecossistemas nativos por espécies exóticas invasoras, é, no mínimo, injusto.
Originários dos Estados Unidos, Pinus taeda e Pinus elliottii foram introduzidos no Brasil e são cultivados na região Sul principalmente para abastecer cadeias industriais. Somente em Santa Catarina, as plantações de pínus ocupam 714 mil hectares. Sua relevância econômica não torna esses cultivos equivalentes a ecossistemas nativos.
Os campos nativos são ecossistemas antigos, diversos e coloridos. Tratá-los como áreas degradadas por não serem cobertas por árvores é uma visão equivocada. Pesquisas registraram centenas de espécies de plantas nos Campos de Cima da Serra, muitas delas exclusivas da região. Em um único metro quadrado, podem conviver mais de 30 espécies, chegando a 50 em alguns locais. Substituir esses campos por plantações uniformes não é acrescentar uma floresta a uma paisagem vazia, e sim eliminar habitat e comprometer a biodiversidade, os benefícios ambientais e os valores culturais. A cor verde, por si só, não indica integridade ecológica.
Aliados pouco reconhecidos no enfrentamento das mudanças climáticas, os campos nativos ocupam cerca de 40% das áreas terrestres do planeta e armazenam aproximadamente um terço do carbono dos ecossistemas terrestres. Quase 90% desse patrimônio está sob nossos pés, nas raízes e no solo. A diversidade de plantas ajuda a formar e conservar esse estoque, enquanto o manejo adequado e a restauração com espécies nativas podem ampliá-lo. A conversão de campos em plantações de pínus reduz carbono e nitrogênio na camada superficial do solo. Proteger o clima, portanto, não é cobrir campos com árvores, mas sim conservar a biodiversidade e os processos naturais que mantêm o carbono no solo.
Queimas planejadas não são o mesmo que incêndios descontrolados. Nos campos nativos, o fogo manejado ajuda a conservar esses ecossistemas e a reduzir o acúmulo de material combustível. Quando o fogo e o pastejo são excluídos, os arbustos avançam e os campos perdem suas características. Por outro lado, os plantios de pínus, altamente inflamáveis, concentram a biomassa, podendo alterar o regime de fogo local e aumentar o risco de incêndios mais severos, como tem ocorrido na Patagônia chilena e argentina.
O pínus pode escapar das plantações e invadir ecossistemas abertos, como os campos nativos, trazendo consequências para a vegetação nativa. Em uma área invadida por pínus, pesquisadores observaram, após 22 anos, o desaparecimento da vegetação campestre que cobria o solo e uma significativa redução da diversidade de plantas. O plantio de árvores em campos também pode reduzir a produção de água: um estudo global encontrou diminuição média de cerca de 40% no escoamento em áreas plantadas com pínus. Soma-se a isso a serrapilheira seca, que pode alimentar o fogo e, portanto, não deve ser apresentada apenas como benefício.
A produção responsável começa pelo reconhecimento de seus limites. As plantações de Pinus podem gerar madeira, empregos e renda. Mas produzir com responsabilidade significa reconhecer e reduzir os impactos negativos. Isso inclui conservar o solo, proteger rios e nascentes, prevenir incêndios e impedir que o pínus se espalhe para além das áreas de cultivo.
No país com a maior biodiversidade do planeta, não podemos aceitar que um sistema produtivo baseado em árvores exóticas invasoras seja apresentado como prova de conservação e como solução para o clima, o solo e a água.
O verdadeiro tesouro sob nossos pés não é apenas o carbono: inclui raízes, organismos do solo, água e a história evolutiva dos campos nativos. Proteger esse patrimônio exige considerar o conjunto das evidências científicas, e não selecionar resultados convenientes a uma narrativa promocional.
INCT AdaptaVeg
O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia AdaptaVeg (INCT AdaptaVeg) investiga o manejo e a conservação da biodiversidade e seus benefícios em campos e savanas diante da crise climática. Reúne mais de 20 instituições de referência — incluindo instituições de ensino superior, IBAMA, Embrapa e ICMBio — com aproximadamente 40 pesquisadores nacionais e internacionais.
